Wassermann

Wassermann

“Wassermann” é o título do romance de F.J. Brüseke. Wassermann, o “homem da água”, é sobrenome nem tão raro na Alemanha, e deixaram na edição brasileira o mesmo título. O que esse engenheiro alemão quer no Brasil? O personagem central do livro não está dedicado a procurar água, nem construir sistemas de abastecimento. Isso fazia antes, quando trabalhou em Angola, Moçambique e nordeste do Brasil para algo como o Ministério para Cooperação Econômica e Desenvolvimento do seu país. Tudo muda depois que é chamado de volta a Berlim para testes, que parecem ser tanto de saúde física quanto de sanidade mental, quem sabe algum tipo de lealdade. Os testes não só mostram o quanto ele mudou, como mudam sua vida futura.

            Como já fez com um outro romance seu, “Berlim não responde”, Brüseke traduziu ele próprio seu livro publicado na Alemanha em 2020. É óbvio que é ficção, mas tem muito de situações que podem ter acontecido, referência a elas, alusões vagas ou propositalmente retocadas. Não chega a ser “romance não-ficção”, não é narrativa de algo que realmente se passou. Qual é mesmo o tema? São muitos. A bela apresentação que faz a editora 7Letras é instigante, para literatos: “Com uma escrita ao mesmo tempo irônica e melancólica, Franz J. Brüseke faz do desenvolvimento não apenas um tema, mas um modo de olhar o mundo. E mostra que, às vezes, a viagem mais longa não acontece entre países, mas entre uma palavra e outra.”

            De fato, pode-se ler o livro, no início, com esta percepção poética de “viagem entre as palavras”. Tendo morado 26 anos fora do Brasil, alguma percepção tenho de que a relação com a língua materna muda depois que a gente passa décadas longe do seu uso cotidiano. Mesmo porque, com o tempo, a língua também muda. Esta é, contudo, só uma das perspectivas possíveis.

            Não esqueço o que me dizia Göran Ohlin, no tempo em que líamos a NYRB-New York Review of Books: há dois tipos de resenha, uma que faz você querer ler o livro, outra pela qual você fica sabendo que não precisa ler o livro. Oxalá seja do primeiro tipo minha resenha. Ao final, “Wassermann” é uma declaração de amor ao Brasil. Ou será apenas a rejeição do engenheiro melancólico a alguma função burocrática num ministério em Berlim, onde cada prédio o leva a recordar ruínas da guerra?

            O livro junta muita coisa. Considerações filosóficas tão sérias quanto engraçadas estão na abertura, quando a psicóloga do Ministério, encarregada de testá-lo, passa a tarefa de escrever aleatoriamente seus pensamentos sobre cem palavras quaisquer. Não consegue ter ideias suficientes no prazo que lhe foi dado, pede ajuda de um velho amigo sempre agoniado, Bodo, que vem com uma proposta esdrúxula para acelerar a escrita. Nem assim chega a cem, se angustia com a sensação de que não vai passar na prova. Consegue chegar a uns trinta termos, como Ocidente, bicho-preguiça, alemão, relógio, nazista, pavão, maluco, inventar, esquerda. Os comentários sobre cada palavra surpreendem mais que a própria lista. Mas a psicóloga o aprova: sem mais nem menos o leva pra cama.

            Sei lá se a cena de sexo quase no começo cria suspense. Estão bêbados os dois, e a psicóloga, Isabella, permanecerá em Berlim, não vem junto para o Brasil. Mas continuará perturbando Wassermann até o final. Só em parte por causa da carta que entrega a ele. Perturbação maior é lá pelo meio do livro, com o engenheiro já transformado em espião atarantado, e Isabella aparece sem avisar, em Itaipava. Como terá obtido sua localização? Ele leva um susto porque ainda por cima lhe traz de presente um drone. Choque maior quando ela quer apresentar o ex-marido. Quem é? Que voltas que o mundo dá! Não vai de jeito nenhum, trata é de fugir de Itaipava, vai a Campinas, só volta quando os visitantes se foram. Por sua conta e risco resolve experimentar o drone e fotografar o sítio de Itaipava que localizara em ordem anterior, e envia as fotos a Berlim. Sucesso!

            Nesse ponto já virou romance policial, pois há atividades de “polícia investigativa” também. Precisam ser secretas. Suas tarefas lhe serão informadas a cada momento, no celular, pela chefia da operação em Berlim, que jamais explica o objetivo que teria seu trabalho. O ex-funcionário da cooperação para desenvolvimento já está então transformado em agente secreto de algum Escritório Federal de Notícias alemão, fingindo-se turista em Atibaia. Ainda que tenha procurado pousada na rua do Museu de História Natural, a julgar pelo que sofre vindo de Guarulhos de ônibus, é uma Atibaia ficcional. Enfim, na época em que Wassermann chegou a Guarulhos os europeus ainda não haviam vivido a canícula de 2026…

            Wassermann vai entrando no novo papel meio sem perceber de todo o que estava acontecendo. As ordens no celular vão chegando picotadas. Bem que já ouvi falar – no passado, em décadas longínquas, quando se chamava “ajuda ao desenvolvimento” e ainda não tinha mudado o nome para “cooperação para o desenvolvimento” – que podiam existir espiões entre os cooperantes ou técnicos estrangeiros. Mas eram americanos. E os estudantes na Fenefi no Rio achavam engraçado, pra quê espionagem se está tudo nos jornais? E esse agora, fantasiado de turista? Mas, enfim, a ficção tem liberdades que a reportagem não tem. Sarcasmo é uma delas. E neste livro também, na reviravolta que põe fim à sua missão, a foto da “espionagem” vai parar na primeira página do maior jornal de São Paulo.

            Depois do envio das fotos de Atibaia, recebe, no celular, ordem de ir para Aracaju, de ônibus. Lá chegado, nova ordem, de participar de um comício no domingo. O seu informe é sobre uma manifestação anti-PT, caótica, mas que não oferece propostas de interesse. Reação do chefe em Berlim: é o que imaginávamos, mas vale confirmar; você fica bem de amarelo.

            “Wassermann” proporciona uma maneira curiosa e divertida de ler sobre Brasil e brasileiros. Pois a trama central é construída com personagens alemães e o cenário é o Brasil e os brasileiros. Personagens brasileiros vão surgindo ao longo do caminho, desde o moleque que vende caro a garrafinha de água mineral para o turista, na chagada, ajuda a procurar um quarto, leva na tia. A dona da pensão é impagável, com seu cuidado maternal do único hóspede. Como teria Wassermann sobrevivido não fosse ela? Personagens secundários e temporários são muitos, tem até um repórter de quem Wassermann foge. Contudo, é inusitado furo de reportagem que encerra a estada do “espião” no Brasil.

            Não sei se Brüseke quis deliberadamente escrever um romance satírico. Acho que não, mas há uma ironia difusa, até sobre os métodos das agências de assistência técnica e informação de países desenvolvidos. O futuro espião que chega morrendo de calor e sede em Itaipava precisava mesmo tirar a roupa antes mesmo de achar um hotel, entrar numa loja e sair dela de camisa amarela, calção verde, boné ao contrário e havaianas? Faz para ser como os locais, ainda puxando sua mala de rodinhas. O espião tem ressacas com frequência perigosa para uma função dessas, mas aí são outras angústias, não é para se integrar com os locais. Seus diálogos com Isabela são sempre inconclusivos, fica sua dúvida sobre a verdadeira função dela com seus comentários. Umas e outra parecem ser a razão para a atenção médica e a temporada de desintoxicação num convento dominicano, quando de novo é chamado de volta para a Alemanha com urgência.

            O conjunto é bem montado, há cenas e trajetos que sentimos como absolutamente reais. O autor, depois de mais de três décadas andando pelo Brasil, trabalhando em universidades brasileiras em diferentes estados, conhece nosso país como poucos. E a gente pode ler sobre o país com um certo “efeito de distanciamento” a la Bertolt Brecht.