Mussolini e Hitler

Mussolini e Hitler

Por muito pouco, como todos se lembram, Bolsonaro não foi reconduzido ao poder. Não me parece que agora, em 2026, com importantes eleições à vista, o fato de o ex-presidente estar preso vá arrefecer os ardores antidemocráticos de muitos políticos e de grande parte da população.

Convém observar que Lula, embora esteja fazendo um governo de regular a bom, não vem sendo bem aprovado pelas pesquisas. Para mim,  sem qualquer lulismo e talvez com alguma ingenuidade, a razão seria esta: Bolsonaro sequestrou o imaginário que Lula havia conquistado e, assim, muitas pessoas do povo passaram a ver o presidente de soslaio, com enorme desconfiança, demonizado. Interpôs-se uma neblina (que já havia há muito tempo, mas não tão densa!). É possível que certos projetos do presidente até agradem as massas, mas podem não se transformar em votos na cabine indevassável.

O cenário acima é propício à cupinização da democracia. Em 2026, não devemos nos iludir: a polarização continuará. Nas eleições deste ano, estarão bem vivas as “viúvas de Bolsonaro”, os falsos conservadores, os nada liberais e aqueles que, conforme o historiador especialista em fascismo Federico Finchelstein, podem ser chamados de “aspirantes a fascistas”. Essa “aspiração ao fascismo”, como escreve Finchelstein no seu livro “Aspirantes a fascistas: um guia para entender a maior ameaça à democracia” (2024), “é uma versão incompleta do fascismo e é característica de líderes que buscam destruir a democracia para obter ganhos pessoais em curto prazo, mas que não estão totalmente comprometidos com a causa fascista”. Isto é, “não atingiram (ainda) os níveis de fervor ideológico, violência e mentiras alcançados pelos fascistas históricos”.

O livro de Finchelstein é muito mais do que uma orientação, é uma análise que  articula a história do fascismo e do populismo aos dias atuais, em que o cenário é dominado por personagens como Trump, Modi, Orbán, Milei, Kast e a nossa prata da casa, Bolsonaro. É de se notar que Jair Bolsonaro nunca é chamado pelo que é:  um fascista, ou neofascista, ou um “aspirante a fascista”. Essa falsificação da grande mídia também ocorre noutros países, como pontua o citado historiador. O corolário dessa naturalização não tardou a chegar: uma vez capturado o imaginário das massas e a adesão do poder militar, por que não um golpe? Por que não um “punhal verde-amarelo”? A militarização da política, como se sabe, é naturalmente fascista!

Em 2026, aspirantes a fascistas, a exemplo do avatar do Jair, o declarado candidato Flávio Bolsonaro, estarão soltos e travestidos de uma mansidão ovina. O “Zero Um”, o Flávio, já se pinta de “moderado”. Que os brasileiros não se iludam: não se trata apenas de debater gestão, saúde, segurança pública, educação, etc. Está em jogo algo muito maior e abrangente: o rumo político do Brasil. Está em jogo o supremo bem que é viver num país democrático, sem golpes, sem violência política, com inclusão e diversidade. Escolher nas urnas os aspirantes a fascistas (a exemplo do Zero Um e do governador de São Paulo) é minar o Estado Democrático de Direito e abrir as portas para a mentira sistemática, o casuísmo temperamental de um líder arbitrário e uma guerra interna e sem quartel contra os brasileiros democratas.

Finchelstein (aliás, já pessoalmente hostilizado pelos Bolsonaros!) diz que seu estudo se organiza em torno dos “quatro principais elementos do fascismo: a violência política, a propaganda e a desinformação, a xenofobia e a ditadura”. Assim, por favor, não chamem, nas próximas eleições, esse infernal quarteto para tocar! É dele que temos que tomar distância para não tornar ainda mais violenta a nossa sociedade já por si tão violenta e desigual. Deste quarteto nunca sairá um bom samba para o Brasil… e para o mundo!

Feliz ano novo!