Self-Portrait with Death Playing the Fiddle  by Arnold Böcklin.

Self-Portrait with Death Playing the Fiddle  by Arnold Böcklin

 Há um Hamlet de Shakespeare. E há um Hamlet de Mar a Lago. O Hamlet do inglês era um príncipe melancólico. Introspectivo. Solitário. O Hamlet de Mar a Lago traz um olhar de solidão. Desconfiança. Tem um ego tão profundo quanto os estudos Freudianos. E traz um método no bolso do paletó. Voltado à tergiversação. Dizer uma coisa hoje. E dizer outra coisa amanhã. Dar um prazo inexcedível. E prorrogar. Fixar um compromisso. E desconstruir. Com o objetivo de ameaçar. De assustar. De criar o temor. De gerar o rumor. De atemorizar. Arquitetura do receio. Profeta do medo.

O Hamlet de Mar a Lago disse que vai destruir uma civilização. Numa noite invernal. Acabar com pontes e ferrovias. Num gesto infernal. Destruir instalações energéticas. Bombardear estruturas petrolíferas. Talvez não saiba o que seja crime de guerra. Ou sabendo, coloque no aplicativo de pretenso senhor do mundo.

O mundo do século XXI não é a cena desejada pelo Hamlet da Flórida. Falta-lhe a umidade cômoda da guerra fria. A divisão do mundo entre senhores que fatiam a soberania alheia. E costura as abas de impérios autocráticos. O mundo do século XXI é outro. É geopolítico. Carrega o calor de alianças. A distribuição de poder é mais ampla. E não obedece a comandos unipessoais. São blocos econômicos. Políticos. Geopolíticos. Reunindo grupos de nações que constituem cordilheiras produtivas. União Europeia, com a OTAN. O BRICS, com um banco. O Mercosul, torturado com um enigma e uma chance. Na balança de possibilidades possíveis.

A guerra contra o Irã não é uma guerra norte-americana. Nem o Irã é a Venezuela. A guerra contra o Irã é uma guerra de Netanyahu. Sequer é dos judeus. É uma ambição pessoal. E uma tática para o primeiro-ministro escapar da justiça. Produziu uma coalizão política esdrúxula. Com uma extrema direita que desconhece o direito de outros povos. E olvida a tradição democrática de lideranças como Itzak Rabin, Shimon Peres e Golda Meir. Não tem a ver com o que de poético e belo construiu o povo judeu. Ah, o rigor ético de Hannah Arendt. A sensibilidade do maestro Daniel Barenboim.

A política atual, menor, de Israel levou o Hamlet de Washington a uma situação dilemática. Diante da guerra do Irã. Porque o Irã está numa dimensão demográfica, cultural e militar muito diferente daquela da Venezuela. Os iranianos são 90 milhões de habitantes. Com um conjunto de valores culturais que provêm de uma Pérsia milenar. Não nasceu ontem. Tem raízes comparáveis às do Império Romano.

O Hamlet norte-americano descumpriu meia dúzia de vezes os ajustes combinados no rastro do conflito. E caiu num impasse político e militar. Porque precisa encerrar a guerra. Em virtude do aumento da inflação. E da opinião contrária à guerra da maioria do povo estadunidense. A taxa de aprovação a Trump é uma das mais baixas entre presidentes: 40%.

Mas, como encerrar uma guerra que, no início das operações, terminaria em uma semana? Como declarar o fim de uma guerra em que a vitória foi proclamada como coisa certa diversas vezes? O fim de uma civilização, anunciado por Trump, é mais uma contradição: os Estados Unidos ganham a guerra. Mas o Irã não é derrotado. Trump anuncia uma vitória de Pirro. E os aiatolás continuam a governar o Irã.

O desfecho futuro da guerra é um autoengano: os americanos saem vencedores. Mas os iranianos não são derrotados. O fim de uma civilização, no discurso Hamletiano de Trump, é parte de um discurso torto. De uma tática imediatista sem visão estratégica. O Irã, como nação e projeto de poder civilizacional, continuará.

Na prática, a era Hamletiana dos Estados Unidos é um desvio. Em relação aos Founding Fathers. Aos ideais de Homens Representativos, de Waldo Emerson. Aos princípios da Revolução Americana, de 1776.  À invenção republicana do sistema federativo de gestão. E que confronta os direitos civis, a política ambiental contemporânea e o modelo Lincolniano de integração das etnias no país. A era Hamletiana de Trump é uma falha política. Um descaminho populista.

Então, chega a vez de Carlos Drumond de Andrade:

“Para que serve o homem? Para estrumar flores? Para tecer contos?

Que milagre é o homem? Que sonho, que sombra? Mas existe o homem?”.