
Vida e Morte – Klimt
Umberto Eco, num de seus livros, conta que, na Europa medieval, havia uma igreja onde os fiéis costumavam ir para pedir que vivessem quarenta anos! Imaginem! E hoje enchemos a boca para dizer que os quarenta são os novos trinta, assim como os setenta são os novos sessenta, etc., o que, mesmo sem exatidão, vale como verdade quando consideramos os avanços na área da saúde. Por outro lado, entram nas estatísticas o dado de que se vive mais, porém se passa mais tempo demenciado. Como quer que seja, os notáveis progressos tecnológicos da medicina ensejam o prolongamento da existência. De par com isso, não é de hoje a óbvia inquietação por uma concomitante qualidade de vida.
Olhamos nossos queridos pets, cães e gatos em geral, e lamentamos a brevidade da vida que lhes foi dada. Aliás, essa brevidade, escusado dizer, também nos afoga em lágrimas e luto. É, sem dúvida, muito pouco o que vivem. Mas olhemos a nós mesmos! Não é muito diferente. Vivemos ainda pouquíssimo, sobretudo se pensarmos que os seres humanos sonham com a vida eterna! Invejamos, com uma inveja de segunda categoria, os vigorosos centenários da China, do Japão, dos Estados Unidos e de onde quer que estejam. Cem anos também é pouco, pouquíssimo. Precisamos de muitos mais, se queremos viajar tudo o que queremos viajar, se queremos entender tudo o que precisamos entender, se queremos amar tudo o que precisamos amar, etc. Sim, não são apenas nossos estimados pets que vivem pouco: a nossa vida (pensemos grande!) é escandalosamente curta.
Ainda não dizemos nada demais ao dizermos que, de par com uma maior extensão da vida, queremos qualidade de vida. A qualquer custo, o prolongamento da existência pode ser atroz, embora rentável para alguns… Eutanásia é prejuízo! Mas há uma outra questão embutida na desejada longevidade, e não é de ordem física ou mecânica como nos lembram as poderosas máquinas que encontramos em clínicas e hospitais. Para tocar nessa questão, que é de caráter moral e, por assim dizer, metafísico, recorrerei, a seguir, a dois grandes autores: um francês e outro brasileiro.
Alain (Émile-Auguste Chartier), pensador e jornalista, referindo-se a uma nova locomotiva que abreviava em “um quarto de hora” (!) a viagem de Paris a Le Havre, uma maravilha tecnológica do início do século 20, questiona-se: “E que farão eles, os felizes viajantes, desse quarto de hora comprado tão caro?”. Eis a pergunta que ninguém se pergunta e que aqui retomamos como palavras ao vento. Mas o vento é bom leitor!
Uma vez conseguidos um número considerável de anos para se adicionar à vida, o que fariam esses novos “felizes viajantes”? Meu amigo o poeta e ensaísta Ângelo Monteiro, não obstante ser um católico praticante, faz um questionamento análogo ao olhar para uma prometida imortalidade das almas, algo que as manteria com seus altos quocientes de imbecilidade e de impudência eternidade afora! O que farão essas almas tão pouco “espirituosas” e tão avessas a qualquer progresso, imersas, não em “quinze minutos” ou em mil séculos, mas numa pouco graciosa imortalidade? Enfim, o nosso bom Ângelo, num súbito surto de materialismo e de dosada ironia, pergunta-se: “Para que uma imortalidade assim?”.
Bem, para Deus, como se diz, nada é impossível, e, como há milagres na Terra, talvez os haja no Além!… Na dúvida, parodiemos outro francês, este um calculista de gênio, Blaise Pascal: Deus tem razões que a própria razão desconhece!
Sobre a questão da imortalidade das almas, já publiquei aqui nesta revista um artigo com este título.
Racionalista como sou, questiono o “absurdo ontológico” de tal concepção.
Louvores ao autor do texto, sempre criativo.
Muito bom,sempre,Poeta!!!👏👏👏