
Bandeira dos Estados Unidos
Há oitenta anos, os Estados Unidos lançaram duas bombas nucleares sobre cidades japonesas (Hiroshima e Nagasaki), matando mais de 200 mil pessoas no ataque direto, quando a guerra já havia terminado na Europa e o Japão estava completamente isolado. Depois disso, o mundo assistiu, assustado, a uma corrida nuclear: vários países desenvolveram suas bombas, e a Guerra Fria foi dominada pelo “equilíbrio do terror”. Os nove países que hoje detêm armas nucleares reúnem um poder destrutivo equivalente a 2 mil megatons — cerca de 135 mil bombas como a de Hiroshima. Em diversos momentos da Guerra Fria, o mundo esteve à beira de um conflito nuclear generalizado entre as duas superpotências da época. Atualmente, a Rússia, que possui a maior concentração de ogivas nucleares, vive ameaçando recorrer ao seu arsenal para destruir a resistência da Ucrânia e atacar os aliados europeus de Kiev. O que ainda impede o desastre é, justamente, o persistente “equilíbrio do terror”.
Enquanto o Japão recorda os 80 anos das bombas, outra ameaça vem dos Estados Unidos. Sem recorrer à arma nuclear, o presidente norte-americano está agora utilizando — e abusando — de outra força poderosa de destruição: a guerra tarifária. Seu objetivo é esmagar economicamente concorrentes e até tradicionais parceiros comerciais. Embora dispare seus petardos em várias direções, tudo indica que o alvo principal dos mísseis econômicos de Trump seja o BRICS — agrupamento que é mais político do que propriamente econômico ou comercial. Para cada país, ele apresenta um argumento, mas o eixo central de sua cruzada é a disputa pela hegemonia global, agora ameaçada pela emergência da China e pela expansão da sua influência no mundo. O bombardeio de Trump projeta um quadro surreal: ele ataca aliados e inimigos com igual fúria e desenvoltura. A cada dia, um susto — e uma nova chantagem.
A pretexto de combater instituições brasileiras, recorrendo a narrativas falsas, Trump está punindo o Brasil com as mais altas tarifas alfandegárias. Isso ocorreu após o presidente Lula da Silva presidir a última reunião do BRICS e defender enfaticamente uma moeda alternativa ao dólar, buscando assumir protagonismo na consolidação do bloco — visto por Trump como uma ameaça concreta. Agora, é a Índia que entra na mira de suas bombas tarifárias, com elevação de tarifas para 50% sobre produtos indianos. Mesmo sendo tradicional aliada dos EUA, a Índia é membro do BRICS e vem sendo penalizada por importar petróleo e gás da Rússia — outro membro do bloco que, após alguns gestos de aproximação, recusou-se a ceder às pressões norte-americanas.
Na prática, longe de enfraquecer o BRICS, Trump está jogando o Brasil e a Índia nos braços da China — onde a Rússia já se abriga. A China, por sua vez, segue ampliando silenciosa e pacientemente sua presença no cenário global, como convém aos discípulos de Confúcio: sem guerra, sem ameaças. Xi Jinping quase não fala — age. Discreto e estratégico. Lula, ao contrário, fala — fala muito. Recentemente, declarou que planeja debater com os demais líderes do BRICS uma resposta conjunta ao tarifaço de Trump. Deve fazê-lo, sim — embora haja dúvidas sobre a eficácia da medida. Mas não precisa anunciá-la aos quatro ventos, nem adotar um tom de confronto. Do outro lado, há um desvairado à frente de uma superpotência. Lula ainda tem muito a aprender com o líder chinês — e confiar um pouco menos em sua intuição.
Embora louvando o editorial, em sua mensagem mais importante, devo fazer uma ressalva a aspecto acessório de sua fundamentação.
A ameaça de Putin de usar suas armas nucleares foi na eventualidade de um ataque ao território russo, não para destruir a Ucrânia ou os países ocidentais.
Sou coerente com a posição que tenho defendido aqui, em outros comentários: a preocupação dos russos é essencialmente DEFENSIVA.
Imaginar que o ditador Putin tenha o suposto sonho czarista de avançar sobre a Europa me parece delírio. Com todo respeito aos amigos que pensam diversamente.
Nesse ponto eu tendo a concordar com Clemente Rosas, como se depreende do artigo que publiquei aqui “E se o sapato estivesse no outro pé?”, que foi criticado porque estaria justificando a invasão da Ucrânia por Putin. Rejeito essa acusação: a invasão da Ucrânia foi um erro trágico, para a invasão não há justificativa. Mas isso não significa que não possamos apontar os erros da OTAN, e até erros de avaliação do presente e do passado pelo assim chamado “Ocidente”.
Eu suponho que em primeiro plano, o país precisa reparar sua “casa”! Ela está em chamas, seus moradores ao em vez de tentar apagar o fogo que se alastra, se agridem mutuamente! Como se pode ter tranquilidade onde não há paz? Sou suspeito de sugerir uma fórmula mágica, pois infelizmente não a tenho. Carrego meus 82 anos de idade que deveriam me pesar, mas mesmo assim me coloco a disposição para ao menos tecer algum diálogo. Um forte abraço a todos.