
Cama de noivos
Em saboroso artigo publicado em 1953 no “Diario de Pernambuco”, texto posteriormente inserido no livro “Pessoas, coisas e animais” por Edson Nery da Fonseca, Gilberto Freyre evoca um antigo costume patriarcal. O texto intitula-se: “A propósito de camas de noivos”.
Conta o autor de “Sobrados e Mucambos” que, ainda menino (nasceu em 1900), foi “a casamentos em que era da pragmática exibir a família regozijada, em cuja casa se festejavam as bodas, ‘a cama dos noivos’. Era uma instituição: ‘a cama dos noivos’. Cada qual que fosse mais bela, mais cor-de-rosa, mais cheia de rendas, mais macia de penas, mais enfeitada de fitas”. Os parentes, os amigos e a vizinhança vinham apreciar o espetáculo. O olhar sociológico e pictural de Freyre logo observa: “Havia nisso uma ostentação como que barroca de opulência ou vaidade patriarcal, que, nos nossos dias, apenas se manifesta no bolo mais ou menos suntuoso do casamento, no vestido mais ou menos caro da noiva […].
Por falar em “vestido de noiva”, peço um parêntese. O recente noticiário da capital paulista se ocupou do “bolo” que dezenas de noivas receberam ao terem encomendado o sonhado vestido numa loja bem recomendada. Ficaram em lágrimas e sem o precioso traje. O nada festivo caso não foi parar na igreja, claro, mas na delegacia… Deixemos essa triste ocorrência e voltemos à “cama dos noivos” de Freyre.
Evocado o antigo e patriarcal costume, Freyre, numa graciosa digressão, relembra o caso que lhe contara um amigo baiano. A história diz que Rui Barbosa, numa de suas campanhas à Presidência, no interior da Bahia, precisou se hospedar numa pequena cidade. Não havia hotéis ou hospedagem à altura. Ora, hospedar o já célebre Rui, seria uma glória para qualquer anfitrião… Freyre aproveita para dizer que “Rui na verdade foi o noivo eterno de uma dama – a Presidência da República – com a qual jamais consumou o casamento desejado por uns e temido por outros”.
Pois bem, um correligionário albergaria em sua casa o eminente político. O anfitrião resolveu fazer da cama de Rui “o que então se fazia com as camas de noivos em noites de casamento”. Afinal, “ali ia dormir Rui Barbosa”. Feita a cama com os mais coloridos e exuberantes acessórios, aguardou-se o famoso “noivo”. Tímido e discreto, o célebre candidato “apavorou-se com aquele exibicionismo teatralmente barroco”. E… recusou-se a dormir em leito tão cenográfico, preferia uma cama simples, normal: sem rendas, fitas, plumas ou babados. “Ele não era nenhum ator”. Então, claro, logo se atendeu ao pedido e à simplicidade do grande homem, que não sabemos se ali, naquela hospitaleira casa, teve ou não teve bons sonhos. O fato é que, abertas as urnas, o sonho de Rui de ser presidente se dissipara.
Não duvido de que, nestas eleições de 2026, alguns candidatos se deitariam com prazer numa hoje midiática “cama de noivos” e ainda criariam uma “hastag”: #camadopresidente. Tudo bem. Melhor do que venderem a própria mãe. E oxalá também perdessem a Presidência.
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