Flow

Flow

Conta o jornalista Rodrigo Ratier, professor da USP, em sua coluna do UOL, de seis deste março que, observando sua filha mais velha, de dez anos, assistir ao filme “Flow”, perguntou à certa altura se ela queria ir embora. Resposta: “Não, mas nunca mais quero ver esse filme”. Talvez não fiquemos longe da verdade ao imaginarmos que outras crianças se comportarão da mesma forma. Logo veremos por quê.  A aparente contradição de se deixar atrair pelo filme e, ao mesmo tempo, recusar-se a revê-lo, algo compreensível, é um bom sinal de que “Flow” não é exatamente para crianças.

“Flow” ganhou o Oscar de Melhor Filme de Animação e, à semelhança de “Ainda estou aqui”, concorreu também ao prêmio de Melhor Filme Internacional. Mas “animação”, enquanto rótulo ou categoria, não rima necessariamente com ser “infantil”. A rigor, “Flow”, pouco ou nada tem de infantil, como sinalizou a filha do colunista. Mas não se pode negar que uma de suas maiores seduções é se passar por infantil, exatamente como ocorre com as fábulas clássicas que todos nós aprendemos ainda na infância. Eis, parece-nos, o cavalo de troia de que o ainda jovem diretor e roteirista letão Gintis Zilbalodis (1994) lançou mão para, digamos assim, adentrar a cidadela fria de nossa humanidade.

Numa história literalmente sem palavras, em que águas insaciáveis afogam o mundo, o gênero humano está presente apenas por vestígios e ausência: ruínas de casas, palácios e prédios públicos vazios e semissubmersos mostram que a humanidade ficou para trás, que já viveu num “fluxo” que, além de “fluxo”, foi e é uma deriva, sem outro sentido que não a sobrevivência. Ou seja, o sentido mais urgente é salvar a vida. É o que, com outras palavras, pontuou Schopenhauer (1788–1860) em “Dores do mundo”: “O que ocupa todos os vivos e os conserva em contínua atividade é a necessidade de assegurar a existência”.

Se, na esteira do filósofo alemão, a dor e o tédio são os inimigos da felicidade humana, logo vemos que, se tomarmos “Flow” como uma fábula, o conhecido movimento pendular schopenhauriano da vida (entre sofrimento e privação, num polo, e segurança e tédio em outro) tende apenas para a dor, o medo e a total ausência de segurança. Num duplo sentido, não há tédio no filme de Zilbalodis. O tédio é eliminado pela permanência da voragem, que também é outro nome para o “fluxo”.

Não se pode negar que “Flow” abre um diálogo com todos os dilúvios, mitológicos e reais. Dir-se-ia que estamos em pleno domínio de um pesadelo, e de fato estamos. Os animais, em especial o agora famoso Gato, embora inteligentes protagonistas, não podem compreender seu destino; tanto para eles como para nós o cerco dos perigos não dá trégua. “Flow”, por isso, é um filme de ação e, a rigor, não tem fim. Aparenta-se a uma tragédia em cujo movimento monocórdico não há redenção e cujas vítimas são envolvidas por um terror “de cima”, cósmico, para o qual não há preces possíveis. É de se notar, por óbvio, que os animais não rezam, mas, à sua maneira, perguntam! Também eles desejam justiça e devem recebê-la, como argumenta a filósofa americana Martha Nussbaum em sua mais recente obra, “Justiça para os animais”.

Um épico a seu modo, “Flow” termina por ser irônico: assistimos à nossa própria ausência e, de uma forma vicária, ao medo e ao pânico que presidiram nosso “desaparecimento”: nós não estamos ali. Sim, em meio às águas selvagens, num simulacro da arca de Noé, não estamos ali. Mas, de nossas poltronas, só temos as palavras para explorar uma cartografia tão bela quanto vazia, ironicamente perdida para um infinito silêncio.

A ausência de palavras (ao contrário da costumeira e banal antropomorfização) lembra, dentre tantos possíveis sentidos, que o diálogo entre as espécies animais (cada dia mais estudado pela ciência) é uma realidade a ser valorizada. O “fluxo”, por ser “fluxo”, não apaga as diferenças, mas demonstra que as espécies podem conversar e conviver, ainda que possam evidenciar sua alma instintiva como na cena em que os cães abandonam uma empatia salvadora e coletiva em prol de uma caça sedutoramente disponível. Assim, entre avanços da empatia e recuos de um medo visceral, é preciso buscar a salvação, ou seja, a vida, a sobrevivência, e seguir em frente.

Assim, como o mundo para o Wittgenstein do “Tratado lógico-filosófico”, o “fluxo” “é tudo o que acontece”. Mas, de um ponto de vista imemorial e cósmico, se queremos lhe dar uma carnação filosófica, podemos dizer que se identifica com a “vontade de viver” que o já citado Schopenhauer tão bem expôs em sua obra “O mundo como vontade e representação, da qual tomamos estas palavras relativas à natureza animal, que para ele “não é só absurda, mas cruel”: “[…] um combate contínuo, ‘bellum omnium’, onde todos são caçadores e presas; tumulto, privação, miséria e medo, gritos e alaridos […] Qual o crime pelo qual devem sofrer esse suplício? A que obedecem estas espantosas cenas?”.

A que obedecem o “fluxo” e suas cenas não menos espantosas? Em seu “opus magnum”, o mais pessimista dos grandes filósofos nos responde: “Assim se objetiva a vontade de viver”.