Infância

Infância

Gosto de pensar que sou fruto de uma paixão. E de um grande amor. Mas também sou de algum modo produto de duas Guerras Mundiais.

 Quando vivi em Cambridge, Inglaterra, ouvi alguém contar, com uma cara bem séria – como se informando uma verdade científica – que metade da população inglesa era fruto de uma bebedeira de fim de sábado. Pesquisa pra americano fazer, eles fazem pesquisa sobre tudo.

Pois eu não. Ao menos o acaso não foi desse tipo. Meus pais se casaram em Santos no dia 3 de julho de 1937. Meu pai, Hellmut Hoffmann, completaria 32 anos de idade naquele mesmo mês (nascido em 16 de julho de 1905, em Haan, região do Reno) e minha mãe, Annemarie Auguste Josephine Reger, tinha 23 anos. Eu nasci 9 meses depois. Minha mãe me contou certa vez que tudo aconteceu tão rápido, a barriga logo ficou grande, que houve até fofoca em Santos de que ela teria engravidado antes de casar. Coisa grave naqueles primórdios. Pura maldade, pois do dia do casamento até o nascimento do bebê dá 9 meses e uma semana.

Os dois eram virgens. Acreditem se quiserem. Já tinham tido alguns namorados ou candidatos a namorados. Mas eram virgens. Isso era no tempo em que o pretendente, ao falar com o pai da namorada para pedi-la em casamento, discretamente deixava sobre algum móvel um envelope contendo um atestado médico com resultado negativo de sífilis. Isso foi que meu pai fez – minha mãe me contou. Eu tenho a convicção absoluta que minha mãe era virgem quando se casou. Até aí nada demais, é apenas o óbvio, algo diferente seria inimaginável para uma família como a dela. Mas eu tenho a mesma convicção de que meu pai era virgem quando se casou, aos 31 anos. Tem mais: jamais traiu minha mãe. E meu pai era um homem bonito, e elegante. Continuou bonito sempre, mas a elegância – pelo menos a da roupa – acabou-se com a II Guerra Mundial e com a filharada que foi nascendo. Minha mãe planejava chegar a meia dúzia, ela sempre disse isso. Até afugentou uma vez um namorado inglês, que a olhou com horror quando ela deixou escapar, em alguma brincadeira, que se imaginava casada como uma galinha com seis pintinhos. Mas a guerra atrapalhou.

Pela segunda vez, a vida da minha mãe seria duramente atingida pela guerra.  Da primeira vez, em Hamburgo, quando estourou a I Guerra Mundial, era um bebê de 6 meses, uma loirinha de olhos azuis, cujo pai engenheiro acabou se alistando como soldado. Essa guerra já está noutro capítulo, “Do porto de Hamburgo ao porto de Santos”. A segunda vez foi em Santos: alemães tiveram ordem de deixar a costa marítima em 24 horas, no ano em que o Brasil entrou na guerra, 1942.

Meus pais de repente tiveram que deixar para trás em Santos tudo o que tinham – casa, emprego, orquídeas. O Wode, o único cachorro policial que nunca latiu pra mim, também ficou para trás. A mãe contava histórias do Wode, de como quando eu era um bebê pequenininho ela levou um tremendo susto porque o Wode estava por cima de mim e de como quando chegou perto viu que não tinha acontecido nada, o cão estava carinhosamente lambendo o cocô da minha bunda. Só lembro por histórias contadas e fotos, era um cachorro lindo da minha mãe, mas nunca perguntei o que fizeram com ele quando deixaram Santos. Será que já estava morto?

A data exata da partida para o interior eu não sei, mas o ano foi 1942. De documento só achei, ao desmontar a casa da minha mãe depois de sua morte em 2004, uma carta timbrada do The National City Bank of New York, datada de Santos, 7 de janeiro de 1942.

Santos Brasil 7 de janeiro de 1942

Ilmo Snr.

Hellmut Hoffmann

Santos

Levamos ao conhecimento de V.S. que este Banco resolveu declara-lo em licença a partir de hoje, dia 7 de Janeiro de 1942 até 10 de Fevereiro p.f., inclusive, com os respectivos vencimentos, sendo esta feita em duas vias uma das quaes ficará em seu poder e a outra devolvida ao Banco com o seu ciente.

Findo o prazo deverá V.S. se apresentar ao Banco para os devidos efeitos.

Sem outro motivo, somos

De V.S.

Amos Attos e Obgds

THE NATIONAL CITY BANK OF NEW YORK

Copiei como está. Depois disso, na carta bem datilografa, uma assinatura ilegível, por baixo está datilografado Agente, e a firma reconhecida no mesmo dia pelo Primeiro Tabelionato, 1º. Ofício, na Rua 15 de Novembro 32, SANTOS.

Eram passados exatos 30 dias da data em que o Presidente Roosevelt assinou a declaração de guerra dos Estados Unidos contra a Alemanha e o Japão (8 de dezembro de 1941).  Seis meses antes que as primeiras bombas japonesas houvessem caído sobre Pearl Harbor. A carta não era uma demissão, era uma licença. Será que não era possível juridicamente dizer …levamos ao conhecimento de V.S. que este banco resolveu demiti-lo devido à declaração de guerra dos Estados Unidos?  O Decreto em que o Presidente Getúlio Vargas determinou a entrada do Brasil na guerra é de 22 de agosto de 1942. Mas acho que já tínhamos saído de Santos. Meu pai jamais falou da guerra comigo (nem com meus irmãos). E jamais contou que a partida de Santos fora obrigatória.  Porém muitas vezes ouvi dele, já tarde na vida, comentários irônicos sobre chicana jurídica em matéria diversa. Lembro que algumas eram sobre documentos de exportação e importação de brinquedos.

Meus pais – e do mesmo modo meus avós – jamais disseram uma única palavra sobre guerra quando nós éramos crianças. Nunca soubemos, por eles, que estava havendo guerra. Devo ter ouvido falar de guerra quando se comemoraram 10 anos de seu término. Nós crianças tampouco nos perguntamos porque estávamos vivendo no mato, perto da vila chamada Nova Europa, para onde a tia Luise ia em sua charrete vender manteiga, ovos e requeijão. No consciente sobra muito pouco do que a gente vive entre 4 e 6 anos de idade, e meus irmãos eram ainda mais novos. Mas o que resta na minha lembrança daqueles anos no sítio da tia Luise perto de Araraquara é de um tempo feliz. Passamos lá três anos da guerra, mas depois de voltar para Santos, enquanto crianças, passávamos férias no sítio e todas as crianças gostavam. Enquanto permaneceram crianças. Lembro de uma das férias, depois que meus pais já me haviam mais ou menos obrigado a estudar piano, que a tia Luise me levou sábado à reunião dos adventistas e eu toquei órgão de pedal enquanto eles cantavam. Hoje sei que para a minha mãe ida para o sítio e a volta anual ao sítio durante as férias não era exatamente o que ela mais desejava no mundo. Mas isso jamais transpareceu enquanto éramos crianças; se havia sinais, a mim não chegaram.

A partida de Santos, quase da noite pro dia, se deu quando eu tinha 4 anos e meu irmão Ulrich, 2 anos. Fomos para um sítio no interior de São Paulo. Era o pedaço de terra ao qual meus avós paternos e cinco filhos pequenos tinham chegado em 1911, vindos da Hospedaria dos Imigrantes em São Paulo e de Amsterdam, onde haviam ido apenas tomar o navio Zelandia, vindos da região de Colônia. Lá perto de Nova Europa ficamos enquanto durava a guerra. Até vir para São Paulo em 1945.  Acho que foi só porque eu já precisava frequentar a escola primária. Imagino que meu pai não ia querer me pôr na escola que devia existir em Nova Europa, provavelmente dos adventistas do sétimo dia – ele que tinha apanhado na escola adventista porque não queria rezar. Assim fomos parar lá no morro onde os pais da minha mãe tinham a chácara. Então eu já tinha dois irmãos, o mais novo, Rodolfo, tinha 3 anos e uma cabeça cheia de cachos loirinhos. Parece invenção, mas dos cachos loirinhos dele eu lembro. E uma das minhas imagens do sítio de Nova Europa é o Rodolfo aprendendo a andar, e eu segurando os dois braços dele e empurrando cada perna dele com meus joelhos.     Da idade de 6 anos alguma coisa a gente já lembra. Ficamos na chácara dos meus avós na Estrada Velha de Cotia, em cima de um morro que era praticamente só pastagem com muita vaca holandesa, era preciso subir a pé pela estrada de barro batido, o ônibus que ia do centro de São Paulo a Cotia só passava lá embaixo na estrada.     Lembro bem da chácara, cheia de flores, verdura nem tanto, o poço lá embaixo, onde muitas vezes o papai deu banho nos três filhos jogando por cima deles, pelados, os baldes cheios de água que içava do poço. Era um bandinho feliz. Lembro até de quando comecei a ficar envergonhada de ficar nua naquela situação.

            Das janelas dos fundos, de noite, via-se São Paulo lá embaixo, lá longe, um mar de luzinhas, que vistas daquela distância não eram mais que pontinhos, menores que as luzinhas de Natal que hoje enfeitam as ruas em dezembro. A gente gostava de ficar olhando as luzes de noite, quase como a gente ficava na areia na praia do Embaré vendo as ondas chegando de mansinho. A São Paulo que víamos do alto do morro ainda não tinha dois milhões de habitantes.

Do sitio de Nova Europa ainda tenho imagens na memória: a multidão das galinhas, viviam soltas, ganhavam milho no fim da tarde, que se jogava no terreiro.

Bicho do pé, que a mamãe tirava com agulha e passava álcool. Comendo melancia no meio do pasto, que as melancias davam longe da casa. O coqueiro na frente da casa e a gente chupando coquinho – tinha sempre um monte caído no chão.

O paiol onde se debulhava o milho, e como se colocava a espiga para depois virar uma manivela e ver o milho saindo solto. A charrete que levava minha tia Luise para Nova Europa vender requeijão. Como a égua Jurema sabia o caminho de casa, mesmo que tia Luise dormisse na volta ao entardecer.

            As casuarinas, enormes, o vento zumbindo lá em cima entre as folhas em forma de gigantescas agulhas moles, como de borracha. Meu pai de braço machucado, um tempão, porque caiu do cavalo. Acho que consigo enxergar o mercúrio cromo no cotovelo dele. Meu pai colocando a gente em cima de um cavalo, manso. Meu pai pescando no rio. Ele gostava, mas o assunto não era lazer, era buscar comida, mesmo. De vez em quando tinha lambari frito. Meu pai instalando a roda d’água. Meu pai carregando o dínamo. A gente tomando banho lá embaixo na fonte, depois de descer pelo pasto. A mamãe descendo até a fonte, enchendo as moringas de barro com a água para beber. A água do poço perto de casa não se bebia direto, era usada para tomar banho e cozinhar. Meu pai conseguindo pela primeira vez acender a luz elétrica, as luminárias eram as metades da embalagem metálica de um queijo em formato de esfera. Lá no sítio, meu pai comprava esse queijo raríssimamente, deve ter comprado só para colocar a luz, não lembro desse queijo, porque o diário, o queijo do qual ainda tenho o gosto na boca, esse era o requeijão da tia Luise. Menos gostoso era ajudar a mexer a coalhada no tacho sobre o enorme fogão a lenha. As lágrimas da fumaça.

            As imagens que vêm mais fácil são sempre do meu pai fazendo coisas: fez pra gente um balanço (uma tábua sobre um tronco redondo, uma pessoa sentava de um lado, a outra de contrapeso do outro lado) e outro balanço já mais elaborado, um de cordas, que pendurou na mangueira grande, acho que além da tábua presa por cordas ainda havia bambu por onde passava a corda e onde a gente podia se segurar, tinha até tábua de encosto, e tinha uma parte da frente que fechava, para a gente não cair. Horas balançadas. Nem sabia o quanto gostava do pai que fazia aquilo tudo. Que levava a gente junto para ajudar a arrancar erva daninha no pasto. Naquele tempo ele ainda tocava cítara. (Depois que deixamos Nova Europa e voltamos para Santos nunca mais o vi tocar.)

            As horas que passávamos escalando os galhos das enormes mangueiras. Mangueiras perto da casa davam menos manga, mas ficávamos horas lá em cima escalando os galhos. E o balanço estava pendurado numa delas. Muito mais manga havia lá em cima, na saída do sítio para a estrada de terra que levava a Nova Europa, na charrete da tia. Eram várias mangueiras enormes, manga rosa, manga espada; a menorzinha, manga coração de boi; uma verde-escuro de pintas pretas, nunca deixava de ser verde, quando amadurecia apareciam as pintas, a gente conhecia quando estavam maduras, era manga Bourbon. Nunca ouvimos falar dessas que agora dominam o mercado mundial, Tommy Atkins e Haden. Dizem que é porque essas ficam bem coloridas e as de cor verde dão a impressão de que não amadurecem, então não vendem bem. Pois lá em Nova Europa essas verdes eram as melhores. E nos ensinaram, nas mangas e em palavras, que nem tudo que balança cai e nem tudo que brilha é ouro… O Brasil ainda não era o segundo maior exportador mundial de manga.

            Tia Luise ordenhando vacas e tentando ensinar a gente (coisa difícil que é apertar as tetas de jeito que saia leite), a horta enorme, tia Luise tirando água do poço, que era fundo. Como a mamãe tinha terror de a gente perto do poço, ensinou que era perigoso, que caindo lá em baixo às vezes não se volta mais.

            Até da comida lembro, que a tia Luise era vegetariana estrita. A comida era muito gostosa, arroz e feijão, banana cozida, tinha alface, tomate, tudo da horta, também agrião. Como era lindo o agrião crescendo no mini-riacho, um riozinho com pouco mais de um palmo de largura e um dedo de profundidade, só se percebia pelo ruído, de tão transparente que era a água corrente.

            Só de vez em quando tia Luise deixava minha mãe fazer um frango ensopado, desde que não encostasse nem cheiro no restante da comida, ou ela teria que comer só fruta. Meu avô Wilhelm já bem velho, começou a anunciar a fim do mundo que nunca chegava. Mas dessa parte já não sei se foi em nossa permanência durante a guerra, ou se foi depois, quando íamos de férias. Também não lembro do que me contou a mamãe, de que no começo eu me recusei a tomar leite depois de ver a tia Luise ordenhando: “Não quero beber xixi de vaca.”

            Se bem que me lembre que eu e meu irmão mais velho, bem pequenos – eu não devia ter 6 anos, pois ainda não tinha começado escola, e ele tinha 2 anos menos – uma vez fizemos xixi numa latinha e fomos verificar que gosto tinha. Mas naquela época também entalei grão de milho no ouvido – não é que eu tivesse visto alguém colocando brinco, nunca tinha visto, que ali não havia ninguém que usasse brinco, pois, fora minha mãe, só tinha adventista. Estava apenas experimentando o que se pode fazer com milho e buraco de ouvido. Mais tarde, já na chácara da vovó, arranquei os olhos de uma boneca para investigar o que tinha por baixo.

            Esses relatos são memória em parte, e o que passei a saber sobre o passado em vários momentos da vida. E de muitas fotos. Há coisas, por exemplo, que só vim a desencavar ao desmontar a casa da minha mãe depois que ela morreu em 2004, como uma carta apaixonada do meu pai a ela de quando eles ainda não eram casados, ou um exemplar do Mein Kampf de Hitler presente do Cônsul alemão em Santos em 1937, pois há uma dedicatória assinada por esse cônsul na primeira página. Aliás o casamento dos meus pais se deu no consulado, a certidão alemã ainda em escrita gótica.

            Se meus pais e avós nunca disseram às crianças uma só palavra da guerra é porque assim o decidiram, porque segundo suas ideias sobre educação infantil isso era melhor para as crianças. A educação das suas crianças nunca foi deixada ao léu. Era algo pensado e deliberado. Foi para nos proteger. Eu que – segundo dizem – tenho opinião sobre tudo, nem tenho opinião sobre se isso foi o certo. Mas assim foi. Também pode ser que tenham agido simplesmente segundo a ética espartana que era da natureza deles: as vicissitudes têm que ser enfrentadas, não adianta ficar se queixando, choramingando pelo que passou. É dar a volta por cima e trabalhar. Quantas vezes – quando me referi a pessoa ou a bicho como “coitado!” – ouvi minha mãe retrucar, em tom meio brincalhão, “coitado é filho de rato que nasceu pelado”.

            Só muitos anos depois nós, as crianças de então, soubemos que durante a guerra meu avô Carl Reger foi preso em São Paulo – por falar alemão na rua, o que era proibido. O que as crianças ouviram quando isso aconteceu é que o vovô estava no hospital. Talvez o nosso cotidiano, pela menos para as crianças, tenha sido melhor do que o que teria sido na cidade. Lá no sítio de Nova Europa não teve racionamento. Não vi diferença entre o padrão de consumo, rústico e saudável, com altíssima dose de produção doméstica; nunca foi muito diferente, durante a guerra, do que fora antes ou do que foi depois.

Quando voltamos para Santos eu já tinha completado oito anos de idade. Da guerra continuava sem saber. Mas lembro que os rapazes do casarão da frente, que minha mãe dizia que eram os Vergaras, da janela deles, estendiam o braço direito com a mão espalmada quando me viam no terraço. Eu não entendia, mas pressentia que era hostil. De verdade, esses vizinhos da frente nunca foram hostis, pelo contrário: quando pouco depois fiquei tão doente que minha mãe teve que me dar injeções de penicilina de tantas em tantas horas, era na geladeira dos Vergara que se guardavam os frascos de penicilina. Nesse tempo penicilina era remédio relativamente novo (os primeiros lotes chegaram ao Brasil em 1944, ainda com instruções do Ministério da Saúde da Inglaterra) e ainda tinha que ser mantida na geladeira, e os vizinhos da frente eram gente rica. Pelo menos era essa minha percepção de “gente rica” naquela época: aqueles a quem minha mãe pedia o favor de guardar na geladeira a penicilina que ela tinha que ir buscar várias vezes ao dia.

Segundo minha mãe, não fosse a penicilina eu teria morrido. Acrescento: e não fosse ela saber dar injeção, fervendo bem a agulha, que ainda não era o tempo das descartáveis, e nem existia farmácia por perto. E não fosse o Dr. Arthur Domingues Pinto, pioneiro da cirurgia no Brasil.

São Paulo, algum ano antes da pandemia de 2020