Young Man Reading by Jacob van Loo (1614 – 1670 Paris)

Young Man Reading by Jacob van Loo (1614 – 1670 Paris)

Na semana passada, a defesa de Bolsonaro pediu a Alexandre de Moraes pra empregar a leitura de livros para a redução da pena. Já não era sem tempo, visto ser o apenado um, até hoje oculto, leitor voraz, assim como voraz sempre foi seu apetite por miojo, golpes e mortes na pandemia da Covid-19.

Pois bem, na prisão, enquanto faz palavras cruzadas (“para evitar o Alemão do Heleno”), o “capetão”  tem pensado em reduzir a pena com muita leitura. “A leitura é uma amizade”, escreveu Proust em conhecido texto. Mas muita gente desmente o autor francês, tornando a leitura uma inimizade! Seria o caso do indigitado. Não é surpresa: em grande parte dos casos, todo  inimigo da humanidade é também um inimigo da melhor leitura. Mas Bolsonaro quer fazer as pazes com a Liberdade que tanto insultou. No caça-palavras levado pelo filho, ainda não encontrou (felizmente, no caso) a palavra “Liberdade”, muito menos “Democracia”. Por ora vai encontrando outras, como “soluço”, “cela”, “refluxo”, “queda”… Falemos sério.

Suspeito que o Bozo queira começar lendo “Memórias de um sargento de milícias”, de Manuel Antônio de Almeida. Este título, não sei bem por quê, há muito fascina o agora presidiário! Nessa mesma linha, já pediu pra ler o popular livro de Clarice: “A hora da estrela”, pois julga que se trata de algo ligado à promoção de generais.

Soube, este aprendiz de cronista, que um velho policial amigo do apenado, metido a literato, sugeriu-lhe a leitura de “Adeus às armas”, de Hemingway. “Nunca, jamais”, esbravejou Bolsonaro, batendo a cabeça nas grades e tendo, em seguida, uma crise de soluço. Não preciso dizer que ele levou para a prisão o seu livro de cabeceira, “A verdade sufocada”, do filósofo da tortura Brilhante Ustra, hoje, como ontem, um apagado autor.

A situação do voraz leitor não é fácil. Michelle e os zerados filhos já temem por sua saúde ocular e mental. Um outro mundo se descortina para ele. Contrariando-se a legislação (o que por sinal sempre lhe agrada), concedeu-se ao presidiário o benefício de escolher suas próprias leituras. Pois Bolsonaro já iniciou a lista. Optou logo por um título que lhe pareceu delicioso e inspirado: “Bonitinha, mas ordinária”. “Essa daí, pensou com entusiasmo, merece ser estuprada”. E logo soltou um soluço de gozo.

Há quem queira, num surto de moralidade pátria, que Bolsonaro leia os chamados “Intérpretes do Brasil”. Impossível. Isso, convenhamos, já é demais, é torturar o defensor da tortura. Imaginem que deu trabalho explicar a ele que “Raízes do Brasil” nada tem a ver com agricultura  e meio ambiente e que “Casa-grande & senzala” não fala da luta de classes. Ainda cismou que que Celso Furtado é um bom nome para se debater segurança pública!…

Enfim, não por acaso, o ex-presidente só fala agora em “remicção [sic] da pena”. Muitos já atribuíram a expressão a uma micção, digo, dicção, já um tanto capenga, rica em saliva. Pode ser. O fato é que é “remicção” pra lá, “remicção” pra cá. Sempre devendo se destacar que, ele, o golpista-mor, por ser supersticioso, já afastou de saída vários títulos que lhe foram sugeridos. Cito alguns por ociosa curiosidade: “Cem anos de solidão”, de García Márquez; “O improvável presidente do Brasil”, de Fernando Henrique Cardoso; “Morte súbita”, de J. K. Rowling; e, pasmem vocês, até um livro meu de pobre e triste lirismo: “O azul também se revolta” (Imagino que, por um peculiar daltonismo, ele tenha lido “vermelho” em vez de “azul”!).

Bem, enquanto a “remicção da pena” não sai de um jato, Bolsonaro vai se encharcando de títulos, como se tivesse uma incontinência bibliográfica! Por isso e muito mais, merece que se anote, no seu prontuário prisional, esta tirada do Barão de Itararé: “Sua vida pública é uma continuação da privada”!