Grande Sertões Veredas

Grande Sertões Veredas

Ainda há o que dizer sobre o “Grande sertão: veredas”? Sim, os clássicos são tagarelas e nos convidam a tagarelar. Todavia, “perdoai”, como diria Manuel Bandeira, este é um texto menor, sem outra pretensão que a de apenas assinalar, neste ano de 2026, esta efeméride da cultura brasileira: os 70 anos da obra. Como se sabe, boa parte da vasta fortuna crítica de seu autor deve-se ao romance, que, ao lado de poucas outras obras brasileiras, logrou um raro prestígio no plano internacional. No momento, por exemplo, aguarda-se uma nova tradução em alemão prevista para ser lançada em agosto deste ano. A empreitada, que levou 20 anos, é do tradutor Berthold Zilly.

Rosa e seu grande livro não escaparam ao anedotário nacional. Dentre outras histórias, conta-se que certo indivíduo, candidato a um emprego numa editora, chegou a dizer que falava várias línguas, inclusive a de Guimarães Rosa! Comenta-se que Milton Campos, ex-governador de Minas Gerais, teria dito que estava lendo Guimarães Rosa em alemão e, questionado sobre a experiência, saiu-se com esta: “Ah, em alemão, Guimarães Rosa é muito mais palatável!”. Também foi apontado um grupo de escritores que não conseguiam ler Guimarães Rosa, de modo que quem não o lê e não o admira também se encontra em ótima companhia…

À semelhança de Marcel Proust, de quem foi leitor atento, Rosa é da família dos escritores que reúne paixão e análise, o que se reflete no seu texto idiossincrático, onde faz emergir não só o poético, possibilitado por uma linguagem inovadoramente revolucionária, como uma reflexão aguda que pontilha a narração. Ao contrário de Proust, porém, em Rosa o leitor praticamente só encontrará frases curtas, incisivas, que guardam ritmos, epifanias e ressonâncias da oralidade sertaneja de Minas Gerais.

Guimarães Rosa aproveita a língua como um maná, um milagre e uma devoção mística. Um de seus melhores críticos, João Adolfo Hansen, avisa-nos que o autor “libera as muitas línguas presas na língua!” e que, como Joyce, tem “uma recusa da linguagem existente, sabendo que é impossível escrever em uma língua reduzida à estupidez instrumental” (Cf. “O o [sic]: a ficção da literatura em “Grande sertão: veredas”). Noutras palavras, Hansen nos diz que, como criador, Rosa se instala no próprio reino da poesia, heideggerianamente vizinho do reino do pensador.

Numa linguagem artificiosa, embora virtuosa por seu completo domínio das potencialidades da língua portuguesa, “Grande sertão: veredas” é, em poucas palavras, o monólogo em que um “homo viator”, Riobaldo, narra a sua própria vida para poder compreendê-la melhor. A personagem é fruto de um meio rural, patriarcal e oligárquico, pleno das contradições e mazelas sociais que forjaram o Brasil. O próprio Riobaldo é filho biológico de um abastado fazendeiro que o cria como “afilhado”, o que, de certo modo, já lhe garante uma posição privilegiada para a época, uma vez que muitos filhos naturais ficavam para trás, deixados a um completo desamparo.

Numa picada aberta por Antonio Candido, que viu na obra, a despeito da diferença de gêneros literários, uma grande afinidade com “Os sertões”, de Euclides da Cunha, muitos críticos se detiveram na dimensão sociológica do romance, que é vasta e reveladora. Essa vereda temática foi magistralmente aprofundada pelo crítico alemão e professor da USP Willi Bolle em seu “grandesertão.br” [sic], no qual postula, entre outros achados, que a obra-prima rosiana, além de ser uma reescrita ficcional do livro euclidiano, insere-se entre os chamados “Retratos do Brasil”: os “ensaios de formação” de Sergio Buarque de Holanda, Caio Prado Júnior, Celso Furtado, Raymundo Faoro, Antonio Candido, Florestan Fernandes, Darcy Ribeiro e Gilberto Freyre.

Voltando a, Riobaldo, protagonista, diga-se que é ele que nos conta a história em flashback, embora, a rigor, para desespero de muitos leitores, a narrativa comece “in media res”. Sua vida de jagunço (“homem provisório” e desamparado), passada em retrospecto, lida exaustivamente com um perpétuo questionar-se sobre si mesmo e a realidade, daí a dúvida tão presente ao longo do monólogo. O que ele busca é sobretudo extrair um sentido existencial que, no curso da ação, não é dado de imediato. Tal como em Proust, a revelação do sentido só é feita “a posteriori”.

Sendo como é uma espécie de poeta-guerreiro, Riobaldo, com sua vida, reúne a prosa e a poesia do mundo, a imanência do pragmático e a transcendência de uma meditação metafísica. Embora desesperado com o que chamou de “megera cartesiana”, Rosa, ainda assim, quer racionalmente livrar-se de perceber o Mal maciçamente fechado em si mesmo como um ente ontológico. Assim, tomado por hesitações de um Hamlet e por uma vontade faustiana, Riobaldo vai buscar no amor (em seu desejo pela bela e inalcançável Diadorim) e na ficção do demônio, ao fim destruída, coragem e poder para as lutas, imaginárias ou não, de seu destino.

À parte a história de amor por Diadorim, que configura uma mitologia individual, mas não menos simbólica, não há como escapar de uma verdade muito clara deste que é o único romance do autor: o “Grande sertão: veredas” é duramente “belicoso”, jamais esquivo a reconhecer a força como algo trágico e irracional. As batalhas entre grupos de jagunços (“tontos movimentos”) assumem, no romance, uma dimensão épica, universal e transcendente.

Ocorre-me pensar, considerando essa face guerreira do livro, de resto tão próxima de uma barbárie hobbesiana, o quanto o escritor interiorizou da Segunda Guerra Mundial, da qual foi privilegiada testemunha, pois de 1938 a 1942, atuou como diplomata na Alemanha. E mais: o quanto levou dessa desesperada experiência, sobre a qual deixou um diário, para a sua obra monumental. Esse diário, escrito entre 1939 e 1941, integra a Coleção Henriqueta Lisboa, da Universidade Federal de Minas Gerais.

Com o advento da chamada “guerra fria” e a polarização entre os soviéticos e o Ocidente, Guimarães Rosa sofreu, como tantos outros escritores, uma forte pressão para engajar-se politicamente. No entanto, sempre preferiu a diplomacia da Literatura, falando-nos, através dela, da guerra e de sua violência cruel, irracional e incompreensível. Mal sabia (ele que salvou tantos judeus, junto com Aracy, a esposa, a quem o romance é dedicado) que a loucura nazifascista, quase um século depois, voltaria a seduzir o “homem humano”. De minha parte, formulo a hipótese (se é que já não foi proposta) de que essa loucura, também ela, está como que transfigurada no livro agora septuagenário.