
A PEC da Bandidagem
A PEC das Prerrogativas ou da “Blindagem” é uma vergonha para a Câmara dos Deputados e para o país! Cria um sistema de normas para que investigações, processos e até prisão por crime inafiançável cometidos por parlamentares se tornem lentos e difíceis de serem levados a termo, mecanismo de proteção que nenhum brasileiro detém por serem, em tese, todos iguais perante a Lei. Restaura-se, assim, a licença prévia pelo Congresso Nacional que existiu entre 1988 e 2001 para proteger o Parlamento de rasgos totalitários em um país que ainda transitava dos efeitos traumáticos de uma ditadura militar para a democracia. Nesse período só um parlamentar foi punido. É uma legislação corporativa que cria privilégios para uma elite política que se distancia cada vez mais dos problemas nacionais e que se preocupa mais em proteger a si mesmo e aos interesses de suas bases políticas enraizadas nos negócios, nas polícias, em grupos religiosos e em outros segmentos da sociedade. Obviamente há, no Parlamento, honrosas exceções, mas que a cada legislatura se tornam, infelizmente, mais escassas.
Essa PEC é uma agressão ao Brasil e aos brasileiros, merecendo críticas contundentes como as proferidas pelo Editorial do Jornal Estado de São Paulo na edição do dia 18/09. Não propicia o fortalecimento do Congresso Nacional. A legislação protege seus ocupantes, não a instituição que, na verdade, se enfraquece moralmente aos olhos da opinião pública.
A PEC da blindagem foi desenhada para dificultar a punição de eventuais crimes cometidos pelos parlamentares contra normas constantes da legislação nacional e contra pessoas e instituições públicas e privadas. Não se trata de fortalecer a liberdade de expressão porque ela já se encontra consagrada nos dispositivos constitucionais. Ela protege o parlamentar, não o Parlamento, visando dificultar o trabalho do Poder Judiciário, especialmente do STF, de investigar, processar e punir possíveis delitos cometidos. Ademais, abre as possibilidades de impunidade para integrantes do crime organizado que se enfronhem no Parlamento Federal como o fizeram em casas legislativas estaduais e municipais. A decepção dos brasileiros com o Parlamento os tornaria mais vulneráveis a iniciativas populistas e autoritárias que visassem extinguir as elites políticas e a democracia representativa. Espera-se que essa PEC não prospere no Senado Federal.
Essa mesma Câmara dos Deputados aprovou urgência para a votação do Projeto de Anistia que, se bem sucedido, em vez de pacificar o país, vai indignar, revoltar e insultar a maioria da sociedade brasileira que, como evidenciado em pesquisas de opinião, o desaprova. Mas antes de chegar a termo, qualquer que seja o seu resultado, tem o potencial de criar crises institucionais entre os três poderes da República, ou seja entre o Executivo que o vetará, e depois poderá ver derrubado seu veto, e entre o Legislativo e o Judiciário que o deverá considerar inconstitucional. Crises graves que poderão paralisar o país em vésperas de ano eleitoral, situação que agrada aos partidos mais comprometidos com o bolsonarismo, especialmente o PL, partido do liberou geral.
É impensável, muito menos aceitável que hordas totalitárias e seus mandantes e organizadores que pediam ostensivamente a quebra da ordem constitucional e a instalação de uma intervenção militar, sejam perdoados pelos seus atos que culminaram no dia 8 de janeiro de 2023 com a invasão e depredação do Congresso Nacional, do STF e do Palácio do Planalto. Não é possível perdoar o imperdoável. Perdoar os violadores das instituições e os destruidores das edificações que simbolizam os três poderes da República numa democracia representativa, significa estimulá-los e aos seus seguidores a praticarem os mesmos crimes no futuro, repetindo, infelizmente, a história brasileira do Império à República.
Espera-se que, caso aprovada na Câmara, a anistia, possa ser contida no Senado Federal. Evitar-se-ia, assim uma maior radicalização e polarização da sociedade brasileira, o que atrasa o país e compromete seu futuro.
Nos dois casos, o da PEC da “Blindagem” e o eventual Projeto da Anistia, a expectativa e a esperança da maioria dos brasileiros, como revelada nas sondagens de opinião pública, é para que se respeite e Lei Magna e se faça Justiça. Com a palavra e a decisão, o Senado Federal!
Jorge Jatobá, Doutor em Economia, Professor Titular da UFPE, Ex-Secretário da Fazenda de Pernambuco e Sócio da CEPLAN-Consultoria Econômica e Planejamento
Lúcido e sensato o artigo de Jorge. Essa “bandidagem” não pode prosperar.