
Zorba, o grego
9/2026
Se eu conversasse com Deus
Iria lhe perguntar
Por que é que sofremos tanto
Quando viemos pra cá?
Que dívida é essa que a gente
Tem que morrer pra pagar?
Perguntaria também
Como é que ele é feito
Que não come, que não dorme
E assim vive satisfeito
Por que foi que ele não fez
A gente do mesmo jeito?
Por que existem uns felizes
E outros que sofrem tanto?
Nascemos do mesmo jeito
Moramos no mesmo canto
Quem foi temperar o choro
E acabou salgando o pranto?
Leandro Gomes de Barros, citado por Ariano Suassuna
Mors, ultima ratio. Mors, omnia solvit[1]. Costuma-se afirmar que não há, na vida, problema sem solução. O único seria a morte, que não deixa de ser também, em si, uma solução. É o que se contém nas frases latinas com que abro este colóquio. A questão passa a ser, portanto, as suas adjacências: como morrer e quando. No segundo caso, apenas pelo fato de que sempre temos algo a concluir, antes de enfrentar a “indesejada das gentes”, ou mesmo algum projeto ainda a executar. E assim não há pressa em pagar a dívida de que fala o poeta. Mas no primeiro caso, como nos comportar em face da “iniludível”: sorrir-lhe de volta (como recomendou o filósofo Marco Aurélio, imperador romano), dar-lhe pouca importância, expressar nossa inconformidade, ou aceitá-la pacífica e resignadamente?
Admito que os versos do poeta popular acima não contribuem para a abordagem que pretendo dar ao caso. Mas sua dimensão filosófica e sua força poética podem servir como aperitivo às minhas especulações. O próprio Ariano, reconhecidamente religioso e devoto de Nossa Senhora, a “Compadecida”, valoriza o texto, como “um recado dos que não creem em Deus aos crentes”.
Meu amigo Francisco Gil Messias, em seu último livro de crônicas, “A Mosca na Parede”, discorrendo sobre a natureza acidental, cambiante, fortuita, desse gênero tão tipicamente brasileiro, onde ele já se revelou um mestre, fala de suas múltiplas motivações: um evento qualquer, uma simples lembrança, até mesmo outra crônica. E é uma destas, em que ele comenta a “recusa da morte” da escritora americana Susan Sontag, que motiva agora as minhas especulações.
- Gil Messias, ao comentar o caso da famosa escritora, que foi acompanhado pelo seu filho único, também escritor, parece não compreender – ou mesmo censurar – a atitude da moribunda, ao não se conformar com o desfecho inevitável, morrendo “sem a paz dos que aceitam sabiamente o que não se pode mudar”. Ora, amigos, quero reportar dois casos em que a não aceitação da morte pode ser também um recurso para se viver bem, enquanto dure a vida. Vamos então a eles.
Meu querido amigo Paulo Pontes, tão talentoso e brilhante que hoje é nome de teatro no Espaço Cultural José Lins do Rego, de João Pessoa, sempre foi extravagante com sua saúde. Fumava muito, tinha úlceras, acabou por contrair um câncer que o levou à morte prematuramente, assim como aconteceu com Vianinha (Oduvaldo Viana Filho), seu parceiro em peças teatrais que fizeram história. Quando se percebeu perto do fim, cuidou quase sigilosamente de sua mãe, assegurando o futuro dela, e pôs-se a trabalhar como se já não estivesse com os dias contados. A amigos que o foram visitar, no leito do hospital do Rio, afim de convidá-lo para um evento teatral em João Pessoa, pediu desculpas por não poder comparecer naquele ano, prometendo participar no ano seguinte. Morreu pouco depois.
O outro caso é o meu próprio. Quando, há seis anos, fui surpreendido por um AVC que me paralisou todo o lado direito do corpo, e me impôs doze dias de internação hospitalar e três meses de fisioterapia, em nenhum momento me passou pela cabeça a eventualidade da morte. Minha preocupação única era a recuperação, que levei a termo quase completamente, apenas com leve perda de destreza em perna e braço do lado afetado. Mas agora, que tenho retomado todas as minhas atividades, penso, quase obsessivamente, na “bruxa que é cega” da canção de Billy Blanco. Curiosamente, no entanto, sem qualquer sombra de temor ou inquietude. Por que?
Racionalista, como sou, não temo as chamas infernais nem aspiro à eterna beatitude dos crentes. Para mim, tudo termina em um grande sono, sem sonhos, quando cessam todas as preocupações. Trata-se apenas do último ato da vida, e esta é a que importa. Vivê-la bem implica não atribuir importância ao seu fim. Somerset Maugham, pela boca de um dos personagens do seu clássico romance “Servidão Humana”, considera loucura a atitude cristã tradicional de “viver com os olhos voltados para a morte”. Para mim, tal postura não é mais que uma receita para a infelicidade.
E quanto à posteridade, em que pensamos também ao morrer, só percebo, ao meu alcance, filhos, netos e bisnetos. O olhar para adiante é inútil, não pode haver projeções criteriosas. O que não me impede de, ao manter minha crença no futuro da humanidade, agir com compostura e ética, em prol de todos os que virão depois de mim. E confesso, não tenho pressa para o desfecho: acho a vida boa, e tenho uma linda netinha temporã, de três anos, que gostaria muito de ver crescer.
Assim, “in articulo mortis”, ambas as atitudes merecem respeito. Seja a de minha bisavó afrodescendente, que reuniu sua numerosa prole, consolou a todos, despediu-se e fechou os olhos, seja a que envolve o personagem de Kazantzakis, em seu magnífico livro “Zorba, o Grego”, que passo a rememorar.
No filme com o mesmo título, o diretor recorreu a uma feliz sequência cenográfica para encerrá-lo: quando fracassa a experiência de ativar a mina de linhita, motivo do enredo, o patrão, conformado, pede a Zorba, brilhantemente interpretado por Antony Quinn, que o ensine a dançar. E a cena se fecha com os dois dançando. Mas eu, que li o livro, reporto o verdadeiro final. Levantando-se do seu leito de morte, nosso herói vai até a janela de sua casa, agarra-se ao parapeito, e fica olhando o mundo lá fora, sedento de vida, até tombar morto. O fato é narrado pelo pároco da aldeia em carta ao patrão, convidando-o a visitar a casa da viúva, e receber o presente deixado por Zorba para ele: um santuri[2].
Como vemos, pode-se aceitar a morte com placidez e resignação. Mas também – e considero válido – rejeitá-la, desprezá-la, negar-lhe importância no confronto com a vida, e morrer de olhos abertos, como morrem os combatentes.
[1] “A morte é o argumento final. A, morte resolve tudo”.
- [2] Santuri: instrumento musical de cordas.
Prezado Clemente :
Gostei muito do seu artigo (muitíssimo até). Vi na bibliografia que você menciona um livro seu “Praia do Flamengo, 132 – Memórias”, do qual gostaria muito de preparar uma resenha para publicação no jornal Monitor Mercantil, de cujo Conselho Editorial faço parte. Procurei-o em sebos do Rio – e também na Amazon e no Mercado Livre – mas não o encontrei. Você poderia me dizer onde eu poderia encontrá-lo ?
Abraço afetuoso.
Mauricio Dias David
P.S. Me imagino que você tenha sido contemporâneo na UNE de um grande amigo meu, Marcello Cerqueira, lamentavelmente recentemente falecido…
Caro Maurício,
Claro que me lembro de Marcelo Cerqueira, ótima figura. Sei até de cor dois “sambinhas” compostos por ele. E acompanhei, de longe, sua trajetória política, com alegria e entusiasmo.
Sobre meu livro “Praia do Flamengo 132”, que está esgotado, tive notícia de que um “sebo” daqui de João Pessoa, que tem duas lojas, tem ainda alguns exemplares disponíveis. Chama-se SEBO CULTURAL. Sugiro que faça contato com ele. Infelizmente, não tenho os endereços das lojas para lhe dar agora. e sou semialfabetizado em informática. Mas gostaria de que você encontrasse o livro. Dê-me notícia disso. Meu e-mail é clementerosas@outlook.com.br. Abraço.
Tenho certeza que vc verá essa netinha que você tanto ama crescer e quem sabe, desabrochar.
Combatente vc foi, é e será sempre….
Vamos em frente meu velho, meu exemplo!!!
Juntos, como deve ser
Amamos você (Eu e sua netinha)
Tenho certeza que vc verá essa netinha que vc tanto ama crescer e quem sabe, desabrochar.
Combatente vc foi , é e será sempre, meu Pai.
Meu exemplo de vida!
Vamos em frente…
Amamos você (eu e sua Maitê)
Obrigado, filha. Você me comoveu. E reforçou minha determinação de seguir em frente, como Zorba, o grego.
Belo poema e bela reflexão sobre a morte. Gosto da idéia que mistura as opções da bisavó afrodescendente e de Marco Aurélio. Se fosse possível, reuniria todos, me despediria, sorriria de volta para a morte e partiria.
Aproveito pra compartilhar outras visões e abordagens sobre a Morte.
Memento Mori:
Quando um general romano voltava para casa depois de uma campanha vitoriosa no exterior, era tradição a cidade sediar uma gloriosa cerimônia pública em sua homenagem.
Mas enquanto seu triunfo era celebrado de maneira entusiasmada pelo povo, um homem ficava atrás do general em sua luxuosa carruagem, sussurrando a seguinte mensagem em sua orelha: “Respice post te. Hominem te esse memento. Memento mori.” Em português seria algo como: “Olhe ao seu redor. Não se esqueça de que você é apenas um homem. Lembre-se de que um dia você vai morrer.” Um lembrete da finitude do homem e de que todos são iguais na morte. Sejamos, pois, humildes.
Marco Aurélio (Meditações):
Você poderia deixar a vida exatamente agora. Deixe isso determinar o que você faz, diz e pensa.
Sêneca:
“Muitos homens se apegam e agarram-se à vida, assim como aqueles que são levados por uma correnteza e se apegam e agarram-se a pedras afiadas. A maioria dos homens minguam e fluem em miséria entre o medo da morte e as dificuldades da vida; eles não estão dispostos a viver, e ainda não sabem como morrer.”
Horácio segue a linha do epicurismo e defende que a vida é breve e a beleza perecível. Sendo a morte a única certeza, o presente deve ser aproveitado antes que seja tarde.
Carpe Diem (aproveite o dia): É viver o hoje sem preocupações com o amanhã. É desfrutar a vida e os prazeres do momento em que se vive. Esta expressão tem o objetivo de lembrar que a vida é breve e efêmera e por isso cada instante deve ser aproveitado.
Raul Seixas: “A Morte, surda, caminha ao meu lado, e eu não sei em que esquina ela vai me beijar”
Espero não ter errado nas referências e ter contribuído. Parabéns e um forte abraço.
Obrigado, meu filho Edu. Você enriqueceu meu texto, com seus comentários. E vamos em frente.
Beleza de texto, Clemente. Brilhante. O jeito certo de encarar a morte.
Obrigado, amigo Celso Japiassu, leitor ultramarino da “Será?”, que honra a nossa revista.
Belo, sábio e cheio de serenidade, o seu texto inspira sem as ilusões da crença, mas com a crença na própria força humana.
Abraço, amigo e editor
Paulo Gustavo
Obrigado amigo. Uma referência sua é mais do que mereço.
Se é pra falar de morte na “Será?” e para o grande público, melhor que seja de forma poética e bem escrita, quase divertida, com serenidade e sem dor, como o faz Clemente Rosas. Sim, devem existir infinitas maneiras de lidar com a morte, até a daqueles que a buscaram, nossos suicidas, que recordo na minha família e entre meus amigos queridos. Já que estamos no assunto, lembro um livro que trata de preparativos necessários: Camila Appel, “Enquanto você está aqui”, Editora Fósforo, 2026. Camila teve durante muito tempo um blog na Folha de S. Paulo, chamado “Morte sem Tabu”. Depois de ler o livro dela, comovente, em forma de carta à mãe, a dramaturga Leilah Assumpção, fui a um escritório de advocacia para que me preparem um testamento vital, pois o que assinei em New York nos anos oitenta não iriam entender aqui.
Obrigado Helga, pela generosa referência.
Também já tive a experiência de amigos e amigas suicidas, que estou comentando nas crônicas NOSSOS AMIGOS SUICIDAS e AMIGAS QUE SE VÃO, constantes do livro que estou editando aqui em João Pessoa. Terei prazer em lhe enviar um exemplar, oportunamente.