Trump e Lula

Trump e Lula

Simbolicamente, o bolsonarismo sofreu a sua maior derrota, do ponto de vista da disputa ideológica, com a decisão de Donald Trump de largar a mão do clã Bolsonaro e suspender as represálias adotadas pelo governo americano contra Alexandre de Moraes. Toscos politicamente e despidos de paciência estratégica, os bolsonaristas deram com os burros n’água ao ignorar que a manutenção das sanções ao ministro relator do processo que condenou Bolsonaro entrou em contradição com a Estratégia de Segurança Nacional de Donald Trump, na qual o Brasil se encaixa na categoria de países com os quais, apesar das diferenças ideológicas, interessa aos Estados Unidos manter boas relações.

Não foi pelos belos olhos de Lula que Donald Trump estabeleceu pontes com o governo brasileiro, dando passos para a normalização das relações Brasil–Estados Unidos. Não foi uma questão de química entre os dois mandatários, mas a convergência de interesses entre dois países cujos vínculos não nasceram hoje e datam de mais de duzentos anos.

Este é o problema de quem faz política por impulso, por soluços — sem nenhum trocadilho com a saúde de Bolsonaro. Suas ações podem, no curto prazo, servir como bandeira de agitação, mas levam ao desastre logo em seguida. É nisso que o bolsonarismo está metido agora. Isolado no campo interno — o Centrão não quer saber de um candidato à Presidência com o sobrenome Bolsonaro, como o filho mais velho da prole —, amarga agora também a solidão externa, ao perder seu único aliado de porte, Donald Trump. Sabia-se que, mais cedo ou mais tarde, isso aconteceria. Não imaginávamos que seria tão rápido.

O bolsonarismo — como corrente anti-histórica — é primitivo e rústico do ponto de vista de operar a política. Se é assim no cenário interno, o mesmo ocorre quando transplantado dogmaticamente para as relações externas. Só a ilusão de Eduardo, de seu pai e de seus irmãos, e de uma súcia de seguidores tão toupeira quanto seus líderes, poderia levar ao devaneio de que a “estratégia” — se é que se pode chamar de estratégia uma ação tão absurda — de se agarrar aos pelos pubianos de Donald Trump faria o STF tremer e o governo brasileiro ceder à chantagem.

Por maiores que sejam as afinidades ideológicas de Donald Trump com a extrema direita brasileira, elas não anulam a lei universal das relações internacionais, segundo a qual governos operam nesse cenário movidos por seus interesses concretos, e não por afinidades ideológicas. Quando há uma contradição profunda entre ideologia e interesses nacionais, prevalecem os interesses concretos.

Paradoxalmente, a nova política de Segurança Nacional do governo Donald Trump, que define a América Latina como área de sua esfera de influência, levou o presidente americano a estabelecer relações normais com o Brasil, mesmo governado por um presidente de esquerda. Uma coisa é a Venezuela de Maduro ou a Nicarágua de Daniel Ortega. Outra coisa é o Brasil: um país de economia complexa, interligada às cadeias produtivas globais, com uma sociedade civil sofisticada e instituições resilientes, apesar de suas mazelas.

A Doutrina Trump funda-se na Doutrina Monroe, mas reconhece que, além de governos com os quais mantém afinidades — como o da Argentina de Milei —, precisa conservar relações normais com países que não representam ameaça aos interesses americanos. Registre-se aqui que o governo Lula, gostemos ou não, soube operar com paciência estratégica: não se açodou e enfrentou o desafio com profissionalismo — uma marca da tradição diplomática brasileira.

Que vantagens teria Donald Trump em perpetuar um conflito com a segunda maior potência do continente americano? O presidente dos Estados Unidos percebeu que os Bolsonaros não valem uma missa. Daí ter largado suas mãos. Agora, resta ao bolsonarismo apenas o chororô nas redes sociais.