Trump e Iã

Trump e Iã

Trump perdeu a guerra. O juízo, ele já não tinha. Empatia e sentimento humano, menos ainda. Felizmente ele também carece de inteligência (poluída pelo narcisismo) e, com a soberba que lhe é característica, se mete a disparar a metralhadora giratória sem rumo nem prumo. Entrou numa guerra insensata contra o Irã e saiu derrotado. O Irã foi massacrado, teve parte da sua liderança morta, milhares de cidadãos assassinados e uma parcela da sua infraestrutura e dos arsenais militares destruídos. Mas, o Irã saiu por cima, resistiu à mais poderosa máquina da guerra do planeta e continua sendo governado pela teocracia fanática dos aiatolás, ao contrário das pretensões de Trump e Netanyahu. No acordo provisório de cessar fogo, Teerã aceitou reabrir o Estreito de Ormuz, mas mantendo a “soberania iraniana sobre a rota”, prerrogativa que não tinha antes da agressão trumpista. O governo do Irã ainda insinuou que pode vir a cobrar pedágio como forma de compensação pela destruição do país, já que os dez pontos contemplam o pagamento de reparações pelos danos da guerra. E ainda inclui o fim de todas as sanções (primárias e secundárias) e o desbloqueio dos bens iranianos no exterior. O acordo provisório reconhece o direito do Irã de enriquecer urânio (contestado por Israel), que se compromete a não produzir uma bomba atômica (o que já estava quase acertado nas negociações anteriores à guerra).

No seu delírio narcisista, Trump continua cantando vitória, embora tenha conseguido apenas a parcial destruição do arsenal de mísseis do Irã, mas a um enorme custo material, humano, diplomático e político, incluindo o grande desgaste interno nos Estados Unidos. Na geopolítica, o fracasso de Trump acrescenta um fator a mais no processo de isolamento dos Estados Unidos. A Europa não confia mais na aliança com o Estados Unidos e começa a buscar seu caminho de defesa e novas parcerias econômicas e diplomáticas. “Esta guerra não é nossa”, afirmou o Ministro das Relações Exteriores da Alemanha, sintetizando a declaração de independência dos europeus. Os pequenos e ricos países do Golfo Pérsico descobriram que não podem contar com Washington na sua proteção contra possíveis agressões externas. China e Rússia apenas observam e vão colhendo os resultados das aventuras trumpistas.

Pelo conjunto da sua desastrosa obra, a oposição política ao arrogante presidente cresce nos Estados Unidos. Depois da mobilização de cerca de 8 milhões de pessoas em quase todas grandes e médias cidades dos Estados Unidos – No Kings – líderes do Partido Democrata começam a reagir e já circulam no Congresso pedidos de impeachment do presidente. O líder da oposição no Senado, disse que Trump é “uma pessoa doente” e o líder democrata na Câmara de Deputados, deputado Hakeem Jeffries, acrescentou: “Ele está completamente desequilibrado”. Mesmo entre os republicanos e aliados, levantam-se vozes de protesto e indignação com a sua violência e com a retórica agressiva e desrespeitosa, prometendo devastar o Irã e “eliminar uma civilização inteira”, destruir usinas, estradas, pontes, ferrovias e até usinas de dessalinização de água. Deputados e senadores republicanos advertem que Trump pode praticar um genocídio e cometerá crime de guerra se atacar a infraestrutura civil do Irã. Num dos mais duros ataques ao presidente, Candace Owens, comentarista política e trumpista, chamou Trump de “lunático genocida” e pediu a intervenção do Congresso e das Forças Armadas.

Trump perdeu a guerra e vai se perdendo em pouco mais de um ano de governo. Ao mesmo tempo em que exalta o poder militar e amplia a agressividade dos Estados Unidos, Trump leva o país ao isolamento, à perda de liderança mundial, à destruição da imagem de país democrático e de parceiro confiável. Ainda é cedo, mas se depender de Trump, o “império americano” vai afundar no pântano da sua soberba. Pode ser bom para a paz mundial.