
Bad Bunny
A América somos todos nós que habitamos este continente complexo, múltiplo e diversificado, predominantemente latino e mestiço, que vai do Chile ao Canadá, incluindo até os Estados Unidos. Os Estados Unidos podem ser o país maior, o mais rico e mais poderoso, mas é apenas um dos muitos países que formam este grande continente de um bilhão de habitantes. Esta foi a mensagem do pop star Bad Bunny, carregando a bandeira de todos os países da América no espetáculo musical apresentado durante o intervalo da final do campeonato de futebol americano (Super Bowl), domingo, em Santa Clara, California. Simbolicamente, o cantor porto-riquenho resgatou a América das mãos odiosas do supremacista anglo-saxão que preside os Estados Unidos e que, a partir de Washington, pretende subjugar o resto do continente e está provocando o desequilíbrio geopolítico e a desconfiança nas regras de convivência das nações.
Cantando em espanhol no ritmo latino para um público vibrante de aficionados pelo principal esporte dos Estados Unidos, Bad Bunny criticou a política migratória do presidente Donald Trump, a perversa e violenta perseguição de imigrantes, tão americanos quanto ele e milhões de descendente de imigrantes que formaram a nação. Como escreveu o editorial do El Pais, “a memorável atuação do cantor na Super Bowl golpeou o coração da xenofobia trumpista”.
Mesmo os Estados Unidos de Trump estão muito longe de ser uma nação homogênea na língua e na cultura, com uma população de origem latina, que representa 20% do total dos seus habitantes, integrada à vida econômica e política do país e contribuindo para a diversidade cultural. O trumpismo ignora a complexidade da sociedade estadunidense e se levanta com o desprezo racista contra a latinidade que enriquece a própria nação. Ao mesmo tempo e com o mesmo desprezo pelo resto do continente, ele está empenhado em dominar e explorar o restante dos países da América em favor dos Estados Unidos. Quando ele diz “América first” ele está pensando “United States first” porque para ele e, na verdade, para a maioria dos estadunidenses, a América são eles. Bad Bunny nos lembra e diz para Trump que a América somos todos os nós, 35 países e 18 territórios independentes onde se fala espanhol, inglês, português, francês, holandês e muitas línguas nativas.
O escritor e jornalista espanhol Jesús Ruiz Mantilla resumiu bem o impacto do espetáculo do cantor porto-riquenho num momento marcado pela vergonhosa submissão e leniência de governos e lideranças políticas mundiais às barbaridades de Trump: “Depois de mais de um ano de impotência acorrentada, de frustração contínua, de abaixar a cabeça diante da humilhação completa e sistemática desse retorno do fascismo e seu desfile global diante dos nossos olhos, a resistência começa a se armar e explodiu em raiva e alegria ao ritmo dos ritmos latinos”. Nós somos a América.
Que lindo o Editorial! Por um breve momento Bad Bunny (Conejo Malo?!) deixou a gente de alma lavada.
A mídia tradicional deveria de falar nos estadunidenses como se fossem os únicos americanos. Isso remete a dizer que a América seria apenas os EUA e nós latinos rziz seríamos simplesmente um povo aculturado, desprovidos de consciência política e capacidade crítica.