
Irã
Com um prazer visivelmente sádico e extrapolítico, Donald Trump ameaçou eliminar do mapa um dos mais interessantes protagonistas da geopolítica mundial: o Irã. Não é preciso muita leitura para sabermos que este não é um país qualquer, e num elenco de sumárias razões para isso podemos citar, além de sua origem persa, suas reservas de petróleo, sua posição geográfica, sua arte cinematográfica, seu patrimônio cultural e, a contragosto, sua semitotalitária teocracia islâmica.
Para dar os primeiros passos no território iraniano, vale a pena ler o testemunho do livro “Os iranianos”, de autoria do jornalista Samy Adghirni, publicado, agora em 2026, no âmbito da “Coleção Povos & Civilizações” da editora Contexto. Adghirni, filho de pai marroquino e mãe brasileira, foi correspondente da “Folha de S.Paulo” em Teerã e o primeiro jornalista brasileiro a morar no Irã. Seu livro, quase didático, aponta com delicadeza a imensa diversidade do país asiático, revelando-nos suas grandezas e misérias.
Significativamente, o autor abre seu livro com uma observação que tomamos a liberdade de traduzir assim: não há vira-latismo no Irã. Pelo contrário, os iranianos são ufanistas, nacionalistas e orgulhosos. Um constante “triunfalismo” vive na atmosfera. Não se trata de política, mas de cultura. Reivindicam a paternidade de muitas invenções humanas: “vinho, sapato, xadrez, sorvete, refrigeração de ar, sistema postal, anestésicos, violão, entre outras”. Para eles, registra Adghirni, “O país têm as pessoas mais inteligentes, as mulheres mais bonitas, a gastronomia mais rica, o artesanato mais refinado e os jardins mais delicados”.
Se alguma coisa, na citação acima, lhe lembrou o Brasil, ainda tem mais. Há “semelhanças muito significativas na maneira como iranianos e brasileiros vivem a religiosidade”. Deus frequenta as conversas cotidianas do povo, que de resto é tão supersticioso quanto o brasileiro. A propósito, Adghirni pontua que “A queda da monarquia Pahlavi foi causada, em grande parte, por sua incapacidade de entender o apego de amplos segmentos da sociedade ao islã como modo de vida”. Mas, ao contrário do que se pensa no Ocidente, o povo iraniano é bastante flexível em relação à fé islâmica. Ser xiita, garante o autor, não o torna radical.
Não obstante terem alcunhado os Estados Unidos de “Grande Satã” (e Israel “Pequeno Satã”), os iranianos vivem uma relação ambígua com o Ocidente, não faltando fascínio pela vida americana, sobretudo por parte das elites conservadoras. Elites que não hesitam em formar seus filhos em universidades dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha.
Os iranianos são hospitaleiros e afáveis, o que também nos lembra os próprios brasileiros. Apesar do hábito de mentirem e de uma gentileza que beira a falsidade, eles têm o sentimento da xenofilia e estão no polo oposto a uma cada vez mais frequente xenofobia. Nesse sentido, são em geral comunicativos e amáveis. Outra característica que os irmana aos brasileiros é que eles “não veem problemas em infringir regras”. A impontualidade cotidiana também nos irmana e é tão comum “que se instituiu uma advertência chamada ‘horário iraniano’, pela qual fica implícita a alta probabilidade de atraso no encontro marcado”. Nessa linha das afinidades, devem ser incluídos o futebol e a internet. Embora haja milhares de sites bloqueados, eles driblam as barreiras e a censura com softwares especiais. Ainda na conta das semelhanças, pode-se pôr uma crônica corrupção.
No campo das dessemelhanças com o Brasil, além da repressão moral exercida pelo regime teocrático, observa-se que o povo iraniano é mais culto e instruído do que o nosso e dispõe, segundo Adghirni, de um eficiente e acessível sistema de saúde, no qual é comum se ser atendido por médicos formados em faculdades europeias. Nesse país de classe média, “não se brinca com estudos. Dedicar-se e formar-se é obrigação de todos os jovens. São muito malvistos aqueles que não se esforçam nesse sentido”. Sob esse aspecto, as Ciências Exatas são uma paixão nacional. Uma outra paixão dos iranianos é a Poesia, que é lida, recitada e criada independentemente de idade e classe social.
Finalmente, em prol da concisão, é de se destacar, ainda que de passagem, o protagonismo das mulheres, a severa repressão à homossexualidade, as “generosas políticas sociais”, “o poderoso aparato de segurança” do regime político e o rico mosaico étnico e linguístico. Como o Brasil, o Irã é um grande, complexo e contraditório país, que, ao fim e ao cabo, nos deixa a impressão, malgrado seu potencial, sua identidade e sua riqueza, de que ainda demora para, como se diz, “chegar lá”!… Agora, com os prejuízos da guerra, nem tão cedo…
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