Porta-aviões

Porta-aviões

“Com a América do vale tudo, ninguém sabe.” A frase é do Editorial do The Economist de 22 de novembro pp, ainda que ali se perguntasse até onde iria o tráfico de influência e o enriquecimento dos ocupantes dos mais altos cargos nos Estados Unidos ao ignorar leis anticorrupção e tradições de ética no governo. A verdade é que tampouco ao afundar mais de 20 barcos no mar do Caribe e Pacífico Leste a administração Trump teve qualquer preocupação com a legalidade (interna ou internacional) de um ataque armado a barcos em alto mar.

            Quando começou a bombardear barcos vindos de águas territoriais da Colômbia e da Venezuela, o argumento foi o do combate ao tráfico de drogas, que os barcos estariam trazendo drogas da América do Sul para os Estados Unidos.  Provas não foram apresentadas. A Colômbia declarou que havia sido afundado um barco de pesca. E o jornal Washington Post, em relato sobre o primeiro ataque, de 2 de setembro, revelou que a embarcação atingida pelo primeiro míssil tinha 11 tripulantes e ficaram 2 sobreviventes agarrados aos destroços do barco; o Secretário de Defesa Pete Hegseth ordenou um segundo míssil para afundar todos a bordo.

            Mais de 80 pessoas foram mortas nos barcos bombardeados nos últimos três meses sem o devido processo legal, classificadas como membros dos cartéis de drogas. Pode ser que eram carregamentos de drogas, mas suposição não legitima bombardeios. Nem mesmo a constatação de que Maduro é um ditador feroz que fraudou as eleições de julho de 2024, como ficou devidamente comprovado.

            Poucos acreditaram que a razão dos bombardeios da administração Trump era a “guerra às drogas”. Sabidamente não é a Venezuela a principal origem de fluxos de drogas que entram nos Estados Unidos pelo México. Além disso, antes da era Trump, o Departamento de Estado jamais tratou o tráfico de drogas como um ataque armado aos Estados Unidos. E as forças deslocadas para o Mar do Caribe, perto da Venezuela, são desproporcionais se o alvo é o narcotráfico: pelo menos cinco destroieres, um esquadrão de F35, bombardeiros B2, B52 e B1 e o maior porta-aviões da Marinha dos Estados Unidos, a maior concentração de força militar no Caribe desde a Crise dos Mísseis em Cuba em 1962. Mas a mensagem é ambígua, pois tal força não é considerada suficiente para uma invasão do território da Venezuela.

            Ainda que oficialmente a Casa Branca mantenha que suas operações são de combate ao narcotráfico, a suspeita que se ampliou foi a de que o objetivo seja o de derrubar Maduro pelo uso da força. Ou só provocar medo, supondo que por medo haja uma alteração no comando em Caracas que não seja apenas a substituição de Maduro por Diosdado Cabello. Trump já brincou que “pescadores estão ficando com medo”, e anunciou ter autorizado a CIA a conduzir operações secretas na Venezuela. Além de deportar venezuelanos indiscriminadamente acusando Maduro de estar esvaziando as prisões venezuelanas e mandando os criminosos para os Estados Unidos. James Story, diplomata que chefiou a embaixada dos Estados Unidos na Venezuela de 2018 a 2023, afirmava já em outubro estar claro que Trump quer Maduro fora de Caracas.

            Uma possível invasão da Venezuela tem sido verbalizada por Trump em sua habitual imprecisão. Indagado na CBS em 31/10/2025 se “os dias de Maduro estão contados”, respondeu: “Eu diria que sim. Acho que sim.” Aludiu mais tarde: “terra é mais fácil, mas isso vai começar logo”. Ainda que ninguém mostre que invadir a Venezuela para derrubar Maduro seja algo fácil. Muito pelo contrário, os alertas têm sido de que, a despeito da idêntica acusação de chefe de cartel de droga, é ilusório comparar eventual invasão da Venezuela com a invasão do Panamá em 1989 e o cerco ao General Noriega, que acabou se entregando. Para começar, já havia tropas americanas estacionadas no Canal, e o Panamá é minúsculo. É incomparavelmente maior o aparato de segurança pessoal de Maduro.

            De qualquer modo, em 24 de novembro, Trump tratou de encaixar formalmente seus ataques na “guerra contra o terror”, em que as vítimas seriam narcoterroristas membros de “organizações terroristas designadas”, às quais o Secretário de Defesa Pete Hegseth já chegou a chamar de “Al Qaeda do Hemisfério Ocidental”. O Departamento de Estado designou o “Cartel de los Soles” como organização terrorista estrangeira, e acusou Maduro e membros do alto escalão do governo em Caracas de liderarem esse cartel envolvido em narcoterrorismo. Assim, formalmente, o afundamento dos barcos e uma possível invasão da Venezuela adquirem o caráter de ações antiterrorismo. Quem sabe o público interno de Washington, acostumado com um governo que nas duas últimas décadas de quando em vez enviou drones letais para atingir algum alto comando islamista, julgue que a nova ofensiva antiterrorista é apenas mais do mesmo.

            Mas juristas e políticos lembram que no 11 de setembro de 2001 os Estados Unidos sofreram um ataque armado em seu próprio território, o Congresso aprovou a Autorização para o Uso de Força Militar que deu ao Presidente poder contra os que “planejaram, autorizaram, executaram ou ajudaram os ataques terroristas”. E o Conselho de Segurança da ONU autorizou. Nada disso está presente agora, como explica em detalhe, em Foreign Affairs de 26/11/2025, Brian Finucane, que foi assessor jurídico do Departamento de Estado nos governos Obama e Trump I. (www.foreignaffairs.com/central-america-caribbean/america-unbound-caribbean) O Congresso não autorizou a continuação das ações militares, inclusive há parlamentares pedindo uma investigação sobre se o afundamento dos barcos não constituiu crime de guerra.           Diante do escrutínio no Congresso, e críticas mesmo de representantes do Partido Republicano, Trump negou que seu Secretário de Defesa Hegseth tenha dado a ordem verbal para o segundo míssil de 2 de setembro: ”ele me disse que não disse isso, e eu acredito 100% nele”. E ainda acrescentou que ele próprio, Trump, não teria sido a favor do segundo míssil. O militar comandante das Operações Especiais decidiu sozinho? E quem decide se a força militar reunida no Caribe basta para ocupar a Venezuela? Trump ordenou o fechamento do espaço aéreo da Venezuela pelas redes sociais, não através do Pentágono. Mas é claro que nenhum piloto vai desafiar a ordem.

            No momento, o uso da força militar depende perigosamente dos instintos do Presidente Trump e de seu Secretário de Guerra, que fez carreira exatamente criticando limites a regras de combate. The New York Times publicou 28/11/2025 relato de dois jornalistas dizendo que Trump falou com Maduro ao telefone. O Secretário de Estado Marco Rubio participou da conversa, que se deu na semana anterior à designação do “Cartel de los Soles” como terrorista. Teriam ordenado, então, que Nicolas Maduro deixasse o cargo. O que está claro de todas as análises é que não há uma estratégia, nem da administração Trump, nem da oposição venezuelana. Maduro já declarou que o cartel não passa de pretexto para removê-lo da presidência. Teria pedido ajuda da Rússia, da China e do Irã, algo improvável de se concretizar nas atuais condições geopolíticas, ainda que europeus critiquem uma possível invasão.

            É evidente que retirar Maduro à força do Palácio Presidencial em Miraflores, ou a CIA alcançá-lo em algum bunker em Caracas, ou um míssil atingi-lo enquanto dança rumba em suas novas aparições de surpresa, está muito longe de garantir a reconstrução das instituições democráticas que foram sendo demolidas na Venezuela desde a primeira eleição de Maduro, há quase 13 anos. Quem tomará os cargos de mando em um possível governo provisório instalado pelos Estados Unidos? Não há planejamento para o pós-Maduro. Não se trata apenas de recordar o fracasso das tentativas dos Estados Unidos de “mudança de regime” pela força, do Vietnam ao Afeganistão, passando por Iraque e Líbia, sem falar da invasão da Baia dos Porcos em abril de 1961 ou da patética tentativa de invasão da Venezuela por La Guaira em maio de 2020, durante a primeira administração Trump. (https://www.revistasera.info/2020/06/venezuela-dois-presidentes-e-uma-invasao-rocambolesca-helga-hoffmann

Quando os Estados Unidos agiram para mudar governos na América Central, em geral foi pela via da ajuda na preparação de um golpe, não via invasão terrestre.

            Por enquanto as ações de Trump reforçaram a posição de Maduro, que aparece na imprensa mundial beijando a bandeira venezuelana. E não apenas porque aumentou a repressão a opositores. Trump tem que trabalhar com a liderança da oposição venezuelana, mas essa se desmoraliza ao apoiar uma invasão estrangeira, em particular dos Estados Unidos. Juan Guaidó se apagou como líder oposicionista depois de viajar pelo mundo defendendo sanções rígidas contra seu próprio país e apareceu envolvido na tentativa de invasão por La Guaíra. Mesmo no contexto da doutrinação chavista é possível exigir que tome posse quem ganhou legitimamente a eleição, o diplomata apoiado por Maria Corina Machado, Edmundo Gonzalez, contra Maduro. Mas daí a apoiar uma invasão americana vai larga distância.

            Venho analisando o governo Maduro desde a sua primeira eleição em 2013, e já são quinze os artigos que publiquei aqui na “Será?” sobre a Venezuela, o desastre econômico e os sofrimentos do povo venezuelano, os abusos de direitos humanos, confirmados mais de uma vez por observadores da ONU. Neste último ano a economia desandou de novo: a inflação, que se havia atenuado algo com a dolarização tolerada, voltou aos três dígitos, chega a 270% em 2025, segundo o FMI. Com a escassez de dólares a taxa de câmbio boliva/dólar, que estava a 43 há um ano, triplicou. Os que estão abaixo do nível da pobreza chegam a 80% da população. O que há de novo é que já não são maioria os venezuelanos que acreditam que o declínio econômico é culpa apenas do “imperialismo americano”. Mas “mudança de regime” repentina não acontece. E repito o que já foi dito: uma invasão da Venezuela só pode tornar uma situação péssima ainda pior. “Efeitos colaterais” atingiriam toda a América Latina. Muito mais complexos que novas ondas de refugiados como a que vimos em Pacaraima em agosto de 2024, depois que Maduro rejeitou o resultado da eleição.

            Edward Luce, o experiente editor-chefe para assuntos dos Estados Unidos no Financial Times, escreveu que se alguém conseguir convencer Maduro e os generais ao seu redor a partir para um exilio confortável, com imunidade legal, quem sabe Trump ainda poderá declarar sucesso. Mas isso é altamente improvável. E assim, nas palavras de Luce (“Trump style regime change in Venezuela”, FT, 02/12/2025), cresce dia a dia “o risco de um erro de proporções épicas”.