Helga Hoffmann

Police move towards a protester after curfew Saturday, May 30, 2020, in Minneapolis. John Minchillo/AP

Police move towards a protester after curfew Saturday, May 30, 2020, in Minneapolis. John Minchillo/AP

Era negro. E era pobre. Crescera em Houston, no bairro conhecido como “The Bricks” (Os Tijolos), um projeto habitacional tomado por gangues, drogas e armas. George Floyd não escapou nem do ambiente nem da reputação, e mais de uma vez foi preso por porte de droga. Só ficou famoso pelo tamanho, 2 metros. Depois de um termo de prisão de cinco anos por roubo a mão armada em 2007, saiu decidido a mudar de vida, sentira-se mal de arma na mão. Foi trabalhar na sua igreja, Ressurreição Houston, e foi um programa de trabalho da igreja que o levou a Minneapolis. Desde que ali chegou não teve mais problema em achar emprego. Deu-se bem em seus trabalhos como segurança e “leão de chácara”. Um dos locais em que trabalhava à noite, El Nuevo Rodeo, era o mais badalado de Minneapolis para música e comida mexicana. Os que contaram pedaços da história dele depois que morreu disseram que era calmo, mantinha a ordem com um sorriso e a simples presença do “Big Floyd”, os “habitués” ganhavam um abraço. Seu locador gostava dele e diz que ele sempre pagou o aluguel certinho. Era um vizinho gentil. Tinha encontrado uma namorada, Courtney, e parecia estabilizado em Minneapolis.

Mas de repente foi como se o passado o agarrasse de volta: ficou desempregado, perdeu seus trabalhos de segurança quando bares e restaurantes fecharam por causa da Covid-19. De algum modo ainda arranjou dinheiro para o aluguel. Não sabia quando voltaria a ter trabalho, telefonou para muitos pedindo conselho. Na noite de 25 de maio foi com dois conhecidos comprar cigarro num mercadinho onde costumava ir. Pagou com uma nota de 20 dólares que o caixa achou que era falsa, e aí não quis devolver os cigarros, o caixa chamou 911 e disse que a culpa era do “cara alto”. A polícia chegou e o algemou. O que aconteceu depois, filmado, foi visto em todo o seu horror no mundo inteiro.

Mil detalhes da vida de Floyd agora se enxergam. Estavam invisíveis antes? Anotei alguns aspectos da sua história de vida (condensada no obituário do The Economist de 5 de junho, “George Floyd: The life pressed out”) para tentar entender como começou a onda de protestos que varre os Estados Unidos. Parecem ser mais que protestos contra o racismo sistêmico na interação da polícia com os cidadãos. E por que agora vieram à tona tantos exemplos desse racismo sistêmico, tão flagrantes que levam a um questionamento mais geral sobre se de fato há “igualdade perante a lei” no país tido como modelo de democracia? Pois as imensas manifestações, em tantas cidades americanas nas quais marcharam em protesto milhões de pessoas, em tantas cidades europeias também, não se explicam apenas porque o vídeo se espalhou.

O caso não é sem precedentes. Há um padrão histórico de violência policial contra negros nos Estados Unidos que não se encerrou na esteira da Guerra Civil e com a abolição da escravatura em 1865. Estão registrados inúmeros casos e vários causaram grandes revoltas locais no passado. O escritor irlandês Fintan O’Toole tentou explicar porque a cólera transbordou e se esparramou em maio de 2020:

“No mundo de Trump e do Partido Republicano a própria história está confinada [‘in lockdown’], seguramente contida e distanciada de qualquer ameaça de infecção pela realidade. E no entanto a força do vídeo que mostra como George Floyd foi morto não está apenas em sua brutalidade quase insuportável. Está em seu duplo sentido de temporalidade. É medida em minutos e segundos e em gritos: os 8 minutos e 46 segundos em que Derek Chauvin fica com o joelho no pescoço de Floyd, as 16 vezes em que Floyd diz “Não consigo respirar.” Mas é também medida em séculos. É o oposto de ‘sem precedentes’.” (Fintan O’Toole, “The Unpresident and the Unredeemed Promise”, The New York Review of Books, 12/06/2020)

É uma história que se repete. E não são apenas negros pobres que são discriminados pela polícia, a ponta mais visível do poder do Estado. A historiadora Annette Gordon-Reed é professora de Processo Penal na Universidade de Harvard. É negra. Conta como foi de carro para uma apresentação em Vermont, com seu colega e coautor, Peter S. Onuf, branco, e a polícia os parou, ainda em Massachussetts. Quem dirigia era o colega, a quem pediram documentos. Ela estava sentada como passageira, quieta, com seu cinto de segurança colocado. E aí o policial pediu a carteira de identidade dela. Entregou a carteira, nem lembrou normas legais que tanto debate com os alunos. Só teve consciência do poder do homem armado que pedia sua identidade, mesmo sem qualquer razão para que pudesse considerá-la perigosa ou envolvida em crime (nem mesmo infração de trânsito, já que não era ela ao volante). Depois de alguns minutos em que o policial verificou se havia contra ela alguma acusação ou ordem de prisão, recebeu de volta sua carteira e partiram. Nesse caso não houve violência, ao contrário da imensidão de outros casos com pessoas que só tiveram seus nomes conhecidos depois de trágicos encontros com a polícia. (Annette Gordon-Reed, “The Problem of Police Powers for People Living While Black”, The New York Review of Books, 13/06/2020)

Gordon-Reed observa que, se a situação tivesse escalado para um conflito com o policial, prevaleceria a versão deste, pois as Cortes adotam a presunção de que o policial diz a verdade dos seus encontros com cidadãos. Tem dado outros exemplos da diferença de tratamento que denotam discriminação entre “cidadania de primeira classe” e “cidadania de segunda classe”, inclusive na “guerra às drogas” e na questão do porte de armas. Nos protestos contra a quarentena que ocorreram em Michigan e na Pennsylvania em meados de abril, supremacistas brancos apareceram carregando rifles sem serem incomodados pela polícia. Há, contudo, algum exagero na sua tese de que na situação descrita, na estrada, de nada lhe servia sua educação nos melhores colégios, ser professora titular em Harvard, ganhadora de um Prêmio Pulitzer. Pois ela entregou sua carteira de identidade ao policial com a calma de quem sabia que ele não encontraria antecedentes criminais.

No fundo a questão é mais ampla: como o policial decide se é um cidadão que não deve ser importunado ou membro da “raça” que deve ser supervisionada e policiada? As comunidades negras são muito mais policiadas no porte de drogas, por exemplo, do que qualquer bairro de maioria branca. No acesso a moradia a discriminação pode ser indireta, se não pela venda evitada, pela interferência no financiamento. Fato é que há bairros negros e bairros brancos, determinados não apenas pelo poder de compra.

É espantoso o que neste momento sobe à tona sobre a atuação da polícia nos estados americanos. Ficou visível para todos a violência dos policiais jogando gás e dispersando manifestantes pacíficos de todas as cores que desde o fim de maio foram às ruas e praças, mencionadas pelo Secretario de Defesa Mike Esper como o “campo de batalha” que os governadores deveriam dominar. E mais que visível e amplamente comentada foi a presença da mais alta hierarquia militar caminhando junto do Presidente Trump em seu show de força em Lafayette Square, Washington, dia 1º de junho.  Mas depois da morte de Floyd o público conheceu mais uma forma de discriminação, quando constatou a politização dos resultados da autópsia.

Doze médicos assinam um artigo na revista Scientific American (06/06/2020), “George Floyd’s Autopsy and the Structural Gaslighting of America”, em que mostram que é mais comum do que se imagina a desinformação na causa mortis em autópsias de vítimas de violência policial, de modo a atenuar a culpa da polícia e transferi-la para supostas patologias pré-existentes. O noticiário da autópsia de George Floyd, dia 29 de maio, dizia que “não se encontrou informação física em apoio a um diagnóstico de asfixia traumática” e que condições cardiovasculares pré-existentes “podem ter contribuído para sua morte”. Mas especialistas sabem que doenças coronárias aumentam o risco cardíaco no longo prazo e não em alguns minutos, e a asfixia nem sempre deixa sinais no corpo. Só depois de muita pressão política chegaram ao público, três dias depois, em 1º de junho, os relatórios de duas outras autópsias, uma solicitada pela família de Floyd a médicos particulares e outra do “Hennepin County Medical Examiner’s Office”, dando a causa da morte de Floyd como asfixia, e, portanto, homicídio. Durante três dias a comunidade negra em Minnesota fora induzida a duvidar da verdade que tinha visto com seus próprios olhos.

Donald Trump, que notoriamente desconhece a história dos Estados Unidos e sua Constituição, não conseguiu captar um sentido maior das manifestações, que não pararam no pedido imediato da punição dos policiais diretamente envolvidos na morte de Floyd. “Não consigo respirar”, um cartaz das marchas, virou uma alusão a um passado não resolvido, a promessas de igualdade entre brancos e negros não cumpridas ainda depois que acabou a Guerra Civil e depois que foi abolida a escravidão em 1865.

Virou alusão até ao sintoma maior da Covid-19. Pois temos os efeitos da pandemia nos Estados Unidos, que de novo mostraram a desigualdade em um país em que o acesso à saúde e aos serviços médicos já é de qualquer modo desigual ao extremo. Bairros pobres e bairros negros têm sofrido mais, não só as mortes por Covid-19 como o desemprego. Floyd foi apenas mais um entre mais de 20 milhões que perderam seus empregos. E parou de respirar quando o número de mortos por Covid-19 nos Estados Unidos chegava aos 100.000. A indecisão e a desorganização do Presidente Trump ao lidar com a pandemia; a teima em anunciar de início que o vírus ia desaparecer logo nos Estados Unidos, que era um problema dos chineses; os ataques à Organização Mundial da Saúde; a defesa de falsas curas desde a injeção de desinfetante à cloroquina (rejeitadas pela sua própria agência de controle sanitário, a Food and Drug Administration) e a promessa infundada de uma vacina rápida; o menosprezo ao uso de máscara; o desinteresse em entender o que se passava, que o problema não desapareceria só com o cancelamento de voos da China, da União Europeia e outros países, nem do Brasil; a demora na adoção do isolamento social e sua liberalização sem coordenação, em disputas sobre autoridade com governadores e prefeitos – tudo isso deve ter funcionado como mais um componente do desconforto dos manifestantes.

A imensa demonstração de força policial e ameaça militar com que reagiu a administração Trump pode ter alterado e ampliado em algum momento o foco das manifestações. Quando junho avançou, o “problema” já passara a ser Trump, a força da repressão e até algum temor sobre o futuro da democracia nos Estados Unidos, quando o Presidente Trump ameaçou usar tropas federais para derrotar o “terrorismo doméstico”. Para os manifestantes colocou-se a urgência de conter os responsáveis por saques e incêndio de estabelecimentos e veículos, como ocorreram inicialmente em Minneapolis e algumas outras cidades e também em Manhattan. Também era preciso separar manifestantes violentos que algumas vezes causaram conflito no meio de protestos majoritariamente pacíficos e alguns até em silêncio. O Presidente Trump e seus aliados em campanha eleitoral, alegando a ameaça à segurança que seria essa minoria radical e violenta ao estilo de nossos “black blocs”, buscavam justificação para colocar os militares nas ruas para acabar com as manifestações. Houve partidários mais radicais de Trump que chegaram a chamar de “insurreicionistas” os que protestavam nas ruas. Nesse contexto, analistas políticos soaram o alarme para a presença do General Mark Milley (Chefe do Estado-Maior Conjunto e formalmente o principal conselheiro do Presidente em assuntos militares) em uniforme de combate, atrás de Trump, quando este foi fazer seu comercial de campanha de bíblia na mão, em “Lafayette Square”. O comercial resultou em críticas de alguns religiosos. E por ora parece que o ímpeto de Trump de ter também a sua guerra foi contido, principalmente por militares.

As manifestações obtiveram ao menos punições para os policiais envolvidos no caso Floyd. A opinião pública americana majoritariamente aprova as manifestações, percebeu que algo tem que ser feito a respeito de policiamento, inclusive uma desmilitarização dos departamentos de polícia e revisão da doutrina jurídica que dá imunidade qualificada aos policiais que ferem cidadãos. O Congresso dos Estados Unidos começa a discutir propostas de Republicanos e de Democratas para uma reforma do policiamento. Claro que há mudança. Mas é lenta. Afinal, como lembra a historiadora Annette Gordon-Reed, até agora a escravidão vigorou no mundo por muito mais tempo que o regime de liberdades democráticas, mesmo nos Estados Unidos.