
Infância
Já ouvi dizer de uma senhora, mãe ou esposa de um político paraibano e exemplo extremo de bairrismo, que ela costumava dar aos amigos um conselho: “Meu filho, nunca pergunte a uma pessoa que você acaba de conhecer onde ela nasceu… para não lhe causar o embaraço, ou o desgosto, de ter de dizer que não nasceu na Paraíba!”
Bem, infelizmente para mim e meus conterrâneos, Fernando Dourado Filho nasceu em Pernambuco, mais precisamente em Garanhuns. Passou a infância no Recife, emigrou ainda adolescente para a Europa, foi estudante em Paris e na Alemanha, estagiário num kibutz israelense, e depois, literalmente, ganhou o mundo. Como consultor em internacionalização de empresas, falando uma dezena de línguas, já visitou quase todos os países de Europa, Ásia e África. E acima de tudo isso, me honra com a sua amizade.
Seu último livro acaba de ser lançado em São Paulo, onde ele, enfim, parece ter-se estabilizado. Seu título é “A Luz Mutante da Meia-Estação – Ensaio de Memória”. Mas já tem vários outros livros publicados, alguns em Portugal, onde conta com editores cativos. Um desses, de natureza épica, foi objeto de análise minha, constante dos meus “Ensaios Irreverentes”, e tem como título “O Halo Âmbar”. Pois bem, amigos, este já está sendo vertido para o húngaro. Pois é lá, em Budapeste, cidade de boas lembranças do autor, que se inicia a epopeia, ao tempo da II Guerra Mundial e da perseguição aos judeus, indo acabar no Brasil, duas gerações depois.
O autor andou bem ao rotular o novo livro de “Ensaio de Memória”, pois é composto de reminiscências, com pequenos capítulos, em que são confrontadas as vivências atuais e as de quarenta anos antes, nos embalos da juventude, mundo afora. Muitas são as cidades revisitadas, e as comparações se sucedem, envolvendo também cenas mais remotas do Recife, com toques de exaltação ou de melancolia. Não se exclui um olhar crítico para a política no entorno, e eventuais prognósticos inquietantes. De permeio, uma ponta de mágoa, por não ter podido assistir aos últimos momentos de sua mãe, grande referência de sua vida, com quem mantinha sempre contato por telefone, de qualquer oco do mundo onde se encontrasse.
Sua apreciação das gentes, dos indivíduos e dos lugares, em traços subjetivos, envolve, de forma diversificada, empatia, sarcasmo e deslumbramento. Mas é no campo da gastronomia que o nosso herói se apresenta mais à vontade, calcado em sua vastíssima experiência das mais diversas culinárias.
Uma das muitas virtudes de Eça de Queiroz, o grande escritor português, é a entusiástica exaltação à cozinha do seu país. Consta até que alguns admiradores, em sua homenagem, organizam almoços ou jantares com cardápio exclusivo das iguarias referidas por ele. Mas Fernando Dourado faz muito mais e melhor: enaltece, com verdadeira emoção e riqueza de detalhes, os pratos dos numerosos países que visitou, e agora revisita, em seu mais recente périplo. Trata-se de um “gourmet” dos mais convincentes, diria mesmo de um “gourmand”, não fosse o risco de ofendê-lo. Mas sua foto, na segunda orelha do livro, não deixa margem a qualquer dúvida.
Mas não é só isso que faz o mérito do livro em comento. Qualquer leitor se deixa seduzir pela riqueza da sua linguagem, pela originalidade dos seus conceitos, pelo lampejo surpreendente de suas comparações. Permito-me citar alguns casos: “A idade traz indultos – nem todos edificantes”, “embasbacado que fui, siderado pela cava radical que lhe separava os seios discretamente balouçantes”, “aqui se curam as dores do corpo e se renova a alma nas alegrias cruas”, “o olho educado que têm para a arte da vida”, “uma voz de travesseiro”, “quem me olha com olhos de corsa enamorada”, “aconchegado pelos sons e cheiros da montanha”, “a prisão que tritura a esperança”, “um céu prístino e fustigado por lambidas de vento frio”. Há muitos exemplos mais.
Em um dos textos finais, Fernando Dourado, em conversa com uma agente editora, explica por que não é muito divulgado no seu próprio país: “Não estou enquadrado nas tendências. O que eu escrevo é claro e todo mundo entende. Isso me desfavorece. Não faço experimentalismos linguísticos nem pertenço às minorias perseguidas. Não sou notícia”. Infelizmente, lamentavelmente, tenho de admitir que ele tem razão.
Releio agora a dedicatória escrita no exemplar que me enviou: “Para o querido amigo Clemente, com os votos de que possa remetê-lo aos coloridos da primavera e ao aconchego dos tons outonais”. Mais uma maneira inteligente de orbitar o título do livro, cuja leitura enfaticamente recomendo.
o Livro de Fernando Dourado não poderia ser melhor agraciado. Texto acima é primoroso e deixa o leitor ansioso pela leitura. Mr Rosas, como sempre lhe falo, a brisa da Praia Formosa tem lhe sido generosa e inspiradora. Parabéns!
Obrigado pela leitura e pela apreciação, amigo Eurico.
Esperemos que o livro do gordo genial chegue às nossas livrarias.
Perfeito tio Clemente, por sinal quero o livro emprestado, se você me permitir. E sendo uma pernambucana de Recife, faço questão de conhecer a obra desse meu conterrâneo. Mais bairrista do que o Recifense não existe viu! Com carinho, sua sobrinha Sandra Rosas.
Querido Clemente, Por uma rara vez, não acompanhei a chamada da sexta-feira última, mobilizado que estava numa confraternização de amigos pernambucanos, num lugar da zona sul de Recife. Foi por essa razão que apenas hoje, quinta-feira, já de volta a São Paulo, dei de cara com a simpática resenha com que você brindou meu livro mais recente. O que dizer? Três coisas. Para mim, ela conta muito porque você é um homem de apurado gosto literário e que, até por dever de amizade, se empenha em ler os amigos e balizá-los com suas observações. Logo não é um leitor qualquer. Segundo porque você captou bem o espírito descosturado dos ensaios memorialísticos, dando as ênfases onde elas estão e relevando a alma desarvorada que vagueia pelo latifúndio que é o meu corpo. Por fim, porque quem ler sua resenha, vai se sentir tentado a testar as águas tépidas em que se misturam a crônica, o travel writing e o memorialismo. Muito obrigado. Um abraço e meus votos de que o verão seja resplandecente no litoral da Paraíba.
Assim está sendo mesmo o verão, como já anunciei em crônica anterior nesta nossa Revista (“O Verão Chegou”).
Obrigado, amigo, pelo comentário, brilhante, como não podia deixar de ser.
Excelente, mano! Não conhecia nada do autor “bairrista” mas pelas suas transcrições de passagens do livro, me impressionou como ele joga com as palavras criando imagens quase mágicas. E esse aspecto voltado para a culinária imagino, na descrição dos pratos, só de pensar em ler já fico com água na boca.
Obrigado, Sandrinha e Yara.
O livro ainda não chegou às livrarias daqui, mas meu exemplar estará à disposição, se o interesse se mantiver.
CR
Clemente, O seu olhar sensível e preciso ilumina ainda mais a força literária do livro de Fernando Dourado Filho. Seu comentário, ao mesmo tempo elegante e profundo, reconhece a densidade narrativa, a memória afetiva e o refinamento da escrita do autor. Quando um leitor da sua estatura, destaca uma obra, não apenas a recomenda — ele a legitima como experiência literária necessária. Um encontro feliz entre crítica qualificada e literatura de alta voltagem.
Fernando tem um alto e profícuo conteúdo, com excelentes textos, além de conhecimentos e uma memória prodigiosa.
Clemente foi muito feliz na abordagem sobre o autor e a sua nova obra.
Querido Gláucio, sou grato à noite divertida que tivemos a dois em Recife há uns dias, a que nosso Homem da Renascença, João Rego, não pôde comparecer porque, naquele exato momento, estava articulando a neutralização do Boko Haram e minando as chances de Trump na eleição de mid-term no Texas. O livrinho a que você e Clemente se referiram (“A Luz Mutante da Meia-Estação” – 208 páginas, R$90,00 – Editora AzuCo – São Paulo, 2025) saiu há apenas 45 dias e ainda não foi formalmente lançado, o que só deverá acontecer em março, que é quando a cidade aqui começa a respirar. Hoje, sábado 7, é um pastiche baiano a eletrizar a zona do Ibirapuera. A despeito disso, o livrinho vem encontrando uma acolhida calorosa. Contrariamente a “O Halo Âmbar” (que vai virar filme) e a “A Viagem Imóvel”, cartapácios de mais de 500 páginas que levaram tempo para ser assimilados mesmo pelo público mais ávido, este último é mais palatável aos leitores de clubes de livros e afins, uma das tendências atuais de distribuição e disseminação. Na verdade, vou morrer sem achar que fui um escritor. Certo mesmo é que preciso escrever todo dia, como o nadador que se não der suas braçadas começa a ver cartucheiras lombares onde não existem. Uma hora, os livros ficam prontos. Para você, meus votos de que o Carnaval seja divertido e profícuo. Talvez eu tenha saído de Recife na hora errada – com os clarins ecoando em cada esquina -, mas os dias passados aí tiveram lá os seus méritos. Nessa época do ano, as conversas de mesa de bar (tive muitas) ficam mais leves, os assuntos sisudos somem da pauta e ficam para depois as pirâmides candangas e os penduricalhos gestados naquela terra indecente, cuja criação foi a segunda maior catástrofe da vida brasileira depois da escravidão. Um abraço
Querido Fernando,
A gratidão pelo convite, com brilho de uma noite já tão bem vivida. Encontros como esse confirmam que certas conversas não se encerram à mesa; continuam ressoando , como um bom acorde, sao para quem sabe apreciar a amizade e uma boa conversa
Tambem lamentei a ausência do nosso nobre amigo João Rego, certamente engajado em alguma missão de envergadura internacional — nada que, imagino, não possa ser compensado em outro momento, em nova rodada de conversas, entre outros brindes e idêntico entusiasmo.
Receber notícias de A Luz Mutante da Meia-Estação antes mesmo de seu lançamento formal é um privilégio. A acolhida calorosa não surpreende: sua escrita possui um rigor e sensibilidade que alcança tanto o leitor mais atento quanto aquele que apenas busca o prazer de uma boa narrativa. Quanto ao seu ceticismo em relação ao título de “escritor”, tenho a opinião de quem escreve com a constância de uma necessidade vital já pertence, inevitavelmente, à literatura. O nadador não escolhe a água; reconhece nela o seu elemento.
Fiquei muito satisfeito em saber do destino cinematográfico de O Halo Âmbar. Há obras que parecem nascer já iluminadas por uma vocação de imagem, como se pedissem novas formas de respiração.
Finalmente,
Recife, nesta época , se transforma: os clarins se espalham pelas esquinas, as conversas ficam mais leves e até o tempo parece adotar o compasso do frevo. Sua passagem por aqui deixou impressões muito felizes — e a certeza de que outras virão.
Agradeço os votos para o Carnaval e retribuo com igual entusiasmo: que este novo livro percorra um caminho luminoso até março e que seu lançamento seja tão vibrante quanto a cidade que então começará, como você disse com precisão, a respirar.
Evoé !
Um abraço grande e afetuoso,Gláucio
Caros Fernando e Gláucio,
Agradeço o epíteto de Homem da Renascença e embora não tivesse envolvido em missões tão espinhosas, de fato estava sem condições de ir ao encontro de vocês. Fica para a próxima, mas que seja numa sexta ou num sábado. Forte e fraterno abraço
Combinado.
Agradeço o luminoso comentário de Gláucio, e aguardo a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente, no programado encontro de vocês.