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Dentre os bons livros de sua biblioteca com que me brindou, em já remoto tempo, o etnógrafo e pesquisador Mário Souto Maior (meu colega e amigo da Fundação Joaquim Nabuco), há um, tão pequeno quanto curioso, do poeta, ensaísta e tradutor português Arnaldo Saraiva, inclusive autografado. Refiro-me a “O livro dos títulos (à falta de melhor título)”, uma pesquisa da qual compartilho aqui algumas de suas interessantes descobertas.

Pinço inicialmente a bem-humorada historieta de um autor que, tendo acabado um  romance, não sabia que título lhe pôr. Pediu, então, conselho a um amigo. Este, de imediato, perguntou-lhe se no romance havia algum tambor, respondendo o escritor que não. “E trombeta?, perguntou”. “Também não.” “Então, concluiu o amigo, está encontrado o título, por sinal bem bonito: Sem tambor nem trombeta”.

De fato, título bom não é fácil de encontrar. Saraiva cita o grande romancista português Vergílio Ferreira (de quem temos, no Recife, um de seus maiores especialistas, meu amigo o poeta e crítico José Rodrigues de Paiva), que ponderou numa entrevista: “O título é a primeira coisa que se escreve e a última que se adota”.  Antes dessa adoção, Clarice Lispector, no hoje conhecido livro “A hora da estrela”, hesitou entre treze nomes, aliás, convenhamos, todos inferiores ao definitivo; senão vejamos alguns: “A culpa é minha”, “Ela que se arranje, “Lamento de um blue”, “Saída discreta pela porta dos fundos”. Enfim, a hora era da estrela!!! Já Ernest Hemingway pensou em 96 títulos antes de se decidir pelo agora famoso “O sol também se levanta”.

Em seu ótimo livro “10 lições sobre Hanna Arendt”, outro amigo, o renomado sociólogo Luciano Oliveira, informa que o hoje clássico “Origens do totalitarismo”, da maior filósofa do século 20, chegou a ter como título “Os três pilares do inferno”. Para Oliveira, esse título “faria mais justiça à paixão e à profundidade do livro do que aquele com que chegou às livrarias”. Esses “pilares” de fato constituem o livro e remetem a uma repulsiva vertebração: antissemitismo, imperialismo e racismo.

Machado de Assis, de olho no charlatanismo humano, fez o velho Bentinho de “Dom Casmurro” afirmar que “Há livros que apenas terão isso [o título] dos seus autores, alguns nem tanto”. De par com essa ácida ponderação, note-se que inúmeros títulos não são originalmente dos próprios autores, mas soprados por amigos ou editores, uma prática natural no mundo dos livros.

Um bom título, aponta o Saraiva, desencadeia uma série de outros de caráter paródico, em especial na imprensa escrita. O caso de “A insustentável leveza do ser”, de Milan Kundera. O caso, lembro de minha parte, de “Em busca do tempo perdido”, de Marcel Proust. Por sinal, um título equívoco que pouco fala da complexidade do grande romance francês. De resto, semelhante, nesse sentido, a “À sombra das moças em flor”, onde as moças só dão o ar de sua graça no finzinho do volume…

Dentre os títulos que enganam os leitores também se encontra o do Marquês de Sade “Justine ou os infortúnios da virtude”, obra que, diz Saraiva, “foi adquirida por muitas mães que logo o depunham nas mãos das prendadas filhinhas para que a sua leitura as ajudasse a ser puras donzelas e castas esposas”. Imaginem a surpresa! Por sua vez, Carlos Drummond de Andrade confessou ao luso escritor que o seu livro de poemas “Amar se aprende amando” vendera bem “porque muitos o tomaram por um tratado de (sic) sacanagem”… Nessa mesma linha, que poderíamos chamar de linha do ledo engano, o autor lembra “Outono em Pequim”, de Boris Vian, que “não fala de Pequim nem de outono”; e “A cantora careca”, peça do absurdo Ionesco onde “não há nenhuma cantora, mesmo cabeluda”!

Há títulos monossilábicos. Alguns de gente famosa, a exemplo do “Eu”, de Augusto dos Anjos; do “It”, de Stephen King; do “Só”, de António Nobre; do “Til”, de José de Alencar. Outros se referem a famílias: “Os Maias”, de Eça de Queirós; “Os Thibault”, de Martin du Gard; “Os Buddenbrook”, de Thomas Mann; “Os Rougon-Macquart”, de Zola. Embora sejam mais frequentes os que se fixam num ou noutro membro da família: “A mãe”, de Gorki; o “Pai”, de August Strindberg; “O pai Goriot”, de Balzac; “O irmão”, de David Mourão-Ferreira; “O tio Vânia”, de Tchecov… Uma espécie, digamos, de nepotismo literário!

Há títulos, ou metatítulos, pode-se afirmar, que jogam com uma “insustentável leveza dos títulos” e até com sua irrelevância! O caso de “This book needs no title”, de Raymond Smullyan. O caso de “Título qualquer serve”, de Irene Lisboa. O caso ainda da vietnamita Duong Thu Huong com seu “Romance sem título”.

Nos dias que correm, aconselho autores e autoras, antes de batizarem seus rebentos, a fazerem uma consulta na Internet para saber se o título já existe. Se assim fizerem, é recomendável que tenham em mãos um curativo rápido para a pequena ferida narcísica que pode brotar de tal consulta. É que outro autor pode ter chegado antes ao sonhado título… Isso ocorre há muito tempo e com alguma frequência. Proust, por exemplo, pensou em chamar “A fugitiva” ao seu “Albertine desaparecida”, mas o poeta Tagore estava lançando a sua “Fugitiva” por aqueles dias… Pelo visto, há títulos que fogem dos autores.