
Getúlio
Quando Getúlio Vargas suicidou-se, em 1954, eu ainda ia fazer catorze anos, estudava no Colégio Pio X, de João Pessoa, e não cogitava de política. Ficamos sabendo do fato quando o irmão marista nos deu notícia, suspendendo as aulas e nos mandando para casa. E saímos todos, surpresos, em levas, caminhando pelas ruas de uma cidade cujas distâncias não exigiam ainda transporte motorizado.
Só muito mais tarde, quando estudante universitário, diretor da União Nacional dos Estudantes e iniciante na militância do PCB, no Rio, é que pude ter consciência da dimensão política do acontecimento. E mais que isso, pela palavra de um militante mais antigo, colega diretor, Marco Aurélio Garcia, fiquei sabendo de circunstâncias, digamos, embaraçosas, da atuação do nosso Partido (então ainda clandestino) no trágico evento.
Quando Getúlio optou por uma morte digna, deixando-nos a sua famosa Carta Testamento, estava sob fogo cerrado da extrema direita, representada por Carlos Lacerda e a cúpula da Aeronáutica, sobretudo após do atentado da rua Toneleros, que vitimou o major Rubens Vaz. O apoio dos liberais, bem como da Embaixada Americana, era também evidente. Mas sabem quem lhes fazia coro? O velho PCB – talvez movido por uma visão míope do quadro político do momento, ou por ressentimentos semiconscientes pelos crimes do Estado Novo, com destaque para a entrega de Olga Benário aos nazistas.
O que aconteceu – e me foi contado pelo amigo Marco Aurélio, com base em depoimento de outro companheiro gaúcho, que, espertamente, acompanhou a multidão revoltada – era de se esperar: a massa humana enfurecida invadiu e depredou todos os jornais antigetulistas de Porto Alegre. Inclusive o do Partido, que o nosso camarada conseguiu apenas que fosse deixado para o fim, na doce esperança de uma possível fadiga dos manifestantes.
O tempo passou, o “Partidão” foi extinto, sobrevivendo apenas pela dissidência bastarda que passou a constituir o PcdoB, cada vez mais distante de sua utopia socialista. Novos partidos abrigaram as esquerdas, como o PPS e agora o Cidadania, e permanece o ideário de solidariedade e de igualdade que ainda as caracteriza. Por isso, não podemos deixar de olhar pelo retrovisor para os fatos do passado.
Considerando o momento presente, que lição devemos colher da História, para que não se repita, cumprindo-se o vaticínio do velho Marx? Vivemos uma situação aberrante, com o país ameaçado pelo líder despótico de uma potência estrangeira, para que cumpra os seus desígnios, violando o nosso Supremo Tribunal Federal e a Constituição Brasileira. E tudo isso açulado, no exterior, por um parlamentar brasileiro e outros fugitivos, em um claro crime de lesa-pátria. A resistência patriótica a tal absurdo, está, obviamente, nos ombros do chefe do nosso Poder Executivo.
É hora de esclarecer que nunca fui do PT, só votei em Lula contra Collor e contra Bolsonaro, e descreio da inocência dele: não há sentença absolutória dos seus delitos. Mas estou convencido de que, nesta circunstância, ele, como presidente, representa a nação brasileira, e tem de ser apoiado, sem restrições nem tergiversação. Até mesmo a exploração de outras alternativas de futuros candidatos à presidência, nas áreas do centro e da esquerda, para combater o “hegemonismo” do PT, ainda que válida, pode esperar. Temos que centrar o foco no essencial e no agora.
Aí estão os fatos, os dados, as lições que a História nos oferece. Como nos diz Paulinho da Viola, em sua sabedoria de veterano sambista, as coisas estão no mundo, só que precisamos aprendê-las.
Parabéns pelo artigo, Clemente. Deve ser lido e passado adiante pela informação histórica e a lucidez do olhar crítico sobre nosso passado e sobre o presente confuso que estamos vivendo.
Pois é, Celso. Espero que os que nos leem nesta revista eletrônica tenham captado a lição da História, para a encruzilhada em que estamos vivendo agora em nosso país.
Abraço.
Concordo com esta análise de Clemente. E admiro a honestidade política para apontar para erros históricos do “velho partidão” quando isso ajuda o entendimento da situação atual. Mesmo assim acho muito triste, é claro, que a minha opção correta do momento seja apoiar o menos pior, da mesma maneira como, igual a Clemente, só votei em Lula contra Collor e contra Bolsonaro. Naquele trágico 24 de agosto, há 71 anos, eu cursava o “Clássico” no Colégio Estadual Presidente Roosevelt em São Paulo. (Naquele tempo, depois dos 4 anos de ginásio, vinham 3 anos em que se optava entre “Clássico” e “Científico”. ) Lembro só que achei malucas as pessoas na rua que enfrentaram os cavalos dos soldados, era totalmente sem noção. E nem sei onde vi esse montão de gente contra cavalos; acho que na nossa casa ainda não havia TV. Será que havia TV no colégio?
Pois é, Helga. No momento oportuno, votaremos no menos ruim que se viabilizar.
Mas no momento, devemos apoiar o presidente.
Grato pelo comentário.