Il Quarto Stato

Il Quarto Stato

Revisitar a grande obra de Bernardo Bertolucci – o filme 1900 – é quase mandatório para entender os tempos atuais, em particular o Brasil de hoje e o bolsonarismo. O enredo se desenrola em torno da luta de classes no início do século XX, tendo como pano de fundo a ascensão e a queda do fascismo de Mussolini. A obra nos ajuda, sobretudo, a compreender o perfil psicológico do clã dos Bolsonaros. Pai e filhos – principalmente Eduardo, o “Zero Três” – têm traços muito semelhantes aos do fascista de 1900, Attila Mellanchini, personagem magistralmente interpretado por Donald Sutherland.

Na estética do filme de Bertolucci, Attila é um capataz fascista, sádico, ressentido e brutal, que trabalha para um grande latifundiário na Itália rural do início do século XX. Ele representa, de forma grotesca e hiperbolizada, a ascensão do fascismo entre as camadas intermediárias daquela Itália, especialmente entre pequenos funcionários, soldados e trabalhadores cooptados pelo discurso de ordem, autoridade e anticomunismo.

Foi essa massa que massacrou os camponeses, reprimiu sindicatos e movimentos grevistas nos anos que antecederam a ascensão de Mussolini ao poder, vindo a formar o contingente dos fasci di combattimento – uma horda de arruaceiros e a coluna vertebral da “Marcha sobre Roma”. Eram a “gendarmeria” a serviço dos latifundiários e do patronato industrial, que temiam os ventos socialistas que varriam a península Itálica naquela época.

Há um livro magistral – M. O Filho do Século, de Antonio Scurati – que retrata esse lumpesinatodas camadas médias como um exército de violentos e frustrados por não encontrarem espaço na Itália pós-Primeira Guerra Mundial, e que viram no fascismo o meio para sua ascensão social. É inescapável traçar um paralelo entre a ascensão do fascismo descrita no primeiro volume da trilogia de Scurati e a ascensão do bolsonarismo no Brasil. A intentona bolsonarista de 8 de janeiro é uma cópia grotesca da “Marcha sobre Roma”, assim como a ação violenta de parlamentares bolsonaristas que ocuparam o Congresso Nacional se assemelha à truculência de deputados fascistas no parlamento italiano do início dos anos 1920.

Mas voltemos a Attila Mellanchini. Embora seja brutal com camponeses e comunistas, Attila é bajulador e servil diante dos patrões e do sistema fascista. Isso revela seu papel como instrumento de dominação, mas também sua fragilidade moral. Sádico, prepotente, oportunista e, ao mesmo tempo, subserviente aos poderosos — assim como Eduardo Bolsonaro, que se esmera na vassalagem a Trump. O personagem de Bertolucci e o Eduardo da vida real têm outro ponto em comum: ambos enxergaram no anticomunismo virulento um meio para a ascensão social e política.

Attila não é apenas um personagem individual, mas uma alegoria do fascismo como expressão do ódio de classe, do ressentimento pequeno-burguês e da transformação de homens comuns em monstros sob o manto da ideologia autoritária. Qualquer semelhança com bolsonaristas que se enrolam na bandeira nacional, tramaram assassinatos do presidente da República, do seu vice e de um ministro do STF, não é mera coincidência.

Quando o fascismo é derrubado na Itália, ao final da Segunda Guerra Mundial, e os camponeses tomam temporariamente o controle, Attila é capturado e julgado pelo povo. Nesse momento, revela seu verdadeiro caráter. Implora por sua vida, se mostra frágil e amedrontado — uma figura bem distante da postura arrogante e violenta que sustentava quando tinha respaldo do regime fascista. Suas palavras e gestos revelam sua covardia moral: ele não assume seus crimes com altivez nem se responsabiliza por eles. Em vez disso, tenta se justificar e fugir do destino.

Aquele Bolsonaro dócil e reverencial diante de Alexandre de Moraes, quando foi inquirido no processo que responde no STF por tentativa de golpe de Estado, é Attila redivivo em seu trágico fim.

A ideia de um fascismo formado por “heróis da pátria” não resiste à realidade, quando a hora da verdade bate à porta. A figura final de Attila — derrotado, sujo, choramingando — é uma imagem patética e reveladora. Bertolucci não apenas denuncia o fascismo como sistema, mas desmonta o mito do homem fascista como viril, forte e destemido, mostrando-o como o que realmente é: um covarde disfarçado de valentão, cuja violência esconde sua pequenez interior.

Não tenham dúvidas: Bolsonaro morre de medo de terminar seus dias na prisão, ainda que seja em prisão domiciliar. Nessas horas, ele é o personagem frágil, de olhos lacrimosos e expressão tristonha. Já a valentia de Eduardo Bolsonaro só se manifesta quando está protegido debaixo do guarda-chuva de Donald Trump. Não espanta, portanto, que, entre a desonra e a prisão, tenham escolhido a desonra e traído sua pátria. Terão, assim, a prisão e a desonra.

Não terão o mesmo fim trágico de Attila Mellanchini, que perdeu a vida quando os camponeses resolveram fazer justiça com as próprias mãos. Serão julgados por um Estado Democrático de Direito, com direito ao contraditório e à mais ampla defesa. Mas não tenham dúvidas: ao final, pagarão por seus crimes contra a democracia — e, agora, contra a soberania nacional.

 A Itália pós-Primeira Guerra Mundial enfrentava desemprego em massa, inflação, revoltas camponesas, greves e o colapso da autoridade liberal. Havia o medo do comunismo, estimulado pela Revolução Russa de 1917.

O bolsonarismo surgiu após anos de instabilidade política, recessão econômica, a crise de representação provocada por escândalos de corrupção (como a Lava Jato) e o impeachment de Dilma Rousseff. Havia um sentimento difuso de antipetismo, desconfiança nas instituições e pânico moral com relação à esquerda.

Mussolini e Bolsonaro se apoiaram em segmentos frustrados das camadas médias e periféricas, ressentidas por perderem prestígio e estabilidade:

Na Itália, a base do fascismo era composta por ex-combatentes, pequenos proprietários, funcionários públicos, comerciantes e trabalhadores precarizados, que viam nos socialistas uma ameaça à ordem.

No Brasil, o bolsonarismo atraiu militares da reserva, PMs, funcionários públicos, evangélicos conservadores, pequenos empresários, e classes populares afetadas pela crise econômica, com ressentimento contra “os privilégios da elite progressista”.

Ambos, foram filhos do seu século.  O fascismo italiano de Mussolini caiu como uma tragédia para a Itália. Já o bolsonarismo é sua versão farsesca, um século depois.