São Tomás

São Tomás


(Reflexão para depois da missa)

“O pai é o princípio ativo; a mãe, o passivo.” — São Tomás de Aquino

Não é preciso ser teólogo para percebê-lo: em mais de dois mil anos de história cristã, nenhuma mulher pôde celebrar a missa. A simples constatação desse fato — que uma freira, por mais devota e sábia que seja, não pode consagrar a hóstia — revela um padrão estrutural de exclusão.

O cristianismo, em sua forma institucional, não apenas impôs limites à participação feminina: ergueu uma ontologia — uma visão do ser — na qual a mulher ocupa um lugar subordinado. Não se trata de uma questão de costume ou tradição; trata-se de uma arquitetura teológica cuidadosamente construída sobre a ideia de que o masculino encarna a forma e o feminino, a matéria.

Nessa visão, a mulher é receptáculo, não princípio. Matéria que recebe forma, não forma que se dá a si mesma.

Por trás dessa ordem simbólica encontra-se um dos pensadores mais influentes da história: São Tomás de Aquino. Sua monumental Metafísica, inspirada em Aristóteles, foi durante séculos o alicerce intelectual da Igreja Católica. Nela, tudo o que foi criado participa de dois princípios: ato e potência. Somente Deus é actus purus — pura atualidade, sem possibilidade de mudança —, enquanto os seres humanos, em diferentes graus, combinam ambos os aspectos.

E assim surge a hierarquia: quanto mais passivo é um ser, mais distante da divindade; quanto mais ativo, mais semelhante a Deus. Dessa estrutura deriva-se a sentença que marcaria toda uma civilização: “O homem é superior à mulher, porque o pai é o princípio ativo, enquanto a mãe é um princípio passivo e material.”

Nessa frase condensa-se o pensamento patriarcal mais duradouro do Ocidente. A biologia transforma-se em teologia. O corpo, em destino.

Aristóteles, em sua Física, havia afirmado que o princípio masculino “dá forma” ao feminino, que é “matéria amorfa”. Tomás de Aquino cristianizou essa visão, integrando-a ao relato bíblico da criação: Adão, moldado diretamente por Deus, é forma divina; Eva, surgida de seu lado, é matéria derivada.

Assim, o pensamento aristotélico tornou-se dogma, e o dogma, cultura. O resultado foi um modelo social em que o homem representa a razão, a autoridade e o espírito, enquanto a mulher encarna o corpo, a obediência e a natureza.
A Igreja institucionalizou essa hierarquia. Não apenas por meio de seus textos, mas também em seus ritos, em sua linguagem e em sua liturgia. O altar tornou-se um limite simbólico: território masculino de mediação entre o céu e a terra.

Em termos modernos: o machismo cristão não nasceu da má vontade dos homens, mas de uma cosmovisão na qual o feminino foi identificado com a matéria e, portanto, com a imperfeição.
Esse pensamento, para além dos claustros e das catedrais, moldou toda a cultura ocidental: da linguagem às leis, da educação à moral. O “natural” era que a mulher obedecesse; o “divino”, que o homem guiasse.

Podemos pensar que tudo isso pertence ao passado, mas seus ecos persistem. A recusa do Vaticano em ordenar sacerdotisas, a linguagem exclusivamente masculina das Escrituras, a imagem de uma divindade concebida como “Pai” onipotente — todos são vestígios dessa antiga hierarquia metafísica.

Mesmo em sociedades laicas, essas estruturas simbólicas continuam ativas. As palavras “pai”, “autor”, “dono”, “senhor” conservam um peso histórico que naturaliza o poder masculino. Desmontar esse imaginário não significa renegar a fé, mas revisar criticamente os alicerces sobre os quais se construiu nossa ideia do sagrado. Pois, se Deus é amor, e o amor não hierarquiza, então o princípio ativo e o passivo devem reconciliar-se, não competir.

Hoje, quando os discursos feministas reivindicam não apenas direitos, mas reparação simbólica, é urgente olhar para as raízes espirituais do machismo. A mudança cultural não será completa enquanto o templo — símbolo da alma coletiva — continuar erguido sobre um paradigma de subordinação.

Revisar a herança tomista e a teologia patriarcal não é um exercício anticristão; ao contrário, é um ato de fé madura. Porque a verdadeira fé não teme a razão, e a verdadeira razão não teme o amor.

Talvez tenha chegado o momento de um novo giro teológico: um em que o feminino não seja a “matéria” à qual se dá forma, mas a metade essencial do espírito que dá vida.
No fundo, reconhecer a igualdade não é uma concessão moderna; é uma restauração do equilíbrio original. Talvez, só então, a Igreja volte a ser aquilo que diz ser: um espaço em que todos — homens e mulheres — possam elevar sua voz diante do divino sem necessidade de pedir permissão.