Reflection (Self-Portrait) - Lucian Freud

Reflection (Self-Portrait) – Lucian Freud

Não ridicularizar, não deplorar, não detestar, mas compreender – Baruch de Espinoza

Nós somos seres constituídos pela incompletude. Essa falta, que nos funda como sujeitos desejantes, está na origem da constituição do nosso Eu.

A relação fusional que o recém-nascido estabelece com o corpo da mãe é rompida com a interdição da figura paterna. Nascemos para a consciência justamente por meio dessa ruptura com o corpo materno.

Carregamos essa falta por toda a vida e é graças a ela que se instaura o desejo. O desejo, como tentativa de tamponar essa incompletude, é a principal força motriz da vida, o vetor da nossa existência. Amamos, sofremos, criamos e destruímos sempre em busca de dar sentido à nossa existência.

As figuras parentais, entretanto, não se apagam de nós; são nossos selos de origem, moldando a forma como construímos nossas vidas.

Situamo-nos em sociedade contidos por duas instâncias: pela linguagem — porta de acesso à civilização — e pela Lei e seus aparatos, como o Estado, as religiões e as ideologias. Todas elas carregam traços das figuras parentais e atuam como  instâncias substitutas destas. Estão na nossa origem, desde a mítica passagem do estado de natureza para o de sociedade.

São estruturas de poder e coesão social que vêm operando nosso caminhar na história. O poder de um líder, político ou religioso, reside nesse mecanismo inconsciente de identificação que nos guia — muitas vezes para o abismo, como a história está repleta de exemplos — por carregar em seu ser traços significantes que ressoam com nossas incompletudes, angústias e incertezas, dando-nos, ainda que temporariamente, a sensação de ser completo e de dar um sentido para a nossa existência.

Daí se compreende como as massas são manipuladas e, em certos contextos históricos, levadas às tragédias das guerras, dos trucidamentos e dos genocídios.

Mas como lidar, em uma sociedade da informação como a do século XXI, com esses mecanismos de dominação?

Razão, Conhecimento e Dúvida

A primeira instância que pode atenuar nossa vulnerabilidade aos estímulos — sempre passionais — que engendram a polarização ideológica é o uso da razão: uma forma de pensar baseada na análise lógica, buscando fundamentos sobre os fatos que nos envolvem e atenuando as paixões ideológicas e/ou religiosas.

A segunda é o conhecimento, base fundamental para destruirmos falsas crenças e superstições, as quais sempre carregam interesses subjacentes aos quais permanecemos alienados.

A terceira, e talvez a mais difícil, é o exercício da dúvida na dinâmica de construção da nossa visão de mundo. É ela que tem a função de testar sistematicamente as outras duas instâncias: a razão e o conhecimento. Exercitar a dúvida implica necessariamente conviver com incertezas e angústias — algo muitas vezes desafiador — mas, se há um propósito sólido em vencer a ignorância, essas angústias são combustíveis para a criação e o saber.

A dúvida é também a base da tolerância, pois, se não sou movido por uma certeza ideológica, religiosa ou de qualquer outra natureza, serei no mínimo mais cauteloso ao julgar, denegrir ou até mesmo agredir o outro que pensa e age de forma diferente — comportamento infelizmente frequente nas redes sociais e ao longo da nossa história.

Se, em meio às minhas certezas, abro uma lacuna de dúvidas, viabilizo uma via de mão dupla, admitindo que o outro, tão diferente de mim, pode possuir parcelas de verdade que talvez contribuam para fortalecer ou questionar minhas convicções.

É essa tolerância à diversidade humana uma das colunas mestras — entre outras — das sociedades democráticas. Evidentemente, os conflitos não cessarão, mas é na busca de suas soluções, em ambiente democrático, que se constrói um sentido civilizatório para a humanidade.

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BIBLIOGRAFIA

Para os interessados nos conceitos que regem estas reflexões, segue uma bibliografia estruturada em blocos temáticos.

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