
Unamuno
Ao abordar a religião nos Estados Unidos, em sua clássica obra “A democracia na América”, Tocqueville aproveita para fazer uma breve reflexão sobre a fé. Eis, em poucas palavras, o que comenta: “O homem, entre todos os seres, é o único que mostra um natural desgosto pela existência e um desejo imenso de existir: despreza a vida e teme o nada. […] A religião não é senão uma forma particular de esperança […]”.
São palavras, as de Tocqueville, que bem poderiam ter servido de epígrafe a outra obra não menos clássica: a novela “São Manuel Bueno, mártir”, de Miguel de Unamuno, que há pouco foi reeditada no Brasil pela Editora Unesp. Nela, com a habilidade de um mestre da narrativa, o escritor isola a fé como uma pedra de minério, parecendo ir a seus últimos veios e filtrando-a dos devaneios da fantasia.
Estamos numa Espanha profunda: numa pequena aldeia. Ainda que de passagem toque em coordenadas socioculturais, o autor parece preferir o descarnamento histórico, mais compatível com o fundamento transcendental da sua obra. Ângela Carballino, a narradora, não à toa traz em seu prenome uma certa pureza campestre, assim como seu irmão, por chamar-se Lázaro, já indica que, após viver no progresso da América, “ressuscita” em sua velha aldeia, deixando para trás sua visão de uma Espanha feudal, sem embargo de resmungar “velhos lugares-comuns anticlericais e até antirreligiosos e progressistas que havia trazido renovados do Novo Mundo”.
É pelo relato da jovem Ângela que temos o conhecimento psicológico da personagem que dá o do título à obra: o pároco Manuel Bueno. Ele traz no nome uma bondade manifesta e verdadeira e, conforme a etimologia, a própria presença de Deus. Vive uma bondade pastoral, sem teologia, sem erudição, simpática e empática. É um tipo de sacerdote que todos nós conhecemos, e até aí o autor de “A agonia do cristianismo” pouco teria criado de interessante.
No entanto, o pároco Bueno esconde, com sua prática incessante do bem, uma fuga de si mesmo. Bueno esconde o mal que o consome: ele simplesmente não crê, possui aquele desgosto da vida de que acima fala Tocqueville e que já atormentou tanta gente e tantos filósofos. Eis seu mistério: ser um sacerdote e ser um cético. Bueno flerta permanentemente com o subtrair-se à vida. Finge a crença que lhe falta e, à força de fingi-la, dá-lhe uma espécie substância espectral… Das três virtudes teologais — Fé, Esperança e Caridade —, só lhe restou a última.
Bueno martiriza-se, não esconde para si mesmo a sua verdade inconsolada. Ele é uma espécie de monstro moral. Então, por que “santo”? Porque o é para aqueles a quem ajuda e a quem protege com verdadeiro amor. Por que “mártir”? Seu martírio é espiritual. Sua existência inteira está em jogo, toda ela tomada pela angústia. “O verdadeiro mártir, para brevemente citar Terry Eagleton, no seu notável ‘Sacrifício radical’, é aquele que está disposto a largar tudo, mesmo a esperança de salvação.” Bueno é um mártir, não um santo. Sua “santidade” vem de fora para dentro, se é que podemos falar assim.
Como um coro de tragédia de uma única voz(!), repetido por um personagem secundário, ressoam, nas ruas da pequena aldeia, as palavras do Calvário: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”. Por sinal, as mesmas palavras que, ao fim e ao cabo, também alimentam “A agonia do cristianismo”. Bueno sabe que, como o Cristo, a humanidade está abandonada, mas sabe também que é preciso agir e, como vimos, age verdadeiramente, pois o que parece unicamente importar ao “santo” pároco é o sentido prático e axiológico da fé: “Todas as religiões são verdadeiras enquanto fazem viver espiritualmente os povos que as professam […]”.
Não se trata, essa novela unamuniana, como se pode pensar à primeira vista, de uma obra dita “de tese”. Ela é escrita e pensada como um problema e para propor problemas. O metafísico “pecado de haver nascido”, tão presente em suas páginas, diz respeito a todos e a cada um. Todavia, insistir na alegria de viver, como o faz Bueno ao longo de sua missão pastoral, não é das menores lições dessa magnífica novela, se é que é só uma novela…
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