Narciso

Narciso

O que será de um modesto num mundo cercado de esnobes e narcisistas? A modéstia, ao que parece, nunca esteve tão “à parte”. No momento, os especialistas, aliás não indo muito além do óbvio, dizem-nos que as redes sociais favoreceram o narcisismo. Por sua natureza, o narcisismo leva naturalmente à imodéstia, passa dos limites do razoável. É um descentramento que tende a ser inconveniente nas relações sociais e que, no limite, numa condição patológica, mostra-se frio e indiferente. Ocorre que vivemos uma epidemia de narcisismo.

“Modéstia” vem do latim “modestia”, que remete a “modus”, que, por sua vez, tem a ver com “limites, medida e moderação”. É uma prima próxima da sobriedade. Sem ela, é como se tivéssemos perdido limites e medidas, o que bem se reflete no momento político de novos napoleões. Ao modesto, a modéstia pode levar a um paradoxo percebido pelo escritor francês Ernest Renan: “É dificílimo provar que se é modesto, pois, desde que se diz sê-lo, deixa-se de sê-lo”. Haverá, por isso, abrigados nos egos, modestos orgulhosíssimos de sua modéstia; em sua discrição, guardariam montanhas de uma vaidade jamais mensurada.

  1. M. Thackeray, a certa altura, do seu pioneiro “O livro dos esnobes escrito por um deles”, após fazer várias distinções de tipos de esnobismo, equaciona-o concisamente à “mundanidade”. Fiquemos com essa equação. Marcel Proust, seu póstero ainda próximo (o britânico faleceu em 1863, e o francês nasce em 1871), debruça-se sobre a mundanidade em seu hoje clássico “Em busca do tempo perdido”. Pois bem, Proust talvez possa nos ajudar a entender melhor essa a relação entre esnobes e modestos, sendo sabido que ele via o esnobismo como um mal menor, localizado, que não chegava a perturbar o resto da personalidade.

O que Proust aponta num de seus mais curiosos personagens secundários, Saniette, revela-se verdadeiro e até facilmente comprovável na vida social, esse “reino do nada” como diz o próprio narrador. Cercado por esnobes, à exceção de um discreto e sereno Marcel, que nos narra um caricato e protocolar mundo aristocrático-burguês, Saniette é “um velho arquivista [que] tinha maneiras tão humildes que [os frequentadores do salão] sempre tinham acreditado que ele fosse de um nível social inferior, não se dando conta de que ele pertencia a um mundo rico e relativamente aristocrático”. Naturalmente, a modéstia de Saniette é apenas uma faceta da personagem, que é mais complexo do que sua desajeitada amabilidade nos faz crer.

Penso ser comum que tal equívoco “à la Saniette” aconteça com frequência. Ocorre, sim, que a modéstia distorce ou confunde, na vida mundana, a própria identidade social, senão mesmo a identidade moral. Os modestos em geral mal se dão conta da falsa leitura que se pode fazer deles. Por seu lado, o esnobismo, além de perpassar todas as classes sociais, como apontou Thackeray, também leva a certos equívocos de identidade psicológica; apenas revela uma subterrânea insegurança, considerando a sua pretensa autoridade de que pode dizer uma espécie de última palavra e, portanto, que está “acima”, “além” e “distinto”.

Quanto à modéstia, ela leva a uma certa invisibilidade num mundo em que ser é sobretudo parecer. Todavia, para o bem ou para o mal, as aparências devem ser consideradas (o sociólogo Jean-François Amadieu e a filósofa Barbara Carnevali, dentre outros, dedicaram-se ao tema), e é disso que Proust nos dá o exemplo ao contrastar as “maneiras humildes” de Saniette com sua verdadeira identidade social. Quanto à conhecida falsa modéstia, que, aliás, é quase sempre reconhecível, não passa obviamente de um cálculo, e é uma espécie de esnobismo que se recusa a sê-lo (aliás, como Proust o “estuda” noutra personagem de segundo escalão: Legrandin).

À parte a real modéstia radicada numa psicologia natural e própria, quero dizer, num temperamento, talvez seja importante lembrar uma modéstia que, à falta de melhor termo, podemos chamar de “pascaliana”, à qual se chega pelo conhecimento da miséria da condição humana e pelo desgosto existencial. Pascal provavelmente conhecia um verso de Eurípedes realçado por Montaigne (“Ensaios” I, cap. 25), que diz severamente: “Odeio o sábio que não é sábio para si mesmo”. Essa modéstia pascaliana requer que o sábio seja de fato sábio para si mesmo, o que, no caso, significa que  cada um também seja sabiamente modesto para si mesmo. Assim, a modéstia não é mais uma postura moral ou psicológica e, de certa forma, não é mais uma “virtude” ou uma pose social: é uma atitude prática e realista, quase cosmológica, diante da existência. Não preciso dizer que essa é a melhor e mais substantiva modéstia, mas decerto a menos encontrada.