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Penso, logo duvido.

Onde estão os comunistas? – João Rego

João Rego

Soviet troops on a train, Russian Civil War.

Vejo, com frequência, em minha timeline do Facebook, comentários de pessoas, em sua grande maioria antipetistas, ou convictos seguidores do bolsonarismo, fazendo referências a: “vamos acabar com esses comunistas”, ou vociferando contra Paulo Freire, vendo o seu método e pensamentos como o uma ameaça a sua visão de mundo. Outras vezes, revoltam-se contra “essa impressa esquerdista” que se nega a mostrar as “coisas boas do governo Bolsonaro”.

Para eles, a realidade está limitada às narrativas propagadas nas redes sociais – fakenews -, quase sempre, milimetricamente preparadas para alimentar o ódio contra tudo e contra todos que pensam e agem diferentes deles. Com os alicerces do ódio e da intolerância destilados a cada post, a cada comentário ou curtida, dão sustentação ao seu frágil e paranoico universo, pois não resistem ao conhecimento e têm horror à crítica.

O conhecimento é mesmo uma ameaça para muitos, pois destrói as certezas cegas do sujeito, lançando-o no mar da angústia e da incerteza. É nesse mar que a ciência e a arte vêm há milênios navegando, vencendo as tempestades do medo e da ignorância, muitas vezes impulsionadas pelos fortes e consistentes ventos das religiões e das ideologias.

No leme, a razão; na mão, a bússola das dúvidas e o seu mapa, a árdua construção do conhecimento.

Voltando aos “comunistas”, sem querer discorrer aqui sobre dois séculos da nossa história política, quando as correntes marxistas e liberais se digladiavam para imporem seu modelo de governo e de sociedade, farei uma breve reflexão sobre as recentes transformações da história. Com o fim do regime da União Soviética, simbolicamente materializado com a queda do Muro de Berlim, tudo que era sólido desmanchou-se no ar (Marx sempre bom em seu estilo!). Após isto, a democracia se impôs como um valor universal, forçando os conflitos e as visões de mundo de esquerda e direita, de progressistas e conservadores, a se situaram neste novo momento da história. O que era um regime comunista, tornou-se totalitário ou autoritário, dependendo do distanciamento destes aos atributos de referência da democracia.

Hoje, os comunistas só existem nas mentes paranoicas da extrema direita, ou, na de pessoas muito mal informadas. Existem também, no outro lado do delírio, no espírito de militantes de partidos de esquerda que ser recusam a largar a alça do caixão de certos dogmas marxistas. Pensam estar em 1917. Ou seja, um caso de negação da realidade histórica, para ser decifrado pela psicanálise, e, em alguns casos, pela psiquiatria – sem muita chance de cura. Não é mais objteo da ciência política.

Com o atentado provocado pela Al-Qaeda, em 11 de setembro de 2001, o mundo, viu estarrecido que o fundamentalismo religioso, o suprassumo da intolerância, iria desafiar o nosso século que, embora tão prenhe de inovações tecnológicas, estava despreparado para lidar com o radicalismo religioso, o qual imaginava-se enterrado, séculos atrás, com o fim da idade das trevas.

Como resposta a onda do fundamentalismo islâmico e seus atentados nos EUA e na Europa, emerge uma outra vaga, tão nefasta quanto ela: a extrema-direita, herdeira direta do nazismo e do fascismo, radical, antidemocrática e com muitos recursos para manipular multidões por meio das análises dos big data e das fakenews nas redes sociais. As forças democráticas sofrem uma inesperada derrota com a eleição de Trump. Na sua esteira, regimes como os da Hungria destrói a democracia por dentro, a exemplo do que a esquerda radical, igualmente antidemocrática, fez na Venezuela. Com a universalização dos valores democráticos, após a derrocada do regime soviético, o mais adequado talvez seja classificar os regimes em: autoritários, independente da sua herança ideológica ou democráticos. Não esquecendo que, dependendo da dinâmica política de alguns países, temos a categoria daqueles que estão em fase de transição entre os dois regimes.

No Brasil, com Bolsonaro e seu núcleo ideológico, elege-se também a intolerância e a truculência, tendo como estratégia política a agressão sistemática contra as liberdades e as instituições que dão suporte a democracia.

Eles têm em seu DNA ideológico um sincero horror aos valores democráticos, a cultura e a liberdade. Estão no poder e testam os limites da democracia. Até quando?

 

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2 Comments

  1. Excelente, caro João.
    A bandeira do anticomunismo é fantasmática e já não cola mais.
    Abraço

  2. Tem razão, João Rego. Setenta anos de um experimento social (1917-1989) mostram que o comunismo fracassou como regime de organização da produção e da sociedade. Comunismo não existe mais e nem é viável. Mas a população brasileira tem baixo nível de educação, desconhece a história de seu próprio país e conhece menos ainda a história de outros países. Então ainda tem muita gente anticomunista, mesmo sem saber o que é isso, pois o líder da caça aos comunistas, Bolsonaro, inventou esse espantalho para condensar os ressentimentos de fanáticos, religiosos ou não, que ainda lhe garantem o apoio de cerca de um terço em pesquisas de opinião. O estranho é que esse pessoal que Bolsonaro manipula com o espantalho do comunismo nem lembra que quando deputado federal, em 1999, Bolsonaro disse de Hugo Chavez (que foi o que de mais parecido com comunismo existiu na América Latina fora o caso muito particular de Cuba): “é uma das esperanças da América Latina”. Não é fake news, está nos arquivos do jornal “O Estado de S.Paulo”. PS – Suponho que na quinta linha é “imprensa” e não “impressa”

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