Nadia Urbinati (Foto: Reprodução Nueva Sociedad)

Nadia Urbinati (Foto: Reprodução Nueva Sociedad)

O poeta Charles Baudelaire, criador e criatura da Modernidade, no pórtico de “As flores do mal”, dirigindo-se ao leitor, fecha seu poema introdutório com um verso tornado célebre: “Leitor hipócrita, meu semelhante, meu irmão!”, um destinatário que fingiria desconhecer a matéria de que trata o poeta. Nesse poema, Baudelaire fala explicitamente do “tédio” como um “monstro delicado”, e por isso  é praticamente certo que esteja preparando o leitor para a ousadia de abordar outros “monstros” que também traduzem uma sensibilidade moderna: sexualidade livre, neopaganismo, cinismo, solidão, revolta existencial e toda a plural orgia das grandes metrópoles movidas pela Revolução Industrial. A explícita assunção da hipocrisia é, portanto, uma facilitadora da  compreensão do que está por vir. Em sua aparente agressão, Baudelaire deseja um honesto pacto, apresentando ao seu leitor o estranho espelho em que irá mirar-se.

Agrego a breve reflexão acima ao que trarei do ensaio recém-lançado no Brasil “A hipocrisia virtuosa”, da cientista política ítalo-americana Nadia Urbinati, aliás um dos seus últimos livros. Trata-se de um trabalho que, não deixando de ser rigoroso e erudito, é extremamente legível, uma vez que a pensadora possui um estilo ágil, fluente, capaz de articular saberes que transitam por áreas como a Filosofia Moral, a História, a Ciência Política e a Sociologia. Os leigos como eu podem ficar tranquilos, pois logo serão seduzidos não só pelo mérito expositivo e argumentativo do texto, como por aquela possível comunhão especular e fraterna a que se referia Baudelaire com o adjetivo “hipócrita”.

À medida que demonstra a presença da hipocrisia na História, Urbinati também vai refletindo sobre seu “modus operandi” e sugerindo que não se pode condenar a hipocrisia em bloco, como fazem os que só a enxergam pelo lado vizinho da mentira e da falsidade; em suma, como algo apenas negativo. O intento da autora não é, como se poderia pensar, “louvar a hipocrisia”, mas sustentar a tese de que “numa sociedade fundada no respeito ao outro, os indivíduos deveriam ser capazes de exercer certo grau de hipocrisia”, pois esta como que evita o jugo de uma força cáustica. Nem sempre, lembra a pensadora, “a autenticidade de princípios e de crenças”  favorece aqueles que a possuem. Por isso, não escapa à psicologia de Urbinati que “todo rigorismo moral ou ideológico tende a engendrar tanto a hipocrisia quanto sua condenação”!

Já de um ponto de vista político, “a hipocrisia opera como um indicador de maturidade e autogoverno: revela a capacidade de enfrentar conflitos sem recorrer à coerção” e, portanto, favorece a democracia. Assim compreendida, a hipocrisia é uma forma de urbanidade (“civility”) ativa e, dessa forma,  um fator positivo à democracia representativa. Se nos regimes despóticos “funciona como estratégia de defesa da liberdade e às vezes da própria vida”, nas “sociedades baseadas em direitos civis e políticos, assume uma forma ‘virtuosa’, capaz de deixar o indivíduo agir em público com tranquilidade”.

Descendo ao terreno prático do exercício político em companhia da autora, logo nos deparamos com uma perspectiva análoga à evocada por Baudelaire, resguardados, claro, os devidos objetivos. Ela lembra os políticos que prometem e fecham acordos com adversários sem admiti-los em público, mas, por outro lado,  recorda os eleitores que exigem transparência e que, no entanto, na cabine indevassável, “tapam o nariz” e votam diferente do que divulgam. São ambos hipócritas, o que não chega a ser exatamente um mal… Pelo contrário: Urbinati nos diz que “Imaginarmos uma sociedade livre desse tipo de comportamento equivaleria a projetar um mundo sem eleições e, portanto, sem política”! Não dá para levar a sério uma “suposta pureza imune à hipocrisia”.

Encerremos por aqui, não por falta do que discutir, já que o instigante livro de Urbinati é inspirador o suficiente para inúmeras reflexões relativas à tolerância, ao preconceito, aos conflitos e às contradições da vida social, inclusive ao chamado “politicamente correto”, ao qual ela dedica, com notável espírito dialético, as suas páginas finais. Ao fim e ao cabo, a hipocrisia revela-se muito mais rica e útil do que como a pintou, em inspirada máxima, o Duque de La Rochefoucauld, isto é, como “uma homenagem que o vício paga à virtude”.

Finalmente, ao terminarmos, tomemos por síntese, do filósofo norueguês Jon Elster, que tão bem inspira o ensaio da autora, a ideia de que a hipocrisia tem, sim, “uma força civilizadora”.