
Suicidio – Foto de Akhil Nath na Unsplash
Dois textos recentemente republicados nesta Revista Eletrônica, de autoria de Aécio Matos e Luciano Oliveira, me fizeram rememorar experiência igualmente dolorosa que vivi também, há muitos anos. Eles falaram de amigos fraternos que puseram fim às suas vidas prematuramente, deixando-os com um vago sentimento de culpa, como se pudessem ter evitado tal desfecho. Sei bem o que é isso.
Byron Sarinho, que conheci apenas pelas notícias de suas conquistas amorosas, políticas e intelectuais, e pelos textos consistentes, com os quais cheguei a polemizar, era muito próximo de Aécio, com quem bebia e “filosofava”, em longas noitadas. Costumava dizer que não queria viver além dos sessenta anos, para não dar trabalho aos amigos e familiares, com suas mazelas. Teve filhos, mas nunca constituiu família. E teorizava, em suas conversas, sobre a melhor forma de pôr fim à vida. Era, de alguma forma, um solitário.
Fernando Mota Lima eu conheci, ainda que um pouco tarde. Intelectual de peso, de muita leitura e bom gosto artístico, era, ainda mais propriamente, também um solitário: não tinha parentes próximos. Encontrei-o pela primeira vez num dos nossos almoços na casa de Teresa Sales, dedilhando boa música em um violão. Logo nos entendemos, falando de literatura e política, e tivemos outras breves conversas, em visitas suas ao meu escritório de trabalho. Escrevia belos textos para a “Será?”, mas parecia muito preocupado com a saúde, embora me parecesse bastante rijo. Luciano era seu íntimo, e esteve perto dele em seus últimos dias. No seu necrológio, feito na Revista, evoquei o conselho de um sábio oriental a uma suicida iminente: “Não corra para a morte: ela a encontrará. Mas faça com que esse momento seja como um fulfilment (ato de cumprir-se, completude)”. E lhe fiz a pergunta: caro amigo, por que a pressa?
Armando de Holanda, este meu amigo, talvez o mais próximo que já tive na vida, não se enquadrava no padrão de solitário. Era casado (tinha duas filhas pequenas que brincavam com os dois filhos do meu primeiro casamento) e arquiteto brilhante, cujo belo opúsculo “Roteiro para Construir no Nordeste” tive a honra de revisar. Fizemos juntos inúmeros programas: acampamentos nas praias do Litoral Sul de Pernambuco, temporadas na fazenda do meu primeiro sogro em Campina Grande e na casa do pai dele em Canhotinho (PE), fins de semana na casa de veraneio dos meus pais em Praia Formosa, na Paraíba. Convivíamos intensamente, vendo bons filmes, seguidos de sessões etílicas de avaliação ou curtição, quando fosse o caso.
Não configurava aparentemente – como, aliás, os outros dois amigos aqui comentados – nenhum caso de depressão patológica. Só uma vez o ouvi falar, com algum temor, da “solidão da morte”. Ao que repliquei, com minhas convicções racionalistas, que os mortos simplesmente já não podem sofrer solidão, ou padecer por qualquer outro sentimento. Viveu em paz com a esposa, designer de joias, ambos profissionalmente bem sucedidos, apenas com breve intervalo de separação, período em que estivemos um tanto afastados. Mas logo os dois voltaram a se compor, sem traumas perceptíveis.
Nos primeiros ventos da redemocratização do país, no Governo do nosso contemporâneo de política estudantil Marco Maciel, ele foi convidado para coordenar um grupo de estudos sobre possíveis impactos ambientais do Complexo Industrial-Portuário de Suape. E logo também me convidou para integrar a equipe, na intenção de contar com alguém de visão econômica e política mais objetiva, para se contrapor a um certo visionarismo e alguma intransigência dos colegas, todos arquitetos, pesquisadores sociais e quejandos. Mas houve uma “pausa de arrumação” nas contratações de colaboradores do novo Governo, e acabei só nele entrando um pouco depois, por outra porta.
Foi nesse intervalo que surgiu o rumor de que o Programa Ecológico e Cultural de Suape seria desativado, ou minimizado. E meu amigo, sem que eu estivesse por perto, deixou-se levar pelo clima de tragédia criado pelos conservacionistas “à outrance”, chegando a afirmar que, se o programa “caísse”, ele cairia também. Ao final da última reunião do grupo, em clima de catástrofe, foi visto pelos companheiros do CONDEPE muito pálido, e visivelmente transtornado. Chegando em casa, beijou a esposa e as filhas, trancou-se no banheiro e enforcou-se.
Volto ao tema inicial com a pergunta que não quer calar: poderíamos nós ter feito alguma coisa para evitar tais desfechos? Aécio, você tinha marcado uma cachaça com Byron para alguns dias depois do evento de sua morte. Sabedor dos seus pendores autodestrutivos, poderia ter antecipado o encontro e assim demovê-lo do ato final? Luciano, você que atendeu, alta madrugada, uma ligação de Fernando com a queixa de uma dor no pé (?), e conseguiu levá-lo ao hospital e liberá-lo depois, poderia tê-lo acompanhado mais de perto, impedindo o desenlace? E eu, se estivesse ao lado de Armando na fatídica reunião em que os arautos da tragédia o levaram ao desespero, teria conseguido contê-los? Não temos resposta para isso. Mas a dor destas reflexões estará sempre conosco.
Ocorreu-me também, neste melindroso tema, deparar-me com outro texto no blog “Portal 100 Fronteiras”, assinado por W. J. Solha e igualmente republicado, sob o título “A Versatilidade da Morte”. Nele, o autor apresenta uma vastíssima relação de mortes reportadas na História e na Ficção, todas dramáticas, penosas, chocantes. (Só mesmo a prodigiosa erudição deste meu amigo poderia produzir tão exaustivo inventário de desgraças!). E finaliza com a indagação: “e como será meu fim?”
A questão da nossa humana finitude emerge, assim, a plena luz. E, por minha vez, pergunto: o que nos prende à vida? Meu entendimento, que levo à consideração dos amigos, é de que são os laços que estabelecemos, as responsabilidades que assumimos com familiares, descendentes, pósteros. Num plano mais ambicioso, com nossos compatriotas, com a nossa terra, com o país, com a humanidade. E também uma certa curiosidade em relação ao futuro, por sombrio que se nos afigure. Os suicidas são, quase sempre, solitários e descrentes.
No meu caso pessoal, já com filhos, netos, e até um bisneto, todos bem encaminhados, posso considerar que minha missão está praticamente cumprida. Mas ainda tenho uma netinha de dois anos, que quero ver crescer. Aos 84 de idade, não tenho a ilusão de vê-la adulta. Mas enquanto puder assistir ao espetáculo do seu desabrochar, e encarar, com ela e meus outros descendentes, sem temor, as ciladas da vida, as agruras, riscos e desafios deste mundo conturbado, estarei feliz. E sempre curioso em saber no que vai dar toda esta zorra.
Muito bom, Mestre Clemente.
Conheci, ainda que por pouco tempo, o querido Fernando Mota. Ao fim e ao cabo, levamos todos, na vida que se alonga, nossos suicidas e nossos mortos.
Desejo que acompanhe sua neta até muito tempo e que ela continue encantada com o avô que tem.
Abraço
Que texto primoroso, Clemente. Os suicidas têm uma razão que jamais vamos compreender .
Mais uma vez perfeito e emocionante. Você realmente tem o dom das palavras, meu Pai.
Tenha certeza que você verá e acompanhará o desabrochar da nossa pequena Maitê.
Estaremos juntos nessa jornada.
O futuro ainda nos reserva grandes alegrias.
Amamos você ♥️
Excelente Texto Dr. Clemente! Uma visão aprofundada sobre a vida e suas surpresas.
Grato pelos comentários. Folgo de ver a Revista “Será?” ampliando seu elenco de leitores.
Clemente, me juto aos novos leitores sem ser nova leitora, só para dizer que é comovente e belo o seu texto. E muita coragem tratar dum assunto desses…
Obrigado, Helga. Seu comentário é honra para mim.
Oi Clemente
Byron aguentou um ano exato depois dos 60 (idade programada para o suicidio) pelo nascimento de uma filha, cujo DNA, era dele. Comemorou o primeiro aniversário no domingo e matou-se na 2a feira. Racionalidade depois do afetivo.