Guardas de Auschwitz na hora do recreio - por trás deste cenário milhões de judeus foram mortos e incinerados

Guardas de Auschwitz na hora do recreio – por trás deste cenário milhões de judeus foram mortos e incinerados

Há muito que a academia estuda o fenômeno das ideologias[1] e de como estas têm poderoso impacto sobre parte da sociedade que por elas é capturada. Não pretendo aqui levar o leitor para as complexas trilhas da academia, mas sim pinçar alguns exemplos da história recente, principalmente do século XX, para nos ajudar a decifrar como isso molda nossas vidas hoje.

Muitos dão uma amplitude a este conceito[2], praticamente definindo que ninguém dele escapa, pois, as ideologias perpassam o amplo espectro da condição humana e qualquer um está sujeito a elas. Todas têm uma coisa em comum: o poder da autoridade do Estado e das Religiões nos impondo, do berço à sepultura, valores que definem nossa forma de viver, aos quais somos alienados.

São duas instituições milenares que vêm tecendo nosso caminhar ao longo da história – para o bem e para o mal.

Gostaria, entretanto, de distinguir as ideologias fechadas das ideologias abertas[3]. Tais atributos são autoexplicativos, pois em “aberta” entenda-se aquelas que estão sempre incompletas e se constroem dialeticamente em sua relação com os fatos históricos e, sobretudo, com a crítica.

Um outro conceito que irá nos ajudar nesta breve reflexão é o de weltanschauung[4], ou “visão de mundo”. Este, mais do campo da filosofia, em resumo define como nós vemos a realidade em que estamos imersos, carregando nossa existência, e como damos sentido, por meio das nossas ações – e omissões – a ela.

As ideologias são poderosas correntes de pensamento que forjam nossa visão de mundo, impulsionando nossas inquietações e angústias à ação – dando-nos a sensação de completude e sentido existencial.

No século XX tivemos os regimes totalitários – com suas ideologias fechadas – como o nazismo e o stalinismo, tão exaustivamente analisados por Hannah Arendt[5]. Também tivemos o fortalecimento do liberalismo, cujas origens remontam ao século XVII, com John Locke, e que se fortalece no século XVIII, com o liberalismo moderno, principalmente no contexto do Iluminismo, com Montesquieu, Adam Smith, Voltaire e outros.

Na segunda metade do século XX, após duas guerras mundiais com milhões de mortos, a democracia, fruto do liberalismo, viveu sua fase áurea com a expansão de regimes democráticos no mundo[6]. Embora o nosso século tenha se iniciado com o devastador atentado às Torres Gêmeas em Nova York, é nesse regime que o Brasil, assim como a Europa, alguns países da Ásia e a América do Norte vêm construindo seus passos na história recente.

As ideologias – políticas e religiosas – são forças motrizes subjacentes a esse movimento na história que vêm moldando os papéis do Estado e da sociedade civil – nossas vidas, nossa visão de mundo.

Resumindo um pouco para finalizar mais adiante: as ideologias fechadas, naturalmente extremistas, quer de esquerda ou de direita, alimentam e dão suporte a Estados autocráticos ou totalitários; as ideologias abertas dão suporte a Estados Democráticos. Estes, mais vulneráveis, pois expostos à crítica, cumprem a função civilizadora de acolher a diversidade humana e de pensamento, enfrentando por isso, sistematicamente, enormes desafios.

Aí reside a misteriosa beleza da democracia: é da sua aparente fragilidade que nasce sua força e sua consolidação estrutural[7] na sociedade.

A extrema direita, herdeira do nazismo e do fascismo do século XX, ressurge em nossos dias com força, usando com impressionante capacidade as tecnologias das mídias sociais, sem nenhum compromisso com a verdade, apenas com o objetivo de capturar e manter cativos os espíritos de seus seguidores.

O que têm em comum esse neofascismo que atinge os Estados Unidos com Trump, o Brasil com Bolsonaro, a Hungria com Orbán e a Turquia com Erdogan com as correntes extremistas do século XX? De imediato, percebemos a mesma estrutura paranoica e excludente contra aqueles que não pensam como eles. Têm uma assustadora intolerância ao outro e um desprezo pelas instituições democráticas.

Outro comportamento comum é a necessidade de definir uma ameaça externa, mesmo que imaginária, para justificar sua coesão de grupo e a violência contra o outro.

O exemplo, exaustivamente documentado, é o do nazismo contra os judeus, que resultou no Holocausto, com cerca de seis milhões de judeus mortos – uma terrível cicatriz anti-civilizatória que deixará sua marca indelével na história da humanidade, assim como deixou a Inquisição pelo Santo Ofício da Igreja Católica ou os expurgos do stalinismo.

Mas, para finalizar, destacamos outro fenômeno em comum nos seguidores das ideologias fechadas extremistas: a certeza inabalável em suas visões de mundo e a consequente intolerância violenta contra o outro – este sempre colocado na posição de uma ameaça ao seu universo fechado e excludente. São exemplos, exaustivamente documentados: Hitler contra os judeus, Stalin contra os “inimigos do Estado” e a Igreja contra os hereges.

Seus executores constroem uma realidade paralela e nela ficam em paz com suas certezas cegas. Não é possível encontrar vestígios de remorso, pois suas consciências estão entorpecidas pelas vias da identificação[8], pela ignorância e pelo ódio.

O caso de Hans Frank

Hans Frank era a autoridade máxima civil e jurídica na Polônia ocupada pelo nazismo. Em seu próprio diário (apreendido e usado como prova em Nuremberg), ele reconheceu que entre 1939 e 1945 foram executadas, sob sua responsabilidade, em torno de 3,5 milhões de pessoas na Polônia, a maioria judeus deportados para os campos de extermínio de Auschwitz, Treblinka, Sobibor e Belzec.

O mais impressionante foi ouvir de seu próprio filho[9] que, um dia antes de sua execução, condenado à pena de morte, quando perguntado se havia nele algum arrependimento, isto após ter assistido aos terríveis filmes dos campos de extermínio exibidos durante o julgamento, ele respondeu reafirmando que não e que se orgulhava de ter sido um agente importante na “engrenagem nazista” para a purificação da raça ariana – objetivo supremo do Estado Nazista.

O que nos faz perguntar: o que, ou qual tipo de visão de mundo, tem tal poder para que um cidadão normal e pacato se transforme em um monstro? As ideologias extremistas, sempre tendo à frente um líder com seu discurso histérico, conseguiram ceifar milhares de vidas, como foi na 2ª Guerra Mundial. Hitler e Mussolini, feitos da mesma matéria-prima em que líderes são forjados, conseguiram galvanizar, com suas ideologias, milhares de cidadãos na Alemanha e na Itália – assim como Stalin na União Soviética.

Eduardo Bolsonaro e o extremismo bolsonarista

Claro que não quero comparar os efeitos terríveis das ações de extermínio de uma raça pelo nazismo com o bolsonarismo e outras correntes antidemocráticas da extrema direita no mundo. Embora se estime que, durante a pandemia, o negacionismo de Bolsonaro tenha ceifado cerca de cem mil brasileiros do total dos setecentos mil mortos pela COVID, o que evidencia que a ignorância mata tanto quanto o genocídio – este, uma ação de extermínio de um povo, com método, metas, inteligência e organização.

Assistindo às ameaças sinceras e verdadeiras de Eduardo Bolsonaro, articulando junto a Trump a imposição de sanções econômicas contra o Brasil para interferir no poder judiciário e no julgamento de Bolsonaro, percebe-se claramente este DNA das correntes da extrema direita do século passado. Formado por correntes de pensamento como as de Olavo de Carvalho, Steve Bannon e outros gurus[10], Eduardo é um agente executor, assim como foi o recentemente assassinado Charlie Kirk[11], das políticas extremistas antidemocráticas.

Percebe-se o alinhamento ideológico com as mesmas fontes das correntes extremistas do século XX. Seguem rigorosamente as estratégias de disseminação de mentiras para manipular e comover multidões, capturando suas mentes para viverem dentro da sua realidade paralela excludente, intolerante e antidemocrática.

Uma realidade paralela que arrasta para seu universo milhares de cidadãos e os mantém cativos, seguidores de ardente fé religiosa, imunes aos fatos.

São prisioneiros em suas próprias consciências[12], cercadas pelas muralhas da intolerância e do ódio. Seguem seus mitos hoje, assim como milhares seguiram Hitler na Alemanha – assim como Hans Frank.

O século XXI regurgita os horrores do século XX como se o tempo pudesse ser revertido. Por meio do caos e da dominação ideológica, essas forças extremistas tentam, mais uma vez, destruir nossas conquistas e valores civilizatórios, democráticos e humanistas.

A democracia mais uma vez sobreviverá, mais forte, pois sua resiliência está no peso da Lei e no Estado Democrático de Direito, a exemplo do julgamento de Nuremberg ou do recente julgamento da Trama Golpista no Brasil.

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[1] CENTRE FOR CONTEMPORARY CULTURAL STUDIES, University of Birmingham. On Ideology. London: Hutchinson, 1978. 263 p. ISBN 0-09-134150-7.

 

[2] Cf. ALTHUSSER, Louis. Aparelhos ideológicos de Estado: nota sobre os aparelhos ideológicos de Estado. In: Posições. 2. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1985. p. 43-101.

 

[3] POPPER, Karl R. A sociedade aberta e os seus inimigos. Lisboa: Edições 70, 2 v.

 

[4] HEIDEGGER, Martin. A filosofia como ciência do fundamento: sobre o conceito de cosmovisão (Weltanschauung). In: HEIDEGGER, Martin. Marcos fundamentais da metafísica. Trad. Marco Antônio Casanova. Petrópolis: Vozes, 2008.

 

[5] ARENDT, Hannah. Origens do totalitarismo. Trad. Roberto Raposo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

 

[6] HUNTINGTON, Samuel P. A terceira onda: a democratização no final do século XX. Trad. Sérgio Bath. São Paulo: Ática, 1994 e FUKUYAMA, Francis. O fim da história e o último homem. Trad. Aulyde Soares Rodrigues. Rio de Janeiro: Rocco, 1992.

 

[7] SARTORI, Giovanni. A teoria da democracia revisitada. 2 v. São Paulo: Ática, 1994.

 

[8] FREUD, Sigmund. Psicologia das massas e análise do eu (1921). In: FREUD, Sigmund. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. v. XVIII. Rio de Janeiro: Imago, 1996. e FREUD, Sigmund. O ego e o id (1923). In: FREUD, Sigmund. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. v. XIX. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

 

[9] The Nuremberg Trials (1947) – documentário soviético dirigido por Roman Karmen e UNITED STATES. Nuremberg: Its Lesson for Today. Direção: Stuart Schulberg. EUA: U.S. Department of War, 1948. Documentário, 80 min

[10] TEITELBAUM, Benjamin R. Guerra pela eternidade: o retorno do tradicionalismo e a ascensão da direita populista. Tradução de Cynthia Costa. Campinas: Editora da Unicamp, 2020.

 

[11] GRAYER, Annie. Who is Charlie Kirk, the founder of Turning Point USA? CNN, 19 jul. 2022. Disponível em: https://www.cnn.com/2022/07/19/politics/charlie-kirk-turning-point-usa-explainer/index.html

 

[12] Cf. em Freud, o supereu (Über-Ich) é uma instância psíquica que surge a partir da internalização das figuras parentais e das normas sociais. Ele herda a função crítica e punitiva dos pais, operando como consciência moral, ideal do eu e juiz interno do sujeito. FREUD, Sigmund. O ego e o id (1923). In: FREUD, Sigmund. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. v. XIX. Rio de Janeiro: Imago, 1996.