
Loucura
Uma das consequências de uma possível volta da extrema direita ao poder federal será a imediata desmoralização do Supremo e da Justiça brasileira. Os candidatos têm sido claros: indultarão os golpistas, abrirão as portas das prisões, perturbarão à exaustão o que temos por “supremo” e, para dizer tudo em algumas palavras, desacreditarão as leis e, senão elas, os que têm por dever aplicá-las. O processo iniciado por Jair Bolsonaro prosseguirá tensionando a democracia. Nada estranho, tudo óbvio, seguindo um roteiro já seguido em outros grandes países. Em tal cenário, caberia uma pergunta: haverá ainda uma resiliência a nos salvar?
Por notoriamente despreparado e governar apenas com o fígado, Bolsonaro não destruiu por completo as instituições. Não “reformou-as”. Preferiu, se é que não é uma fatalidade do seu caráter, levar a política para um campo quase que exclusivamente pessoal. Outros agora, mais inteligentes, serenos e profissionais, uma vez empoderados, e em companhia de um parlamento “simpático”, poderão consumar a obra inacabada.
A sonhada “pacificação nacional” não passa de uma expressão para inglês ouvir! Como conciliar “pacificação” com a conhecida e beligerante agitação fascista? Só acredita nisso, para lembrar Manuel Bandeira, os “que envelheceram sem maldade”… O que temos para o dia, infelizmente, é puro suco de ódio, de um ódio momentaneamente adoçado por uma moderação “tutti frutti”.
Não faremos qualquer favor a Lula, embora tenha ele os seus pecados veniais, se dissermos que, até agora, é o único candidato que reza pelo catecismo democrático. Aliás, também o catecismo está indiretamente sob ataque, e Donald Trump logo perguntará, sem qualquer originalidade, quantas divisões tem o papa. Talvez ele fique surpreso com a resposta!
É, portanto, uma lástima, como tantos comentam Brasil afora, que o sistema político-partidário não consiga posicionar, além de Lula, um outro candidato à altura da democracia. Os antilulistas de carteirinha logo dirão que o próprio Lula exerce um domínio castrador, evitando quem lhe faça sombra. Mas a democracia vai além do PT. Na minha ignorância política, penso que a situação é mais complexa. Ou, noutras palavras, que há uma pane no sistema a exigir reformas e ajustes. Tudo concorre para uma frouxidão e uma leveza de que só os aproveitadores e bons estrategistas sabem extrair todo o pragmático sumo.
No caso americano, vejam só, a população e os políticos, por conta de questões puramente internas, reelegeram um Trump que deveria ser teoricamente “doméstico”, mas que, não satisfeito de mandar na própria casa, vem querendo mandar, ou está mandando, no resto do mundo. Todavia, quer por razões políticas, quer por razões de ordem tecnológica, tudo está interconectado, e muito mais do que pensa a vã filosofia do americano médio. Com ou sem loucura, Trump precisa sair da Casa Branca. Por que não sai? Por uma questão político-cognitiva. Que o tornem inquilino da Casa Verde, de Machado de Assis, para fazer companhia ao Dr. Simão Bacamarte.
Quanto ao Brasil, casa verde e amarela, pátria do citado psiquiatra Simão Bacamarte, resta-lhe trabalhar muito para que continue sendo uma democracia e possa sempre aperfeiçoá-la. Ruim com ela, muito pior sem ela. Ao que parece, o resto é loucura.
É difícil acreditar que alguém de boa fé deixe de apreciar, julgar e reconhecer as razões deste notável artigo.
Ainda mais porque vem com a moldura criativa do vasto conhecimento literário doo seu autor.
Saravá!
Sarará, Mestre.
Obrigado pelo generoso comentário.