Carnaval

Carnaval

Embora cada Carnaval se perpetue em lembranças que se emendam à vida e aos Carnavais passados, é de alguma forma necessário concluir o ciclo da grande festa, escolher um ponto-final. Por que não, ainda e mais uma vez, um ponto-final desenhado com as tintas e as formas do próprio Carnaval? Foi para fazer desse ponto um belo ponto de virada que surgiu no Recife o Bloco Cinza das Horas, liderado pela foliã e historiadora Rita de Cássia Barbosa de Araújo, pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco, ela própria uma estudiosa do Carnaval.

Criado há 23 anos, o Cinza das Horas, segundo costuma dizer Rita de Cássia, nasceu do desejo de criar um “desfecho à altura” do grande e diverso Carnaval recifense. Seu nome, claro, foi inspirado em Manuel Bandeira, autor dos livros “A cinza das horas” e “Carnaval”. É no poema-epígrafe do primeiro que o poeta, referindo-se ao próprio coração, conclui: “Ardeu em gritos dementes / Na sua paixão sombria… / E dessas horas ardentes / Ficou esta cinza fria: / — Esta pouca cinza fria…”.

Sendo um ritual de despedida, o Bloco Cinza das Horas, além de a rigor não desfilar, evita as músicas mais esfuziantes e mais ardentes (para usarmos o adjetivo bandeiriano), preferindo as mais suaves. Assim, nos últimos instantes da terça-feira gorda, no belo cenário da ilha onde nasceu a cidade (para quem não sabe, uma região central do Recife, entre rio e mar), que o Cinza das Horas, no qual o roxo lembra a iminente Quaresma católica,  despeja as “cinzas” do Carnaval no Rio Capibaribe, num simbolismo de fim e de continuidade… A carga dramática desse lirismo litúrgico e dessa metabolização de um luto tem feito muitos foliões irem às lágrimas. Lágrimas e cinzas correm agora para o mar oceano…

No seu memorável “Sermão de Quarta-feira de Cinza”, o Padre Antônio Vieira lembra-nos como a Igreja Católica celebra a Quaresma, recordando as palavras bíblicas: “Lembra-te que és pó e que ao pó retornarás”. Vieira chama a atenção para o fato de sermos pó: o homem foi pó, é pó e voltará ao pó. Diz-nos inclusive, com sua conhecida erudição, que Adão quer dizer “vermelho”, “porque o pó do campo damasceno [de Damasco], de que Adão foi formado, era vermelho”.

Num dos trechos mais belos e mais altos desse famoso sermão, Vieira explica: “O pó somos nós: ‘Quia pulvis es’; o vento é nossa vida: ‘Quia ventus est vita mea’. Deu o vento, levantou-se o pó; parou o vento, caiu. Deu o vento, eis o pó levantado; estes são os vivos. Parou o vento, eis o pó caído; os vivos pó com vento, e por isso vãos; os mortos pó sem vento, e por isso sem vaidade. Esta é a distinção, e não há outra”. Atentíssimo às palavras e à boa comunicação, o fabuloso “imperador da língua portuguesa”, como dele disse Fernando Pessoa, logo adverte: “Nem cuide alguém que é isto metáfora ou comparação, senão realidade experimentada e certa”.

Assim como o “vento” da nossa vida, que Vieira foi buscar ao livro de Jó, o Carnaval é vento que levanta desejos, estandartes e fantasias. Deu o vento: eis de pé a alegria e o sonho. Parou o vento: eis caído o pó. Esse pó tão rico que o Bloco Cinza das Horas espalha sobre o Capibaribe como quem espalha saudade nas águas da eternidade.