Editorial

Autoridades alemãs em missa de luto dos mortos no atentado de dezembro de 2016.

Em novo brutal atentado, a insensatez e o fanatismo do Estado Islâmico voltam a provocar dor e morte na Europa, desta vez em Berlim e, ironicamente, ao lado da Gedächtniskirche (Igreja da Memória), memorial da paz que conserva a torre em ruinas, como denúncia da destruição da Segunda Guerra Mundial. O terrorismo do Estado Islâmico matou pessoas inocentes que visitavam a feira de Natal (12 mortos e 48 feridos, 14 deles em estado grave), agrediu duramente a paz mundial e, ao mesmo tempo, feriu de morte a política de imigração do governo alemão, que abriu as portas para centenas de milhares de refugiados da Síria, do Afeganistão e do norte da África. Se alguém ganha com este atentado é a ultradireita alemã, xenófoba e tão fanática quanto o Estado Islâmico, que explora e mobiliza o temor da população contra os imigrantes e a chanceler Angela Merkel, principal patrocinadora do abrigo aos refugiados na Europa. Os refugiados são as grandes vítimas deste atentado. Fugindo do terrorismo nos seus países – como disse o sírio Ibrahim Sufi (“Fugimos deste tipo de terrorismo”) – os refugiados podem sofrer as consequências políticas e humanas do terror do Estado Islâmico no país que generosamente os acolheu. “Ich bin ein Berliner”! Assim expressamos o protesto e a solidariedade com o povo alemão e com os imigrantes, neste momento de angústia e incerteza, e diante da imbecilidade do terrorismo, replicando o grito “Je suis Charlie”, através do qual o mundo expressou repulsa ao atentado ao hebdomadário Charlie Hebdo, há pouco menos de dois anos. Guardadas as proporções e as circunstâncias históricas, esta manifestação de solidariedade com os alemães lembra o discurso pronunciado pelo presidente John F. Kennedy em 1963 no auge da guerra fria, e do lado ocidental da Berlim dividida pelo Muro, que simbolizou o conflito e o equilíbrio do terror entre as duas grandes potências mundiais (Estados Unidos e União Soviética): “Ich bin ein Berliner”. Mais do que a paz e a segurança na Europa e, particularmente, na Alemanha, o que está em jogo neste momento são os direitos humanos e o respeito à diversidade e à garantia de proteção e refúgio aos que fogem da guerra e da violência política.