
Lula
Saúdo, com toda ênfase, o post de Lula, no qual, quarenta anos após, reconhece o 15 de março como marco da transição democrática brasileira, garantida pela eleição de Tancredo Neves, que, tragicamente, morreu antes de sua posse e, no seu lugar assumiu, de acordo com a previsão constitucional, o seu vice José Sarnei. É alentadora a seguinte declaração de Lula:
“Mais que a posse de um presidente da República, 15 de março de 1985 será lembrado como o dia em que o Brasil marcou o reencontro com a democracia.” Ufa! O tempo realmente é o senhor da razão.
É um grande avanço para quem, conforme está registrado no livro “A ditadura acabada”, de Elio Gaspari, dizia que a proposta de Tancredo não era de uma transição democrática, mas sim de uma “transação”, para desqualificá-la como uma mera negociação entre as “elites”.
Sim, devemos saudar o fato de, finalmente, ter caído a ficha em Lula. Afinal, ainda em 2017, desancou os três deputados do PT ( José Eudes, Beth Mendes e Ayrton Soares) que preferiram ficar do lado da democracia, votando em Tancredo Neves no Colégio Eleitoral Indireto. Naquela votação tão decisiva para o Brasil transitar para a democracia, o PT e Lula preferiram a fazer o jogo de Maluf, o que daria mais seis anos de sobrevida à ditadura, caso Tancredo tivesse sido derrotado.
Não faz muito tempo, há sete anos, Lula considerava os três deputados petistas como lixo da história por não terem cumprido a determinação do PT de não votar em Tancredo Neves e no seu vice, José Sarney, então um dissidente da ditadura.
Como disse, o acerto de Lula com a história, ainda que tardio, é bem-vindo. Mas deveria ser acompanhado de um pedido de desculpas. Primeiro aos três deputados expulsos do PT por terem votado em Tancredo e Sarney. A humildade não é desdouro para ninguém e pedir desculpas é também um gesto de grandeza. Lula e o PT deveriam pedir desculpas ao país por, com o seu abstencionismo, ter feito o jogo do continuísmo da ditadura. Talvez Lula confiasse no patriotismo da maioria de não embarcar na canoa furada do abstencionismo no Colégio Eleitoral. Por isso podia se dar ao luxo de manter a “pureza proletária” e não se misturar com aqueles liberais.
Reconhecer que naquele momento tão dramático colocou os interesses partidários acima dos interesses nacionais e da democracia seria um bom passo para o acerto de Lula com a história. Os três parlamentares excomungados por terem votado em Tancredo Neves estavam certo e não caíram na cantilena de que é preferível errar com o partido a acertar sozinho. Esperamos que a “reabilitação” desses parlamentares não demore tanto como a de Buhkharin. Esta, só veio a acontecer 50 anos após o seu assassinato por Stalin. Não é verdade, o partido não está sempre certo e quem dele diverge não está sempre errado. O PT estava errado ao se recusar a votar em Tancredo, assim como cometeu o erro lamentável de não assinar a Constituição-Cidadã aprovada pelos Constituintes, em 1988. Para não falar em sua oposição ao Plano Real.
Lula e o PT podem até arguir, em sua defesa, que naquela época eram imberbes em matéria de política. Por isso mesmo primaram pelo esquerdismo, aquela doença infantil de comunismo segundo as palavras de Lenin. O mesmo esquerdismo o levou a fazer uma oposição sem quartel ao Plano Real, a quem o PT carimbou como “neoliberal!. Se Lula amadureceu com o tempo e 40 anos depois finalmente reconhece a importância da transição democrática, a mudança de posição é bem-vinda
Há elementos positivos na nota de Lula sobre os 40 anos da posso de Sarney na presidência da República, divulgada em suas redes sociais, Uma delas o reconhecimento de que 15 de março de 1985 inaugurou um novo momento da história brasileira, no qual o Brasil deu passos significativos e importantes. É um reconhecimento da falência do que ele próprio alimentou do “nunca antes na história desse país”. Pela primeira vez, Lula, ainda que parcialmente, reconhece que não foi o inventor da pólvora e que antes de seu governo, avanços importantes foram dados.
Como disse, é um reconhecimento parcial, por saltar do governo Sarney para os seus. Há que se reconhecer que nesses quarenta anos o Brasil deu importantes e decisivos avanços, em várias esferas, e como produto do esforço de sucessivos governos.
O grande legado do governo de Sarney foi a consolidação da democracia, possibilitando, assim, o país ter a Constituição mais inclusiva de sua história e ter gerado um sistema de freios e contrapesos capaz de suportar dois impeachment e uma tentativa de golpe. Isso nos possibilitou a vivermos até hoje o mais longo período democrático de nossa história republicana.
Sarney teve ainda a grande virtude de governar sem ódio, de trilhar o caminho da conciliação, perfilado, , assim, com um traço marcante de nossa cultura: a conciliação. Tudo isso torna menor os desacertos de seu governo, como o fracasso do Plano Cruzado, que agravou a escalada inflacionaria herdada dos tempos da ditadura.
Ao legado de Sarney sucederam-se os anos FHC, cuja grande obra foi a estabilização da moeda brasileira, com o fim da inflação e a modernização da economia e do Estado. Lula herda um país reorganizado democraticamente por Sarney e do ponto de vista da economia e do aparato estatal pelos anos FHC.
A grande obra dos dois primeiros governos Lula foi, de um lado, massificar a rede de proteção social, dando escala a inclusão de amplas camadas marginalizadas e, de outro, manter os fundamentos da política econômica herdada do governo FHC.
Os quarenta anos da Nova República , com suas respectivas conquistas devem ser encarados com uma certa linha de continuidade dos seus sucessivos governos, com cada uma dando sua parcela de contribuição. Até mesmo o caótico governo de Fernando Collor tem sua parcela de contribuição, ao dar início à abertura de uma economia eivada de reserva de mercado.
O acerto de Lula com a história estará completo quando ele admitir, e valorizar, essas conquistas como uma obra construída por várias mãos. Assim como a luta de classes no Brasil não começou com as greves do ABC, o retorno da democracia no nosso país, cujos quarenta anos foi comemorado no último dia 15, é uma obra coletiva, fruto da luta e da tenacidade daqueles que não caíram na apatia nem no desespero. Devemos muito a liberais como Tancredo, Ulysses, Montoro e a Sarney, que ao final se incorporou à Frente Democrática que nos levou a superar os 21 anos de ditadura.
Bom comemorar datas do início de algo que acabou dando certo. Ao menos no marco das instituições de nossa democracia. Útil recordar a história e reavaliar atos e fatos de passadas e atuais lideranças. É justo o reconhecimento do papel honroso de Sarney no marco do 15 de março de 1985, sem ser uma avaliação da carreira do político maranhense. E ainda que seja justa a comemoração dos 40 anos, não acredito que temos uma democracia forte neste Brasil surreal de tão desigual.