Editorial

Para evitar o ridículo, o ministro da economia Paulo Guedes deveria restringir seus pronunciamentos aos temas da economia, que ele conhece, e sobre os quais tem o que apresentar na sua condução da política econômica brasileira. Mais ainda quando ele se dirige ao público seleto do Forúm Econômico Mundial de Davos, com grande ressonância internacional. Num painel intitulado “Moldando o futuro da indústria avançada”, em Davos, Guedes resolveu falar de sustentabilidade ambiental, e escorregou de forma lamentável, quando afirmou que a “pior inimiga do meio ambiente é a pobreza”, porque as “pessoas destroem o meio ambiente porque precisam comer”. Como assim, ministro? O planeta tem mais de dois bilhões de pobres que andam a pé, de bicicleta ou, no máximo, de ônibus, jamais entraram num avião, e têm baixo consumo de energia elétrica. Para utilizar um único indicador –  consumo per capita de energia elétrica (parte da qual gerada por térmicas (grandes emissoras de gases de efeito estufa) – os países desenvolvidos chegam a 8.895,76 kWh/habitante, quase 40 vezes mais que a média dos países de baixa renda, com apenas 232,74 kWh/hab. Países grandes da África, como a Nigéria, consomem apenas 148,93kWh/hab, quase noventa vezes menos que o consumo dos Estados Unidos (13.246,04 kWh/hab (dados do Banco Mundial para 2011). Na verdade, se os pobres do planeta alcançassem o padrão de consumo compulsivo dos países desenvolvidos, o planeta já teria entrado em colapso total. A inaceitável persistência da pobreza termina servindo,  cruelmente,  para compensar o consumismo exacerbado dos ricos e da classe média. E, como disse a jovem Greta Thunberg, em pronunciamento no mesmo Fórum, os pobres são vítimas e não responsáveis pelas mudanças climáticas, porque estas “atingem principalmente as populações mais vulneráveis dos países pobres”. O desenvolvimento mundial exige elevar o consumo dos pobres, inclusive o de energia elétrica. Mas, para isso, terá que reduzir o consumo conspícuo dos ricos.