Leonardo da Vinci’s Saint Jerome in the Wilderness (circa 1480).

Leonardo da Vinci’s Saint Jerome in the Wilderness (circa 1480).

Reflexão sobre ética, coerência e limites institucionais, a partir da ideia de que valores não se proclamam: aprendem-se e se confirmam nas escolhas feitas em momentos difíceis.

A frase de Wagner Moura ao receber o Globo de Ouro por sua atuação no filme O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, ao dedicar o prêmio àqueles que mantiveram seus valores em momentos difíceis, ultrapassa o contexto artístico e toca uma questão essencial da vida pública e da formação humana. Não é uma proclamação moralista nem um gesto retórico. É, antes, uma constatação: valores só se revelam quando são colocados à prova. Fora disso, permanecem no terreno confortável das declarações genéricas.

Em tempos de normalidade, quase todos parecem virtuosos. É na adversidade que a coerência deixa de ser abstrata e passa a ter custo. Manter valores quando eles não trazem dividendos imediatos, quando implicam perdas, isolamento ou incompreensão, é o verdadeiro teste ético; seja na arte, seja na vida pública. A homenagem recebida por um artista, nesse sentido, pode ser lida como metáfora de algo maior: o reconhecimento não de um gesto isolado, mas de uma trajetória sustentada por escolhas reiteradas ao longo do tempo.

É na cultura e na educação que os jovens começam a aprender — muitas vezes ainda sem perceber — que valores não são abstrações confortáveis, mas escolhas que envolvem limites, custos e responsabilidade pública. É nesse espaço formativo, mais vivido do que declarado, que se constrói a diferença entre convicção e conveniência e se aprende o sentido público das decisões individuais.

Essa reflexão ganha especial densidade quando deslocada para o campo da política e das instituições. O problema central do Brasil contemporâneo não é a ausência de valores, mas a forma intermitente e frequentemente instrumental com que eles são afirmados. Houve períodos recentes em que ética, transparência e a separação entre o público e o privado ocuparam o centro do discurso político, ainda que nem sempre acompanhados de práticas coerentes. Esse momento cedeu lugar a uma convivência tolerante com a relativização de princípios, marcada pela dissociação entre sua invocação solene e a disposição efetiva de respeitar limites institucionais. Isso não elimina a necessidade de falar em valores; ao contrário, torna ainda mais urgente tratá-los com seriedade, sem retórica vazia e com atenção aos limites que sustentam a vida democrática.

Valores, na vida pública, não são slogans. São freios. Funcionam como balizas que impedem que a lógica do “vale tudo” se imponha em nome de causas supostamente nobres, urgências conjunturais ou projetos pessoais. Ética institucional exige responsabilidade. Pressupõe previsibilidade, respeito às regras do jogo e aceitação dos constrangimentos próprios do Estado de Direito.

Homens e mulheres que ocupam cargos públicos não falam apenas em nome próprio. Representam instituições, tradições e expectativas coletivas. Quando relativizam valores, ainda que sob aplausos circunstanciais, não fragilizam apenas a própria imagem, mas corroem a confiança social, que é o ativo mais difícil de reconstruir. Democracias não se desfazem apenas por rupturas explícitas; enfraquecem-se também pela erosão cotidiana e gradual dos seus princípios.

O cenário político brasileiro recente tem revelado como valores podem ser instrumentalizados: ora invocados seletivamente, ora relativizados quando se tornam inconvenientes. A dificuldade de aceitar limites institucionais e a tentação recorrente de contornar regras não decorrem de desconhecimento, mas de escolhas conscientes.

Nos últimos anos, tornaram-se novamente visíveis práticas que se supunham superadas: a banalização de relações opacas entre o poder público e interesses privados; a desqualificação preventiva de órgãos de controle sempre que suas decisões se tornam inconvenientes; a relativização seletiva de denúncias, conforme a conveniência política do momento; e a erosão gradual do constrangimento institucional, substituído pela lógica de que “todos fazem”. Não se trata de episódios isolados, mas de sinais de uma cultura política que passou a tratar valores como obstáculos à ação, e não como limites civilizatórios indispensáveis ao funcionamento da democracia.

É por isso que a ideia de manter valores em momentos difíceis merece ser levada a sério. Não como virtude abstrata, mas como critério concreto de avaliação da vida pública. Tal como na arte, o reconhecimento mais duradouro não vem da adesão ao aplauso fácil, mas da fidelidade a princípios que atravessam conjunturas.

Valores democráticos não são patrimônio retórico de ninguém. São compromissos diários, silenciosos e, muitas vezes, ingratos. E é dessa coerência silenciosa, mais do que de discursos eloquentes, que depende a solidez das instituições e, em última instância, a própria qualidade da vida coletiva.

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O Acadêmico Hubert Alquéres é presidente da Câmara de Ensino Superior do Conselho Estadual de Educação de São Paulo e vice-presidente da Câmara Brasileira do Livro.