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250 anos de Beethoven – Frederico Toscano

Frederico Toscano

Ludwig van Beethoven.

As comemorações pelos 250 anos de nascimento de Beethoven ao longo de 2020 devem movimentar o mundo musical internacional de uma forma talvez comparável apenas aos 250 anos de Mozart, celebrados em 2006. Para se ter ideia da dimensão dessa efeméride, o parlamento alemão converteu os eventos comemorativos em uma questão de Estado e dedicará uma verba específica de 37 milhões de euros para projetos em torno do músico realizados em todo o país, especialmente na cidade de Bonn, onde o compositor nasceu.

Em Bonn já se iniciou um festival que terá concertos com obras de Beethoven durante os 365 dias de 2020. O museu local dedicado a ele também terá uma programação específica, com exibições de manuscritos que normalmente são guardados sob forte esquema de segurança em um cofre no subterrâneo do prédio. Concertos, exposições, dança e teatro sob o título “BTHVN2020” oferecem a oportunidade de (re)descobrir Beethoven e sua arte. Com “BTHVN” Beethoven assinou algumas de suas partituras. Cada letra corresponde a uma característica do músico. “B”, significa Burguer (cidadão, no sentido moderno). “T” de Tonküstler (compositor). “H” de Humanist (humanista). “V” de Visionar (visionário). “N” de Natur (natureza no sentido filosófico, que compartilhava com seu amigo Goethe).

Quem gosta de música clássica não precisa de explicações. Ludwig van Beethoven (1770-1827) é um dos pilares da música ocidental, pelo incontestável desenvolvimento, tanto da linguagem como do conteúdo musical demonstrado nas suas obras, e permanece como um dos artistas mais respeitados e mais influentes de todos os tempos. Beethoven foi um radical inovador musical, que marcou a transição do Classicismo para o Romantismo. Dizia ele que “a verdadeira arte permanece imperecível”, citação que também se aplica a sua própria obra. Ele foi um humanista, um incompreendido em sua forma de pensar, um visionário musical – e ainda é um dos compositores mais tocados no mundo de hoje.

Porém, para o grande público fica sempre uma pergunta válida: qual a verdadeira importância de Beethoven? Como nenhum questionamento é absurdo se representar o desejo genuíno de conhecimento, levantamos a questão.

Para contextualizar nossa reflexão, é importante situar que a geração anterior a Beethoven era a de Mozart, que trabalhou como empregado de nobres e eclesiásticos. Imaginemos que a folha de pagamento do príncipe arcebispo de Salzburg listava cozinheiros, copeiros, lacaios, faxineiras e… Wolfgang Amadeus Mozart como um simples funcionário. Isso não era apenas uma questão contábil. Mozart era considerado um mero empregado do arcebispo com função de compor música de fundo para seus jantares. Trabalhar para a igreja ou para uma casa nobre era a solução possível para a sobrevivência de quase todos os compositores da época. O grande gênio barroco Johann Sebastian Bach teve que ir de cidade em cidade lutando para obter um emprego de organista. Foi Beethoven quem ajudou a mudar decisivamente essa tradição.

A propósito, a postura rebelde de Beethoven estava inserida dentro de uma transformação mais geral da economia iniciada em meados do século 18 e intensificada no próximo século, incluindo o nascimento do mercado musical. Partituras passaram a ser vendidas e os músicos começavam a fazer concertos independentes. Ao longo dos anos seguintes, muitos músicos continuariam buscando patrocinadores nobres ou burgueses, mas agora há o músico livre, compositor, concertista, capaz de se sustentar – e, por vezes, com muito sucesso – com seu trabalho e sem seguir um programa determinado por alguém que o contratava. Foi uma revolução em muitos sentidos.

Nesses novos tempos, a obra de Beethoven cativava gerações. Jovens pianistas desejavam executar suas peças, que iam das mais fáceis às mais complexas. A popularidade do mestre alemão em vida era tal que o seu funeral realizado em 29 de março de 1827 na capital austríaca atraiu entre 10 mil e 30 mil espectadores. Os teatros foram fechados, e muitos ??artistas participaram do cortejo fúnebre disputando uma alça do caixão ou carregando tochas, entre eles o seu amigo e admirador Franz Schubert.

O ilustre filho de Bonn influenciou outra mudança. Um concerto típico em 1800 era dominado pela música feita para aquela ocasião, geralmente estreias. Música nova. Pouco ou nada se executava de músicos do passado, que eram considerados obsoletos. Já no fim do século 19, a maioria dos concertos trazia peças consagradas de grandes mestres. Quem ajudou a dar esse passo foi Beethoven por produzir uma obra de tal nível que era impossível ser ignorada pelas próximas gerações, e por ele foram inspiradas.

A produção de Beethoven – cerca de 200 composições – não foi tão vasta como a de outros compositores do passado, como Telemann e Bach, mas é transpassada de exímia qualidade. A Terceira Sinfonia, conhecida como “Heroica”, e a Quinta – famosa pelo seu tan-tan-tan-taaan – foram absorvidas para sempre por todas as orquestras. A Ode à Alegria da Nona Sinfonia (vídeo abaixo) tornou-se o hino da União Europeia. Uma ou várias das 32 sonatas de Beethoven fazem parte da formação de qualquer pianista que se preze. A peça “Pour Elise” habita – talvez até demais – o imaginário musical do mundo inteiro, virando espera de ligação telefônica e até anúncio de caminhão de gás.

O fato é que Beethoven construiu um legado bastante diferenciado. Sua influência foi profunda e atingiu todo o planeta. Ele colaborou fortemente para construir um repertório básico que passou a ser executado constantemente em todos os programas de concerto. O próprio Walt Disney escolheu a Pastoral, como é conhecida a Sexta Sinfonia, para o desenho Fantasia, produzido em 1940:

Todos sabem, mas não custa lembrar: Beethoven compôs quase todas as obras-primas totalmente surdo. Várias delas ele nunca chegou a ouvir. A doença progrediu e tornou o gênio do mestre ainda mais complicado – o velho Ludwig era intratável, difícil de se relacionar. Como nunca teve cargo na corte de um príncipe, era admirado pela sociedade burguesa como visionário. Sua música é tida até hoje como expressão de um humanismo revolucionário. Não é à toa que sua única ópera trata da libertação de um herói burguês do poder de um tirano. As soluções que ele encontrou para sua Grande Fuga, quartetos finais ou sonata 32 para piano são tão densas e desafiadoras que inauguraram uma nova maneira de pensar os sons. Os concertos para piano e orquestra vivem duas fases: antes e depois do número 5, conhecido como Imperador. Beethoven escreveu um único concerto para violino, mas talvez o mais belo de todos os tempos:

Como conhecer melhor o gênio do Reno além da música? O cinema produziu dois belos filmes sobre ele. Nenhum é completamente fiel aos fatos, mas ajudam a visualizar aspectos da vida do mestre: “O segredo de Beethoven” (Agnieszka Holland, 2006), que é uma fantasia sobre a sua última sinfonia. Ed Harris incorpora a alma irascível do gênio alemão. O outro é “Minha amada imortal” (Bernard Rose, 1994) sobre a paixão secreta do músico, mas o final é sempre emocionante. No final, a retrospectiva da vida do mestre arranca nossas lágrimas. Para quem deseja algo mais rebuscado, o filme “Eroica” da BBC (Simon Cellan Jones, 2003) presta atenção cuidadosa aos menores detalhes, ao som historicamente informado da Orchestre Révolutionnaire et Romantique sob a batuta de Sir John Elliot Gardiner.

Na leitura em língua portuguesa, vale a pena conferir o lançamento “Beethoven: as muitas faces de um gênio” de João Maurício Galindo e Romain Rolland, pela Contexto.

Em 2004 a Códex nos brindou com “Beethoven: a música e a vida”, de Lewis Lockwood, professor de Harvard e Princeton. Desejando se aprofundar ainda mais, outra dica: o compositor norte-americano Jan Swafford lançou o livro “Beethoven, angústia e triunfo” – que no Brasil foi traduzido pela editora Amarylis em 2017. São mais de mil páginas de informações.

Beethoven é inesgotável. Cada audição é reveladora. Sua música acessa nossos recantos mais profundos e traz à tona os mais diversos sentimentos: de euforia e liberdade à tensão e introspecção. Quem não se emociona diante do Adagio de seu quinto concerto para piano? Quem não sente taquicardia ao ouvir o Presto da sonata 14? Mesmo passado quase três séculos de sua morte, ele é tão popular quanto relevante. Nossa gratidão e parabéns ao mestre pelos seus dois séculos e meio de vida. Comemoremos Beethoven!

5 Comments

  1. Viva! Voltou Frederico Toscano em mais um belo artigo. Lembrei de Marcel Reich-Ranicki, o maior crítico literário da Alemanha, que algum tempo também escreveu uma coluna sobre música na Frankfurter Allgemeine: “Eu admiro Bach, mas eu amo Beethoven.”

    • PS – Observação de quem já foi revisora quando nem existia computador:na explicação de BTHVN, faltou um trema e sobrou um um u no Bürger (der Bürger singular, die Bürger plural); e faltou mais um n no Tonkünstler.

  2. Obrigado pela acolhida carinhosa e pela leitura atenta, caríssima Helga! Uma honra para mim, seu grande admirador. Beethoven fez com extrema qualidade tudo que produziu, apesar da caligrafia terrível rs. Schiller o viu terminando certa composição (Missa Solene) e ficou assustado com seu estado de exaustão nervosa. “Parecia ter saído de uma luta contra um exército de mil homens”, disse o poeta. Abraços beethovenianos!

  3. Caro Frederico

    Seus artigos são sempre uma aula de erudição musical. Eu confesso que prefiro mesmo Beethoven a Mozart. Mas, me chamou a atenção o fato de você considerar que Beethoven foi primeiro a libertar a música do domínio da igreja e da nobreza, depois, portanto de Mozart. Nobert Elias num belo livro chamado “Mozart- sociologia de um gênio” afirma que Mozart fez este movimento bem antes. Coincidindo com a emergência de uma burguesia nos países europeus, antes de Beethoven, Mozart já “vendia” obras e partituras e fazia apresentações públicas dos seus concertos. Num ensaio publicado em 2012 – “Os concertos para piano de Mozart”, Eduardo Giannetti reforça esta visão histórica quando diz que, mudando-se para Viena, Mozart “comprou sua carta de alforria e tornou-se o primeiro grande compositor a tentar viver diretamente da relação com o público, como freelance”. Mozart, diz ele, trocou o mecenato pelo mercado. Acho que você, como grande admirador de Mozart, deveria analisar até que ponto os dois autores têm razão em conferir ao compositor austríaco a inauguração da relação com o mercado. Evidentemente, a burguesia emergente era ainda mais fraca no período de Mozart que de Beethoven. Grande abraço, Sérgio

  4. Caro Prof. Sergio, grato pela acolhida ao artigo.
    Perdão se não fui claro. Não me referi a Beethoven como sendo o “primeiro” a libertar a música do domínio da igreja e da nobreza – até porque não existiu um primeiro “puro-sangue” a romper completamente essa realidade, enraizada há séculos, do dia para a noite. Foi um processo de transição que começa no Barroco. Citei Beethoven como sendo “quem ajudou a mudar decisivamente essa tradição”. Como bem disse o grande Norbert Elias – excelente referência, por sinal – Mozart já havia despertado para essa emancipação das amarras aristocráticas, após servir aos príncipes-arcebispos de Salzburgo. Teve várias experiências como músico autônomo em Viena: assinou contratos pontuais para óperas e várias outras peças; realizou concertos por assinatura (uma novidade para a época) e publicou obras em editoras vienenses, como a de Franz Hoffmeister. Porém, segundo vários autores, como Stanley Sadie em “Mozart – The New Grove Dictionary of Music and Musicians” (L&PM, 1988), em novembro de 1787, no retorno após uma viagem a Praga onde foi estrear Don Giovanni, Mozart finalmente conseguiu o tão almejado emprego como músico do imperador austríaco José II, sendo indicado Músico de Câmara, com um salário de 800 florins e com a função – novamente simples, como em sua juventude – de escrever música para os bailes da corte. Em 1789, com a ascensão do novo imperador, Leopoldo II, Mozart esperava ser promovido, mas isso não aconteceu; solicitou o cargo de Mestre de Capela da catedral e conseguiu ser designado como substituto – enquanto o titular, Leopold Hoffmann, vivesse. Com isso quero dizer que Mozart teve uma fase como freelance, de fato, mas no fim da vida, voltou à sombra da nobreza como empregado da corte. Já Beethoven teve uma carreira com razoável autonomia como músico, apesar de seu relacionamento com nobres patronos e mecenas. Ninguém é de ferro…
    Abraços musicais!

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