
Repressão no Irã
A ditadura teocrática iraniana promove um verdadeiro banho de sangue para conter a onda de manifestações que varre o país desde o final de dezembro. Já são mais de 2500 mortes, e o pior ainda pode estar por vir, diante do endurecimento do regime fundamentalista, que volta a recorrer à aplicação da pena de morte como instrumento de intimidação política. Erfan Soltani, de 26 anos, foi o primeiro manifestante preso e condenado, sem sequer ter direito a advogado, à pena de morte por enforcamento.
Esse instrumento medieval, que deveria ter sido banido da humanidade, voltou a ser utilizado pelo regime tirânico dos aiatolás xiitas. Já empregado em outras ondas repressivas, ele reaparece agora sob a ameaça explícita do “Chefe Supremo” do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, de enforcar rapidamente vários manifestantes presos. As centenas de cadáveres amontoados em sacos plásticos pretos compõem uma cena dantesca, que por si só revela a barbaridade do crime contra a humanidade que a ditadura vem cometendo — e em série.
A repressão revolta a opinião pública e governos comprometidos com os direitos humanos, mas é preciso uma reação mais forte da comunidade internacional e do concerto das nações democráticas, com sanções adotadas por organismos multilaterais. Torna-se urgente iniciar um movimento de isolamento do regime iraniano semelhante ao que foi imposto ao apartheid da África do Sul, que acabou absolutamente isolado, a ponto de negociar seu próprio fim e abrir caminho para a democratização do país. Sem isso, a lógica da lei do mais forte, encarnada por Donald Trump e sua ameaça de atacar o Irã, encontrará ressonância entre milhões de iranianos que, por desespero, podem apoiar uma saída que apenas agravará o problema.
O estopim imediato dos protestos foi a escalada da inflação, mas trata-se, sobretudo, de uma explosão popular contra um regime tirânico que governa o país há quase meio século. É isso que se ouve nas ruas do Irã: “Morte ao ditador” — referência direta ao líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei.
A ditadura já dura 47 anos. No início, o regime implantado após a Revolução de 1979, liderada pelo aiatolá Ruhollah Khomeini, contou com expressivo apoio popular. Rapidamente, porém, transformou-se numa autocracia feroz, marcada pela repressão sistemática e pela supressão de liberdades. O discurso antimperialista, que teve apelo na fase inicial da revolução, perdeu apoio e converteu-se em mero expediente retórico para justificar o endurecimento de um regime no qual as mulheres se tornaram suas principais vítimas.
Em 2022, o assassinato de Mahsa (Jina) Amini, sob o pretexto do uso inadequado do véu obrigatório, expôs mais uma vez a brutalidade do regime. Naquele momento, milhares de mulheres foram às ruas, queimaram seus véus e desafiaram abertamente a ordem teocrática. Ainda assim, registrou-se um silêncio constrangedor por parte da chamada esquerda global, inclusive da esquerda brasileira. Nem mesmo movimentos feministas ergueram suas vozes de forma contundente contra a ditadura xiita.
Antes da ascensão do regime clerical, o Irã caminhava para integrar o grupo das nações desenvolvidas, com renda per capita média-alta. É verdade que seu modelo de desenvolvimento era excludente e autoritário, o que forneceu base social para a Revolução de 1979.
Sob a tirania dos aiatolás, no entanto, o país regrediu. A atual crise econômica e política — a mais grave em quase meio século — é prova disso. Recursos que poderiam aliviar o sofrimento da população são desviados para o projeto nuclear iraniano, cujo objetivo central é dominar a tecnologia necessária à produção de artefatos nucleares de uso militar.
A economia permanece excessivamente dependente do petróleo e sofre os efeitos das sanções internacionais impostas justamente em razão desse programa nuclear. Enquanto países árabes como Emirados Árabes Unidos, Qatar e Arábia Saudita diversificaram e modernizaram suas economias por meio de maior inserção na economia global, o Irã dos aiatolás fechou-se ao investimento externo e manteve-se preso a uma matriz econômica ultrapassada. Quando o petróleo deixar de sustentar o país, não haverá alternativa clara de desenvolvimento. A crise atual é fruto direto desse cenário.
Além disso, a segunda grande “pauta de exportação” do Irã é a instabilidade regional. O regime financia e apoia grupos terroristas islâmicos como Hezbollah, Hamas, Houthis e Jihad Islâmica Palestina, tornando-se um fator permanente de desestabilização no Oriente Médio. Não é exagero afirmar que Benjamin Netanyahu e Ali Khamenei figuram hoje entre os principais obstáculos a uma solução pacífica para a questão palestina, baseada no reconhecimento do Estado palestino ao lado do Estado de Israel.
O caráter autoritário do regime dos aiatolás já havia se manifestado de forma explícita em 2009, quando grandes protestos — conhecidos como a “Onda Verde” — tomaram o país após a eleição presidencial que reconduziu Mahmoud Ahmadinejad ao poder com cerca de 63% dos votos.
Ampla parcela da sociedade, especialmente a classe média urbana, jovens, estudantes e mulheres, considerou o resultado fraudulento. Os candidatos derrotados, Mir-Hossein Mousavi e Mehdi Karroubi, ambos oriundos do próprio sistema islâmico, passaram a questionar oficialmente o pleito. O lema que ecoou nas ruas foi simples e direto: “Onde está meu voto?”.
A Onda Verde não foi derrotada politicamente; foi esmagada pela repressão brutal do regime, com prisões em massa, torturas sistemáticas e silenciamento da oposição.
Qualquer semelhança com o que ocorreu na “eleição” venezuelana de 2024, quando a ditadura de Nicolás Maduro fraudou um pleito vencido pela oposição, não é mera coincidência. Tampouco é coincidência que parte significativa da esquerda mundial — incluída a esquerda brasileira — tenha novamente se recolhido ao silêncio, em um gesto de solidariedade tácita a regimes autoritários.
Como é típico das ditaduras, o Irã voltou a recorrer ao expediente do “inimigo externo”: o imperialismo norte-americano, sob Donald Trump, e o governo de Benjamin Netanyahu seriam os responsáveis pelas manifestações que ameaçam encerrar a era dos aiatolás. É verdade que ambos frequentemente intervêm onde não deveriam, fortalecendo a narrativa do regime iraniano. Ainda assim, a causa dos protestos é essencialmente interna: o esgotamento de um sistema político autoritário no qual o chamado “quarto poder” — o líder supremo — se sobrepõe ao Executivo, ao Legislativo e ao Judiciário. Soma-se a isso a inflação galopante e a corrosão do poder de compra da população, agravadas pela desvalorização da moeda.
O título deste artigo pode causar estranhamento, mas se justifica. Até o momento, nenhuma voz relevante da esquerda ou do governo brasileiro manifestou preocupação clara com o banho de sangue em curso no Irã ou condenou de forma inequívoca a ditadura teocrática. Repete-se a mesma omissão que marcou, por anos, a relação do PT e de Lula com a ditadura de Nicolás Maduro.
O que explica essa relativização de valores? Em grande medida, o antiamericanismo que integra o DNA político do PT. Para não “fazer o jogo do inimigo”, prevalece a solidariedade anti-imperialista, independentemente das violações cometidas pelos regimes aliados. No caso iraniano, soma-se ainda o argumento de que criticar Teerã seria favorecer Trump e Netanyahu.
Essa flexibilização de princípios aparece também na política externa. Corretamente, o governo Lula condenou a ameaça de invasão da Venezuela por Trump como violação da soberania nacional, princípio basilar do Direito Internacional. Já no caso da Ucrânia, cuja integridade territorial foi violada pela Rússia de Vladimir Putin, esse princípio pareceu relativizado. Em vez de condenar a agressão, Lula defendeu uma solução “negociada” que implicaria a cessão de territórios ucranianos — posição que, nesse ponto, aproxima-se da de Trump.
Trata-se da consagração da lei do mais forte. Aceitar que a Rússia possa se apropriar de parte do território ucraniano abre precedente para legitimar, por exemplo, que os Estados Unidos se apropriem do petróleo venezuelano. Eis o risco embutido na relativização seletiva de princípios que deveriam ser universais.
Lula e o PT ainda podem corrigir essa rota, posicionando-se sem ambiguidades na defesa dos direitos humanos e dos valores democráticos. Poderiam, inclusive, inspirar-se no Tudeh — Partido Comunista do Irã — que inicialmente apoiou o regime dos aiatolás, mas hoje reconhece que o atual levante popular é “amplo e legítimo” e defende sua ampliação por meio da mobilização de trabalhadores, estudantes, aposentados e outros setores sociais, inclusive com a convocação de uma greve geral para derrubar o regime teocrático e abrir caminho para uma transição democrática.
Que Allah evite que nossa esquerda dê vexame!
Mas Lula e seu governo parecem ter uma compulsão por fazê-lo no cenário internacional. A nota gelatinosa e amorfa divulgada pelo Ministério das Relações Exteriores foi um acinte, tal a sua pusilanimidade. Não houve uma única vírgula capaz de provocar incômodo à ditadura iraniana. Democracia e direitos humanos foram palavras banidas do pronunciamento oficial. Chega a ser risível o “aconselhamento” do governo para que “as partes dialoguem”.
Difícil imaginar como o enforcado dialogará com o carrasco que aperta o nó da forca em seu pescoço.
Sem invalidar nenhuma das análises e conclusões do texto, faço apenas uma ressalva: não é feliz a comparação da invasão da Venezuela por Trump com a invasão da Ucrânia pela Rússia. A Ucrânia tem regiões inteiras com população russa, como a Crimeia, que foi ocupada pacificamente há mais de dez anos, e as províncias de Donetsky e Luhansky. E a única exigência pré-invasão foi a não entrada da Ucrânia na OTAN. A Venezuela não tem nenhuma população de gringos por lá. Não podemos medir os casos com a mesma medida.
BOMBARDEIOS PELA DEMOCRACIA “Analogias de ficção”, isto é, sem fundamento em dados ou consideração do contexto histórico, são um produto de exportação da retórica superficial fantasiada de jornalismo que se faz no Facebook, por exemplo. Na minha página apareceu comentarista que comparou Netanyahu e Maria Corina Machado, para afirmar que aquele teria mais habilidade pessoal que esta em agradar Trump! Aqui, mesmo sendo entre dois países petroleiros, a analogia é espúria, ao ignorar solenemente qualquer consideração de geopolítica e de geoeconomia. É usada primordialmente para atacar o Presidente da República Federativa do Brasil.
À esquerda e à direita há gente que perde a lucidez política porque tem horror político a Lula equivalente ao seu horror a Bolsonaro, esquecendo por momentos que os efeitos das políticas de um e outro não são equivalentes, dentro e fora do Brasil. Ora, a tal “esquerda” – qualquer que seja a noção de “esquerda” de Canuto – tem sido consistente na crítica às teocracias e ao trato da mulher no islamismo radical. Houve sim, uma “esquerda” que hesitou em apoiar os recentes protestos anti-governo no Irã, porque quem andou bombardeando o Irã estes dias foram Netanyahu e Trump. Desgraçadamente, nas condições geopolíticas atuais, bradar daqui de longe conta o governo no Irã aparecia como aprovar os bombardeios de Netanyahu e Trump. Então a opção – pelo menos para mim foi assim – foi deixar que os iranianos cuidem eles próprios de seu governo. Seria mais vergonhoso ainda subordinar geopolítica à gangorra bolsonarismo/lulopetismo. Interferência externa arrisca até trazer ainda menos democracia. Como, aliás, parece estar acontecendo em Caracas.
Entender o ressentimento do Irâ contra os Estados Unidos e a política nuclear do Irã como exemplo de que “ditaduras sempre acham um inimigo externo como pretexto” prova apenas desconhecimento de história. Nem todos os povos “esquecem” tão facilmente quanto os brasileiros. Em 1953, o governo legitimamente eleito do Primeiro Ministro Mohmmed Mossadegh foi derrubado por um golpe preparado pela CIA junto com o serviço secreto birtânico , que reinstalou o xá Reza Pahlevi. O xá do Irã fez reformas pró-Ocidente e chegou a ser popular no início, mas tornou-se um ditador famoso por sua polícia secreta treinada pelos Estados Unidos. A ditadura pró-americana do xá foi derrubada pela Revolução Islâmica de 1979. Alguém lembra da crise dos reféns? Deu filme. Argo, de Bem Affek. A Revolução Islâmica acabou com 26 anos de influência americana no Irã. Que Trump acha que pode restabelecer com bombardeios.