Michel Alcoforado

Michel Alcoforado

Resenha sobre o livro de Michel Alcoforado. Coisa de rico: a vida dos endinheirados brasileiros. São Paulo: Todavia, 2025.

O que é ser rico no Brasil? A resposta parece fácil, mas não é. Em primeiro lugar, porque os ricos não se dizem ricos. Rico é sempre o outro. Mais importante: o dinheiro é indispensável, mas não é suficiente. Ser rico é mais que uma condição: é uma relação que demanda o reconhecimento por seus similares, diz Alcoforado em seu livro — Coisa de Rico: a vida dos endinheirados do Brasil (Editora Todavia, 2025, p. 121). Afirmação que tem respaldo em pesquisa do Datafolha de 2022, feita junto a 2.564 pessoas: 70% dos brasileiros se consideram de classe média baixa ou média, e 29% acreditam fazer parte das camadas médias ou médias altas. E zero — isso mesmo, 0% — se diz rico. Ninguém. A conclusão seria de que não há ricos no Brasil.

O antropólogo, com mestrado na UnB, doutorado na UERJ e alguns anos de estudo no exterior, dedicou-se a pesquisar os ricos, seus hábitos, percepções e valores. Na medida em que adentrava o mundo dos ricos em sua observação participante, foi assumindo “coisas de rico”, mudando de endereço, de vestuário, entendendo de moda e de vinhos. Infiltrou-se entre eles para detectar suas percepções, opiniões, hábitos e atitudes. Esteve na fronteira de sofrer o que os americanos chamam de “going native”, ou seja, ser “tragado” por seu objeto de pesquisa ao adotar a metodologia de observação participante. O termo normalmente se usa quando o pesquisador perde o distanciamento crítico necessário para a análise científica; diz-se, também, que o pesquisador foi absorvido pela fidelidade aos seus informantes. Depois de uma década de estudo sobre os ricos, tornou-se uma celebridade, sendo hoje empresário e consultor de grandes marcas.

Alcoforado adotou, no livro, um estilo de “fofoca” (adorado pelas socialites), segundo suas próprias palavras. Apesar disso, apresenta, além de pequenas histórias, algumas hilárias, muitos achados interessantes em sua obra, que merece ser percorrida. Entre outros, está a constatação, já citada, de que, para ser rico e aceito como tal, não basta ter dinheiro; é preciso conhecer os rituais e saber usar as “coisas de rico” corretamente. Se não se tem bom gosto, é preciso aprender ou, pelo menos, saber disfarçar.

A arte de saber construir a diferença com os “de fora” e ser reconhecido pelos “de dentro” é essencial. Os ricos gastam um precioso tempo em construir as diferenças e em serem reconhecidos por elas: escolas de elite dos filhos, clubes VIPs, lugares de primeira classe (quando não aviões particulares), hotéis em que se hospedam, perfumes que usam e vinhos que saboreiam, sobretudo entre os “novos ricos”.

O livro de Alcoforado diferencia os ricos de berço (old money) dos emergentes (new money), com dinâmicas de tempo diferenciadas. Os nascidos em “berço de ouro” vivem no tempo legitimador, reafirmando uma posição “eterna”: “sempre fomos diferenciados”. Já os detentores do “dinheiro novo” são regidos pelo tempo transformador: um processo permanente de autotransformação, de busca de diferenciação. Esses têm em comum a imperiosa necessidade de se diferenciar dos “de fora”. Tempo de se inserir em novos espaços de sociabilidade, adquirir outros hábitos de consumo e modelos de comportamento, mudar o endereço, além do tempo dedicado a conhecer os objetos de consumo. O trabalho de autotransformação é duro, lento e tem impacto sobre várias dimensões da vida cotidiana dos novos ricos, como mudar o nome: Valderi se transforma em Val, segundo nosso antropólogo.

Para esses, é indispensável que os outros percebam seu poder. Por isso, em um restaurante de Miami, eles precisam estar na varanda ou fazer selfie de viagem em avião particular abanando-se com notas de 100 dólares. As pessoas do old money preferem o “quiet luxury”. Elas não se preocupam tanto em criar fronteiras com os pobres, pois com eles não cruzam, mas sim com os “novos ricos”. Não gritam riqueza; sussurram-na.

Os ricos têm em comum muitos traços, além da relevância da diferenciação: o medo de ficar pobre. O medo de ficar pobre é universal entre os bem aquinhoados. Rico, qualquer que seja, não gosta de pobre e menos ainda da pobreza. O medo de ficar pobre é um pesadelo constante. Perder o dinheiro é seguido da perda de “amigos” e de impactos sobre a autoestima. É preciso conservar minimamente o padrão de vida — as roupas, os perfumes, os restaurantes, as viagens etc. Por isso, o rico fica “falido”, nunca “pobre”. E, mesmo falido, mantém as aparências, vendendo as joias parcimoniosamente.

Sozinhos, distantes, “em seu lugar”, o pobre não é uma ameaça, mas em grupo, sim. “Os ricos brasileiros lidam com os ‘de fora’ como se fossem saúvas. Sozinhas, não fazem nenhum mal; em conjunto, sim” (p. 144).

Os ricos brasileiros se diferenciam daqueles de outros países. Os americanos falam de dinheiro e raciocinam na dinâmica de mercado cotidianamente. Eles não convencem alguém, “vendem ideias”. O tempo é dinheiro. Para introduzir um ponto de vista em uma conversa, eles pedem para acrescentar “dois centavos” (two cents). Eles sempre pagam: pay attention, pay a visit, pay respect, como se falassem de um guichê de banco (p. 124-125). Ter dinheiro não é vergonhoso; ao contrário, é sinal de sucesso. Rico nos Estados Unidos é um vencedor. Não ter riquezas é sinal de derrota; quem não tem money é um fracassado. Entre nós, o dinheiro é sujo (“Vá lavar as mãos”, diz a mãe ao filho que pegou em dinheiro). Quando não temos dinheiro, estamos “limpos”; e quando há pressões para se obter o recurso, então se “limpa o cofre”. No Brasil, ser rico é vergonhoso, sinal de desconfiança de outros (deve ter feito algo de errado para ter tanto dinheiro). Os americanos ricos constroem sua riqueza, e o trabalho é o caminho (sic); os brasileiros a conquistam; o trabalho não é suficiente, é preciso que se some a esperteza. A grande batalha das elites brasileiras não é pela construção de um império, é pela conquista de “coisas de rico”.

O ócio e o tempo livre não são valorizados entre os ricos. Ao contrário, é preciso vender a imagem de uma agenda cheia, importante atalho na operação da diferença (p. 67). Sempre disposto a jantar em Nova York, assistir a um jogo de futebol em Londres ou a uma corrida de Fórmula 1 em Mônaco.

No uso do tempo, o autor distingue três tipos: os criadores de um novo eu, que, quando não estão trabalhando, estão ocupados em criar a nova identidade — aprender e adquirir “coisas de rico”. O segundo grupo são os ocupados desocupados, comuns entre os ricos tradicionais, que têm trabalhos sem trabalho, sem patrão, sem horário, sem meta a bater, sem compromissos, exceto os que criam para dar aparência.

O terceiro grupo é formado por aqueles que sonham em ser um “bon vivant”, presentes sobretudo entre empresários. Eles têm a dupla tarefa de prover “as coisas de rico” à família, mas também devem ter tempo para usufruí-las. Se não, perdem prestígio. Nada a ver com os empresários ascetas e criadores do capitalismo entre os séculos XIX e XX de Weber (p. 69).

Independentemente de suas próprias autodefinições, quem são e onde estão aqueles que têm posse e recursos, renda e riqueza no Brasil?

Segundo dados do IBGE (2024), os 10% mais ricos têm uma renda individual de no mínimo 10 mil reais; os 1% em torno de 40 mil, os 0,1% acima de 200 mil e os 0,01% em torno de 500 mil reais. O salário mínimo atual, para quem não se lembra, é de 1.621 reais.

Os ricos certamente encontram-se entre os 10% mais aquinhoados, mas não são todos. Há muitas diferenças neste segmento social, extremamente concentrado, como diz Marcelo Medeiros (Os ricos e os pobres. O Brasil e a desigualdade. São Paulo: Cia das Letras, 2023).

Os ricos estariam entre os 1% dos brasileiros de maior posse, com uma renda mensal de cerca de 40 mil reais? Sendo assim, além de empresários e profissionais liberais, dever-se-ia incluir os membros da alta burocracia brasileira: juízes das altas cortes, procuradores, deputados e senadores, membros das assessorias parlamentares das instâncias federal e estaduais, que se definem como classe média. Na sua totalidade, eles são pouco mais de 2 milhões de pessoas, dentre os mais de 210 milhões da população brasileira, 80% dos quais são formados por homens e mulheres brancos/as.

Esses supostamente ricos diferem dos “verdadeiramente” ricos, os 0,1% que são cerca de 200 mil pessoas e auferem uma renda média acima de 200 mil reais (incluindo salários, lucros e dividendos)*. O seu patrimônio médio é de cerca de 30 milhões de reais. Bens que, diferentemente do estamento imediatamente inferior, são majoritariamente compostos de investimentos e participações societárias, além de grandes propriedades de terra e imóveis.

Contudo, se refinarmos mais nossa pesquisa e considerarmos as pouco mais de 20 mil pessoas que estão no segmento 0,01% (os super-ricos?), esse patrimônio sobe para no mínimo 150 milhões de reais, e rendas mensais em torno de 500 mil.

Se tomarmos os quatro estamentos supracitados (10%, 1%, 0,1% e 0,01%), pode-se argumentar que os 10% não são todos ricos, mas os outros grupos não o seriam? Os membros do terceiro estamento talvez não possam ingressar em qualquer dos clubes exclusivos, mas alguém duvida dos dois últimos? O que permite introduzir a questão: de que estamentos sociais está falando o livro do nosso autor?

O mundo muda, e com ele o mundo dos ricos, seus hábitos e valores, assim como a forma como são vistos. Aparentemente, a vergonha de ser rico, ou pelo menos endinheirado, está desaparecendo no Brasil e novos personagens estão chegando, como os influencers e os “empresários da economia da contravenção”. A propagação da ideologia da prosperidade está transformando a imagem do rico como alguém abençoado por Deus. Por meio das mídias sociais, a ostentação está se disseminando, com mudanças significativas na forma como os ricos são vistos, o que alimenta o individualismo e a dinâmica da economia de mercado. Ser rico, hoje, é ser uma personalidade admirada. Dessa forma, é provável que esteja se desenhando uma nova configuração na percepção do ser rico no Brasil.

Se assim é, talvez outro livro merecesse ser escrito sobre essas mudanças em torno da posse de riquezas, os hábitos dessas personalidades e a percepção que delas tem a população brasileira. Porém, deveria ir mais longe: o que eles pensam do mundo e do Brasil, o que pensam do futuro da humanidade e de seu país? Que devem apenas se salvar? Que o Brasil não interessa? Que a tecnologia irá resolver todos os problemas? Ou que não tem jeito de adiar o fim do mundo, e o que resta é aproveitar o momento? Ou construir bunkers para se proteger do desastre anunciado?

*Segundo o FiscalData (2025) e o “Relatório da Distribuição Pessoal da Renda e da Riqueza”, publicado em dezembro de 2025 pelo Ministério da Fazenda.