
Raul Jungmann
A respeitabilidade dos políticos está em baixa no Brasil. Com razão, os brasileiros desprezam os políticos, porque, infelizmente, a política brasileira está afundando no mais sujo atoleiro de oportunismo, corporativismo e corrupção. O que leva, perigosamente, à desvalorização da política como o terreno democrático de formulação, negociação e deliberação sobre os caminhos para enfrentar os problemas e projetar o futuro do Brasil. Neste cenário lamentável da vida brasileira, a morte prematura de Raul Jungmann deixa uma grande lacuna: a sua ausência quando o Brasil mais carece de homens públicos da sua estatura, competência e honradez. Raul foi um político de grande convicção democrática, de posições firmes, ideias claras e comprometidas com o Brasil. Mas, ao mesmo tempo, afeito ao diálogo, à negociação e à construção de consensos. Ele teve uma militância ativa na luta contra a ditadura e, depois, através de vários mandatos parlamentares, participou dos debates e discussões que levaram a decisões de consolidação da democracia e dos avanços sociais no Brasil.
Além desta sua atuação política, Raul Jungmann foi um competente gestor de políticas públicas como ministro de Estado e como executivo de instituições públicas e privadas. Como presidente do INCRA e Ministro do Desenvolvimento Agrário, no governo de Fernando Henrique Cardoso, Raul Jungmann liderou uma negociação política delicada num momento tenso dos conflitos de terras no Brasil e, como é reconhecido até pelos adversários políticos, foi responsável pela implementação em larga escala de assentamentos no Brasil. Para ele, a reforma agrária tinha grande importância social, era uma condição para reduzir a violência rural, mas não poderia se limitar à distribuição de terras, exigindo apoio aos assentamentos para a produção, na forma de crédito e assistência técnica. Na sua gestão, foi formalizado e ampliado o PRONAF-Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar que incluía o incentivo à produção nos estabelecimentos das famílias assentadas na reforma agrária.
No curto período à frente do Ministro da Defesa, Raul Jungmann apresentou um projeto de Política Nacional de Defesa que introduz o planejamento estratégico e reposiciona Forças Armadas na democracia brasileiras e na defesa das fronteiras e das riquezas naturais do Brasil. E no Ministério da Segurança Pública, Raul criou o SUSP-Sistema Único de Segurança Pública, entendendo que a violência e a criminalidade estavam avançando e que só poderiam ser enfrentadas com a cooperação federativa e a coordenação nacional das instituições e órgãos federais, estaduais e municipais. Embora, nos últimos anos, tenha atuado fora do Estado e da cena política, como diretor-presidente do Instituto Brasileiro de Mineração, Raul Jungmann continuou sendo uma referência na política de segurança pública e um ativo defensor do SUSP, que está longe de constituir-se como um sistema coordenado, enquanto o crime organizado se propaga e se fortalece no território nacional. Raul foi muito além do terreno das ideias e das formulações, ele foi um executor de políticas públicas. Mas o seu legado principal é o exemplo de político sério, competente e comprometido com a democracia e o futuro do Brasil.
P.S Convidamos você a assistir o recente debate promovido pelo Instituto Ética e Democracia A Crise da Segurança Pública – com Raul Jungmann
Raul Jungmann foi um homem público correto e democrata. RIP.