
A Santa e as eleições
O Papa Leão XIV acabou de visitar a França. Seria apenas mais uma visita pontifícia, se não fosse por um detalhe: as inesperadas multidões que se reuniram em torno do líder da Igreja Católica. O próprio Prévost ficou surpreso. Apesar disso, ainda é cedo para se dizer do renascimento da fé numa França tão laica, agnóstica e ateia quanto geneticamente cristã. O “ópio do povo”, faz tempo, migrou para outras instituições…
Já no Brasil, a semana que passou foi tomada por uma ofensiva católica contra o candidato extremista Flávio Bolsonaro. Não sem razão. Sem entrar no mérito de como se originou a notícia, o fato é que circulou rapidamente o defenestramento de Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil. O Zero Um, ou zero à esquerda, teria em mente chutar simbolicamente uma Nossa Senhora que é um patrimônio brasileiro. Dom Orlando Brandes, arcebispo de Aparecida, logo brandiu uma veemente defesa da fé brasileira. Pode-se dizer: cruzaram, os bolsonaristas, uma linha vermelha. Como nos tempos hitleristas, não pode ser fácil a convivência de católicos e cristãos com os personagens da ultradireita. Depois de Francisco, também não engolem o Leão. Prévost, aliás, não será o papa dos novos nazifascistas e, nesta semana, declarou com todas as letras que “A extrema direita não é expressão do cristianismo”. Os que amam o latim dirão: “Roma locuta, causa finita”.
O receio católico, quer manipulado ou não, tem razão de ser, pois não é de hoje que se testemunham ataques bolsonaristas não só a católicos e a imagens católicas, mas também a religiões de matrizes africanas ou ameríndias. De resto, é muito farisaico, para dizer o mínimo, que o Flávio Bolsonaro queira consagrar o Brasil ao “Senhor Jesus”! A desfaçatez é total, sobretudo se lembrarmos que o clã Bolsonaro só adora mesmo bezerros de ouro e cavalos negros e gordos de moeda sonante.
Como quer que seja, criou-se mais uma polarização, opondo um catolicismo vivo, que vinha preferindo a discrição, a seitas neopentencostais, que frequentam, com seus pastores toscos, as páginas do crime e da política nas gazetas. Há, no entanto, que se fazer distinções e separar o joio do trigo num trigo cada vez mais contaminado. Uma breve reflexão de Jonathan Swift (1667–1745) talvez aclare, como um diagnóstico, esses dias agônicos e tensos que vivemos: “Temos bastante religião para fazer-nos odiar uns aos outros, mas não o bastante para que nos amemos uns aos outros”.
Evidentemente, a laicidade no Brasil é um tênue esmalte civilizatório. Mas não brilha tanto! Quando o candidato ultradireitista Flávio Bolsonaro brada que irá consagrar o País ao “Senhor Jesus”, ele destrona a um só tempo tanto Nossa Senhora como a própria laicidade. É como se ele já falasse em nome do Estado brasileiro e fizesse uma promessa à massa dos evangélicos no País. A rigor, é uma declaração demagógica e absurda, embora esteja adornada ou disfarçada de boa intenção. O monopólio da fé de um povo é algo que cheira à teocracia…
Convém lembrar o óbvio: Nossa Senhora Aparecida ser padroeira do Brasil não se deve a um ato político, de Estado, mas a um gesto do Papa Pio XI (que veio ao encontro do anseio do povo brasileiro), o que é muito diferente de um presidente, por meio de um decreto, “consagrar” o País ao “Senhor Jesus”. A Constituição Brasileira o proíbe. Em seu intento de respeitar todas as crenças, a Carta Magna propõe uma sábia neutralidade. Mas os candidatos da extrema direita sempre preferem ignorar a Constituição para, mais adiante, fazê-la, sem trocadilho, uma desaparecida.
Com todo o respeito, quer se goste ou não se goste, quer se creia ou não se creia, quer queiramos ou não, Nossa Senhora Aparecida vai às urnas neste 4 de outubro, mês que também lhe é dedicado. E, sendo Aparecida e tão cara aos católicos e filocatólicos brasileiros, não vai sumir por um simples capricho de um candidato a autocrata.
Excelente
Paulo Gustavo faz uma análise pertinente, sem militância cada vez mais difícil nos últimos tempos, principalmente de eleição polarizada, em que até a fé religiosa entra como manipulação. Lança um olhar sóbrio e pertinente sobre o tema, que revestido de fake news, circulou na última semana.