
Organização popular
A prisão definitiva do ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos e três meses de cadeia, foi recebida pela sociedade brasileira com completa apatia. Um verdadeiro anticlímax. Os protestos limitaram-se a familiares e a alguns seguidores mais fanáticos. A população, cansada das tensões e dos ódios políticos alimentados pelo bolsonarismo, incomodada com a polarização Lula-Bolsonaro e já habituada ao julgamento e à condenação dos golpistas, reagiu com indiferença. A tentativa do deputado Flávio Bolsonaro de reunir apoiadores diante da residência do ex-presidente e da Polícia Federal fracassou, confirmando a dificuldade de mobilização desse estranho fenômeno político brasileiro. Da mesma forma, a prisão de militares de alta patente, condenados pela tentativa de golpe de Estado, não gerou reação ou inquietação nas Forças Armadas, demonstrando a solidez das instituições democráticas do país.
Com a retirada definitiva de Bolsonaro da cena política — preso e desmoralizado —, o bolsonarismo deve se esvair no futuro próximo, perdendo o entusiasmo dos seus seguidores e se fragmentando em diversas lideranças de direita e extrema-direita. Todas pretendem, simultaneamente, usufruir do espólio eleitoral do ex-presidente e se livrar dos estigmas que ele carrega. Os potenciais candidatos bolsonaristas à Presidência em 2026 disputam seu apoio, mas precisam se aproximar do centro se quiserem derrotar o candidato do PT. Tal movimento exige grande malabarismo político e moderação do discurso, distanciando-se da extrema-direita — e mesmo do clã Bolsonaro — para atrair eleitores que rejeitam o ex-presidente, mas não desejam votar em Lula.
Por outro lado, como grande parte do eleitorado brasileiro se divide entre os que não querem mais Lula e os que não aceitam Bolsonaro, a saída do ex-presidente pode enfraquecer a força catalisadora que o lulismo exerce sobre o antibolsonarismo. Talvez Lula tenha percebido o provável declínio do bolsonarismo quando passou a apostar, nos últimos meses, em um novo tipo de polarização — desta vez, entre pobres e ricos (que, aliás, não é tão nova assim). Tal estratégia é tão nefasta à democracia quanto a divisão entre os dois líderes populistas de direita e de esquerda: os primeiros se apresentando como defensores dos ricos, e Lula como o pai dos pobres e oprimidos. Além de prejudicar o debate público, essa polarização de classe pode afastar o presidente da classe média e dos eleitores conservadores que rejeitam Bolsonaro, mas não se identificam com o lulismo.
A prisão de Bolsonaro e o provável esvaziamento do bolsonarismo abrem espaço para superar a polarização política, especialmente se Lula abandonar o discurso populista de pobres contra ricos. Fora isso, o principal obstáculo à despolarização é a ausência, no cenário atual, de uma alternativa de centro — seja de centro-direita ou centro-esquerda — claramente distinta tanto do lulismo quanto do bolsonarismo.
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