Política e religião

Política e religião

Na última semana da campanha eleitoral para Presidente da República, a imagem de Nossa Senhora Aparecida passou a ocupar os discursos e as manifestações dos candidatos, cada um se apressando a demonstrar a fé religiosa que talvez nem tenha, e entrou numa intensa disputa de vídeos e mensagens nas redes sociais, alimentando uma verdadeira guerra religiosa. A batalha começou depois da informação veiculada por uma jornalista da Globonews sugerindo que, se fosse eleito, o senador Flávio Bolsonaro retiraria de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. A Globonews se retratou e a informação foi considerada falsa, mas a campanha religiosa já estava nas redes sociais, acendendo o cisma histórico e latente entre católicos e evangélicos.

A exploração política da informação (mesmo falsa) tenta ganhar verossimilhança no fato de os evangélicos serem a base política de Flávio Bolsonaro e rejeitarem o culto a imagens de santos e de Nossa Senhora. Na tentativa de limpar sua imagem, Flávio Bolsonaro termina reforçando o tom religioso da campanha quando declarou “que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”. A única tentativa de alterar o status de Nossa Senhora Aparecida foi o projeto de um deputado do MDB-Movimento Democrático Brasileiro, de 2008 (já engavetado), que procurava distinguir a santa como “padroeira dos católicos brasileiros”. Embora considerada Padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida é uma santa cultuada pela Igreja Católica, que reúne a maioria da população brasileira. Tanto assim que foi o Papa Pio XI, atendendo à demanda dos bispos do Brasil – e não o Estado brasileiro -, quem nomeou Nossa Senhora Aparecida “Padroeira principal de todo o Brasil” em 1930 (na época, cerca de 94% dos brasileiros eram católicos). O governo brasileiro entrou bem mais tarde, em 1980, quando João Figueiredo, presidente e ditador de plantão, declarou o dia 12 de outubro feriado nacional em homenagem à Santa.

Mas esta é uma questão formal, já que Nossa Senhora Aparecida já constitui parte da cultura e do patrimônio religioso nacional, independentemente da sua relação com a Igreja Católica. O que não se pode aceitar é a utilização de diferenças religiosas como bandeira política e propaganda eleitoral que continua ocupando as redes sociais. Ocorre que, antes de a batalha religiosa arrefecer, o ministro Flávio Dino, do STF-Supremo Tribunal Federal, se apressou a jogar mais munição quando mandou a Polícia Federal investigar casos antigos e atuais (de março a setembro) de intolerância religiosa com agressões a imagens de Nossa Senhora.

A guerra religiosa substitui o debate político dos grandes problemas nacionais pela disputa de fé e devoção, a racionalidade das ideias e propostas políticas pela crença e emoção espiritual. A batalha em torno de religiões constitui, além disso, um desrespeito ao princípio laico do Estado brasileiro, alimentando mais ainda a formação de bancadas religiosas (bancada da Bíblia) no Congresso, que já polui o debate político. Neste sentido, a mistura de política e religião representa uma ameaça à democracia. Num país oficialmente laico, com graves problemas econômicos, sociais e institucionais, com candidatos tão diferentes na concepção de mundo, não se discutem mais as propostas para lidar com os desafios e que projetem o Brasil no futuro.