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Penso, logo duvido.

Sobre escrever um romance – Fernando Dourado

Fernando Dourado

Homero Fonseca – jornalista, escritor e consultor literário.

A sexta-feira parisiense, dia dos Namorados no Brasil, amanheceu digna de um outono, mesmo sendo quase verão. Em fase de finalização de um trabalho de fôlego, ou pelo menos eu assim o julgo, abri a janela e me alegrei ao ver que o céu estava baixo, e que há 90% de possibilidade de termos chuvas fortes até as 17 hs, o que remete as comprinhas de comida e bebida do fim de semana para o sábado. Ótimo. Era minha intenção manter o silêncio e o recolhimento por mais uma semana, pelo menos. Como tal, para evitar dispersões de energia, não enviaria as costumeiras colaborações à Será?, contentando-me, por outras vias, em lavrar minha torcida para que Clemente Rosas se recupere de pronto do pequeno susto que levou. Ou grande – isso quem nos dirá mais adiante será ele mesmo. E no entanto, bateu a vontade de contar-lhes muito brevemente, com todos os riscos que comporta a escrita de afogadilho, os bastidores do romance que resolvi escrever, e que, julgo eu, avançou bem no confinamento. Quem sabe as coxias não tragam lições e reflexões para todos nós?

Há exatos dois anos nesta data, em casa de Joca Souza Leão, decidi que escreveria um romance. O flerte com a ideia de escrevê-lo, obedeceu a um instinto, no mínimo, mesquinho. E tendo sido pois um fato de natureza inusitada, nada mais natural que tenha acontecido em Lisboa, terra desde há muito propensa ao insólito, pelo menos no que diz respeito à minha modesta vida. Estava eu ali na livraria LeYa, junto ao café Nicola, e me deleitava com os ares recifenses que se respiram no Chiado desde sempre. Quero dizer, desde que Portugal ainda não regurgitava de tanto turismo, e naqueles tempos em que o Recife era uma cidade que até na indigência transpirava classe, a despeito da fedentina que, a seu turno, passa despercebida dos locais até hoje, quando não é o caso de lhes parecer agradável, a ponto até de fazer falta. Mas onde estava mesmo? Ah sim, na livraria, onde folheava os lançamentos, ávido por me apaixonar por um livro inédito, nessa minha sanha de ter muito mais curiosidade pelos novos do que pelos clássicos, de achar que o novedoso me falará ao coração mais diretamente.

Foi então que manuseei um opúsculo de um jornalista-escritor português em que, numa prova inequívoca de versatilidade, ele tratava de assuntos que iam dos esportes ao perfil de personalidades da política. Li uma ou duas histórias das vinte, e fiquei perplexo ao ver a tiragem de milhares de exemplares que merecera aquele título que eu folheava. Como podia? Alguns dos ensaios eram ótimos, talvez dois deles, não mais que três de qualquer forma, e quanto ao restante, bem, tinha ali muita coisa que pessoas apenas medianamente versadas nas letras poderiam ter feito melhor. Então, fui verificar as credenciais do autor. Num mar de realizações triviais de beletrista, trovador, radialista e articulista, assomava a autoria de um romance adubado de que se venderam alguns milhares de cópias. Só depois daquela unção, pensei, ele pudera se dar ao luxo de publicar (e emplacar) um livro apenas razoável, acessível agora a milhares. Ou seja, não havia abre-te Sésamo mais poderoso para sacudir o marasmo das editoras do que ter um romance entre suas credenciais.

Tenho certeza de que foi por isso que resolvi romper o casulo do conto curto e da crônica, em certa medida também o do ensaio em que vez por outra me aventurava, para escrever um romance tal como eu gostaria de ler. Ou seja, cumpriria neste terreno nevrálgico o velho preceito de não agourar aos outros o que não desejaria para mim mesmo. Daí que escreveria, antes de tudo, um livro que fosse de meu agrado pessoal, que eu curtisse ler de uma ponta a outra, tomando por base os tempos em que mergulhávamos com mais frequência nessas águas de mar aberto, e não nos remansos lacustres dos textos que cabem nas telas telefônicas. Não que atribuísse grande mérito à tessitura de uma trama convincente e/ou à criação de um universo de personagens imaginários que, pouco a pouco, começassem a se soldar. Não. Curiosamente, minha compreensão era a de que montar semelhante comédia tinha um quê de infantil, sem demérito dos grandes nomes da ficção mundial. Demais, eu que tanto gosto do memorialismo, nunca acreditei na pureza da ficção. Em que medida ela escapa da experiência vivida? Mas que fosse.

O que importa é que foi movido por um impulso pragmático, embora de raiz juvenil, vá lá, que decidi que escreveria um romance. Se “Carta a Portugal” já fora uma primeira incursão nesse terreno, em formato epistolar, eu tanto sentia que poderia dar mais de mim, quanto ele ainda não cumprira a pleno a função de rito de passagem, de unção, de sacramento, digno de um romance fleuve. Certo é que um dia eu resolvi começar. A meu modo, iria atrás daquilo que Sándor Márai tão lindamente descreveu em seus Diários como um momento em que os personagens ganham vida própria, levam o romance a direções antes inimagináveis, como se fossem as flores e plantas de um jardim que, quando menos se espera, desabrocham, procuram o sol, e resplandecem numa profusão de cores e, é claro, de direções. Que isso era possível, não tinha grande dúvida. Mas como manter sob controle a motivação em montar um universo de personagens cheios de falares e de vontades, como se gerisse um depósito de brinquedos mágicos? Como manter o experimento sob controle sem engessá-lo?

O tempo dirá se trilhei o bom caminho, a despeito de minhas inúmeras deficiências no métier. Mas para quem quiser saber, para mim foi importante engajar um consultor literário em quem confiasse tanto tecnicamente – não dá para ser uma pessoa que não tenha lido pelo menos uns 4 mil livros, e escrito pelo menos meia-dúzia deles – quanto emocionalmente, visto que é um trabalho de fôlego, que tangenciará visões de mundo diferentes, vivências idem, além de exigir um comprometimento sincero com o sucesso. Essa pessoa me ajudaria a sair dos atoleiros de criação, a romper com os impasses inevitáveis e a lutar contra a simplificação preguiçosa. Guardiã do bom gosto, temos que entender que ela também estará sujeita às suas próprias flutuações de humor. Convém pois respeitar prazos para também tê-los respeitados, e manter um ritmo que não apague a história, que não a deixe esfriar, isto em ambas as pontas. É pois um pacto. A cláusula pétrea é uma profunda confiança emocional porque pela boca dos personagens, é possível que o autor diga de si o que jamais tenha dito a alguém.

Que ninguém se iluda. Por amigas que sejam as partes, e por muito que se estimem, a relação tem muito mais a ver com a do terapeuta e o paciente, do que com a que você possa ter com um amigo ortopedista que examine o seu joelho no clube e diga: “O ideal seria operar, mas se você não estiver sentindo muita dor, vá levando.” Não, aqui a relação é mais profunda, é mais entrelaçada. Mesmo porque você não pode ter o joelho avariado toda semana. Mas com seu consultor literário, no auge de um romance, você está todo dia meio capenga. É nele que você pensa quando está em pane, quando não sai do lugar, quando não sabe que rumo dar à história. Você pensa, mas não telefona -essa terrível mania brasileira. A ajuda é telepática, ou vem de dentro de você. Porque assim como acontece ao terapeuta, você lhe está pagando – condição impreterível para que isso dê certo -, e sem a qual não há progresso possível. É inconcebível a força que tem o dinheiro, e seu poder transcendente para selar compromissos. Sem sua cola garantidora, o diletantismo campearia. E a cortesia viraria moeda de troca. “Gostei, vá em frente.” E só.

É evidente que um caminho assim não é linear. Você contrata alguém em princípio para ajudá-lo numa empreitada maior. Para fazer um desfile de haute couture. Mas que tal se surgir no meio do caminho a vontade de lançar uma coleção de prêt-à-porter? Como fazê-lo sem fraudar o contrato? Pois bem, há de se achar um meio termo. Não se pode pedir a um cozinheiro de forno e fogão, a um homem capaz de untar faisões com lascas de trufas do Piemonte, para dar uma mão num brigadeiro de colher ou numa baba de moça. Equivaleria, no caso, a pedir-lhe que organizasse, por hipótese, crônicas de jornal já escritas, segundo pertinência de tema, para transformar em livro. Seria denegrir (já sei, já sei) a toque blanche (também já sei, já sei) do mestre-cuca.  Mas melhor do que romper o vínculo devido a um impasse, é propor cooperação em torno de um romance mais brando ou de uma coletânea de contos. É bom, ademais, que ele seja esperto o bastante para lhe assinalar quando estiver havendo desvio de finalidade, uma espécie de subterfúgio que o romancista encontra para se furtar à tarefa maior.

Assim, entre avanços e recuos, a parceria frutificará e resultará num vínculo único. A meu mestre, portanto, obrigado. Mesmo quando ele não sabe, sua voz, sua generosidade e até sua fúria implacável, ecoam em cada linha que eu escrevo. Estas linhas aqui acima, por exemplo, e por várias razões, sei que não serão de seu agrado. Mas nem sempre calibramos bem a prosa quando Paris amanhece vestida de outono em plena primavera.

One Comment

  1. Amigo Dourado, saudações,
    Há tempos acompanho seu desejo de escrever um romance, um livro denso, visceral e definitivo.
    Que permita e traga o justo e merecido reconhecimento de suas múltiplas capacidades.
    Para mim, que tenho a sorte de tê-lo como um amigo querido, não será surpresa se sua obra se tornar um grande best-seller.
    Nada lhe falta: dedicação, determinação, capacidade, cultura, criatividade, experiências infinitas.
    Você é e está na “tempestade perfeita“…
    Abra as portas e janelas e deixe o vento entrar – ou sair…
    Saúde e sucesso, amigo!!

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