
Holocausto
Contextualizando
Teorias não se desprezam. Ideias soltas podem ganhar força e alimentar movimentos, dando base à liberação de concepções represadas, preconceitos e discursos que viviam nos subterrâneos da mente.
Pouco mais de vinte anos atrás, não havia expectativa de ressurgimento dos movimentos de extrema direita derrotados na Segunda Guerra. Hoje, a extrema direita reaparece com força em boa parte do mundo ocidental, alimentada por conceitos de teóricos como o brasileiro Olavo de Carvalho. Os perigos estão presentes.
Temos escutado, inclusive de intelectuais respeitados e bem-intencionados, a tentativa de recriar teorias para explicar o ressurgimento do ódio e do preconceito contra judeus em várias partes do mundo. São construções lógicas, mas que podem gerar consequências desastrosas — até o enraizamento do antissemitismo em determinados grupos sociais. Uma dessas teorias busca distinguir entre antissemitismo estrutural e conjuntural.
Defende-se que o atual fenômeno não seria estrutural, mas conjuntural, vinculado às ações de governos e às tensões do presente, que desapareceriam com a mudança de cenário. É claro que reações enérgicas são necessárias, mas temos sérias dúvidas sobre se bastam para conter o ódio que sustenta posições antissemitas. Não seria este um sentimento sórdido, apenas latente, que encontrou as condições propícias para emergir? Se assim for, não se trata apenas de conjuntura, mas de algo estrutural. Criou-se o discurso; a prática pode acompanhá-lo. Isso, sim, causa temor.
Definições que auxiliam
Michel Gherman, em entrevista à Agência Brasil, lembra que o antissemitismo surgiu no fim do século XIX, apoiado na ideia de que os judeus formariam “uma corporação fechada e poderosa, com capacidade de decidir o destino do mundo através de um projeto secreto”. Trata-se, portanto, de uma perspectiva conspiracionista que se fortalece nas crises da modernidade, apresentando o judeu como “estrangeiro” ou “intruso”, alvo de expulsão, perseguição ou extermínio — como ocorreu no nazismo.
Maria Luiza Tucci Carneiro, professora da USP, em “O antissemitismo reciclado: preconceitos seculares alimentam o germe da intolerância”, afirma que o “antissemitismo de raiz” recupera a histórica tensão entre antissemitismo/antissionismo e ideais democráticos, sendo uma forma explícita de racismo. Segundo ela, o antissemitismo, como manifestação de racismo, tem servido a grupos de direita e de esquerda no cenário político nacional e internacional.
Assim, o antissemitismo pode ser definido como preconceito, ódio, discriminação ou violência contra judeus, seja como indivíduos ou como povo. É uma manifestação de racismo e intolerância que remonta à Antiguidade e atravessa séculos de perseguição.
A IHRA (Aliança Internacional para a Lembrança do Holocausto), criada em 1998, alerta que o antissemitismo se manifesta em ataques físicos e verbais, podendo escalar até a violência sistêmica. Define-o como “uma determinada percepção dos judeus, que pode se exprimir como ódio em relação a eles”.
Já o antissionismo é a oposição ao movimento nacional judaico que defendia a criação de um Estado para o povo judeu e, hoje, se expressa na negação do direito de existência de Israel. Muitas vezes se confunde com antissemitismo, pois, ao negar Israel, recorre a preconceitos contra o povo judeu, derivando para um antissemitismo disfarçado.
Estrutural ou conjuntural
O antissemitismo estrutural é a forma histórica e sistemática de preconceito, institucionalizada em políticas e perseguições — como na Europa, culminando no Holocausto.
Já o antissemitismo conjuntural surge em contextos específicos, geralmente em crises sociais, quando os judeus são transformados em bodes expiatórios. Embora momentâneo, pode ter consequências graves, como os pogroms da década de 1930 na Europa Oriental.
O problema é que o conjuntural se confunde e se converte no estrutural. O preconceito, uma vez mobilizado, enraíza-se, legitima discursos de ódio e se torna parte do tecido social.
À guisa de conclusão
A história demonstra que o antissemitismo, mesmo quando aparentemente conjuntural, pode evoluir para formas estruturais de discriminação, violência e genocídio.
Não aceitamos a visão de que o estrutural seria um sistema consolidado e o conjuntural, apenas uma manifestação passageira. Essa distinção é ilusória. O antissemitismo sempre esteve presente na formação cultural da civilização ocidental — da teoria do deicídio à retórica contemporânea.
Cristo era judeu, mas a acusação de deicídio permaneceu por séculos, ainda viva no inconsciente coletivo. Esse rancor, ressurgindo em diferentes conjunturas, pode ser enraizado se não combatido com firmeza.
Por isso, afirmamos: não há antissemitismo conjuntural ou estrutural. Há antissemitismo. Racismo que deve ser combatido em todas as formas, como determina a Constituição de 1988 em seu Artigo 5º, inciso XLII. A diferenciação é falaciosa, ameniza o problema e retarda as reações necessárias hoje.
Caros amigos,
Nada tenho a dizer sobre a caracterização do antissemitismo como de natureza estrutural ou conjuntural.
Mas quero glosar o conceito de sionismo. É certo que ele surgiu tendo como meta a criação de um Estado judaico, o que acabou acontecendo com a histórica decisão da ONU. Mas acho que o movimento foi além (ou já era), passando a proclamar para o povo judeu um “destino de glória”, superando todos os demais povos. Os exemplos de Marx e Freud, judeus, que desmascararam a expropriação dos operários, o primeiro, e a falsa moral sexual dos burgueses, o segundo, eram dados como prova disso. E ouvi esta concepção da boca de um colega judeu do curso de TDE, cujo nome não guardei, pois ele, grande conhecedor da filosofia grega, por inadaptação ou por indisposição, abandonou o curso.
É assim que a extrema direita israelense, que pugna por um “Grande Israel”, ocupando toda a Palestina, pode se enquadrar no conceito de sionista.
Abraços.