Tempestade

Tempestade

Aviso aos navegantes: atentem ao rumo e rizem as velas. Pirajá se aproximando. Essa é a mensagem de final de ano que racionalmente devo passar.

Esclareço aos não navegantes o teor da mensagem: (1) rizar as velas é conter gastos e absoluta cautela com a economia. (2) Pirajá é um vento forte, que costuma durar, em média, até 40 minutos. Para não ser alarmista, adotei tom mais calmo, mesmo tendo em vista expectativa de turbulência no plano econômico. No fundo, esse “Pirajá” pode se converter em tempestade, e já temos alguns indícios.

A economia e o mercado sempre foram norteados por expectativa e confiança. São preceitos, até então, básicos de amplo conhecimento. O que nos leva a fazer forte recomendação de “atentar ao rumo e rizar as velas” é justamente pela leitura que temos da expectativa e da confiança.

A expectativa, lamentavelmente, é de ampla incerteza, agravada com as mudanças de rumos do Banco Central do Brasil – BACEN, na medida em que serão abolidas as “setas” das atas do Copom, que funcionam como espécie de bússola, para sinalizar, de alguma forma ainda em caráter preliminar, a direção a ser tomada em relação aos juros.

A imprevisibilidade é um fator que retarda a decisão dos investidores (sobretudo empresários ligados à indústria), acarretando um certo freio nos investimentos, como forma de cautela e proteção, até que se possa ter alguma noção do horizonte à frente. Isso traz um reflexo imediato na redução do nível de crescimento econômico.

Além disso, expectativa foi agravada tanto pela ausência da indicação dos novos diretores da autoridade monetária, para 2026, contribuindo para tornar ainda mais nebuloso o cenário dos juros, como pela Reforma Tributária, que gerou cenário de incertezas e conseguiu aumentar o nível de complexidade, já razoavelmente elevado.

Diante dos fatos, a confiança dos empresários na economia brasileira, por mais resiliente que seja, fica comprometida. Isso é um reflexo natural da insegurança jurídica, potencializada pelas mudanças da temida Reforma Tributária, e das interferências políticas no BACEN.

Não entro aqui no mérito da corrupção, outra doença crônica que consome ano a ano milhares de recursos brasileiros, sem qualquer previsão de combate. Pelo contrário, um amplo cenário de certeza de impunidade, com alguns exemplos: extinção da Lava Jato; escândalo do INSS e o mais recente caso do Banco Master.

Se as investigações do Banco Master forem mesmo levadas a bom termo e com efetividade, o que na atual conjuntura é pouco provável, poderá ser revelado um esquema de corrupção sem precedentes no Sistema Financeiro brasileiro. Ainda que não seja investigado, é natural presumir a insegurança dos investidores no Brasil, que passam a ter maior nível de atenção e receio, com reflexo na baixa confiança em investir nesse país seus recursos.

Qualquer estudante mediano de economia, ainda no início do curso, aprende, ou deveria já ter aprendido, a relevância da manutenção da expectativa e da confiança em bom patamar. Horizonte nebuloso e falta de credibilidade nunca levaram a bom porto qualquer nação.

Paulinho da Viola, em seu belíssimo samba Timoneiro canta “o mar não tem cabelos que a gente possa agarrar”, velho conselho que toda boa avó ensina aos seus queridos netinhos. Arrisco a complementar que a economia também não tem cabelos. Portanto, marujos, atenção às velas e olho no mar.