José Álvaro Moisés foi um daqueles brasileiros que deixam marca indelével em sua passagem pela Terra. Desde a juventude, quando foi presidente da União Paulista dos Estudantes Secundaristas, vinculou-se às boas causas. Eram os idos do pré-1964. O compromisso com a democracia estava em seu DNA.

Nos últimos anos, preocupava-se profundamente com a qualidade da democracia brasileira, vendo no voto distrital misto e em um sistema semipresidencialista, como o da França e de Portugal, a possibilidade de termos um sistema político mais racional e mais resiliente ao patrimonialismo e ao clientelismo que tanto contaminam a vida política nacional.

Há uma fase da vida política de José Álvaro Moisés que poucos conhecem. Ele foi militante da organização Ação Popular até o início de 1968, quando já era jornalista da Folha. Intelectual de formação sólida, transformou-se em referência na ciência política brasileira. Formaria uma grande parceria intelectual e política com Francisco Weffort. Ambos tiveram papel de destaque na fundação do Partido dos Trabalhadores, com contribuições importantes para a formulação política do PT que surgia na cena nacional.

De maneira especial, Moisés empenhou-se na aproximação do Partido dos Trabalhadores com a social-democracia europeia. Pode-se dizer que ele e Weffort representavam a corrente verdadeiramente social-democrata na formação do PT. Essa visão mais “europeia”, próxima também do pensamento inovador dos chamados eurocomunistas italianos, ia na direção contrária de outras correntes do partido, mais presas a uma visão ortodoxa e terceiro-mundista.

O choque de opiniões afloraria com a vitória de Fernando Henrique em 1994. Formalmente, o Partido dos Trabalhadores posicionou-se no campo da oposição ao governo FHC. Weffort e Moisés entendiam que o novo governo era democrático e progressista; portanto, não fazia sentido opor-se a ele.

A divergência levaria à ruptura com o PT, com Francisco Weffort participando do governo FHC como ministro da Cultura e seu amigo Moisés como secretário de Política Cultural da pasta.

A morte de Moisés interrompeu sua última obra. Ele organizava um livro sobre Weffort e sua contribuição para a ciência política brasileira. Solicitou à sua grande amiga e parceira intelectual Lourdes Sola um artigo sobre o pensamento político de Weffort. Não houve tempo para que ela o preparasse. Perdemos Moisés abruptamente.

José Álvaro Moisés foi um intelectual orgânico da democracia, no melhor sentido da definição de Gramsci, com imensa capacidade de organizar e fortalecer uma visão de mundo democrática, unindo formulação teórica e práxis.

Sou testemunha de sua última preocupação política. Na semana passada, falamos por telefone. Ele estava apreensivo com os rumos que a candidatura Lula sinalizava seguir. Concordamos que a esquerda estava caindo na armadilha de reduzir a disputa presidencial a um confronto entre esquerda e direita, em clima de guerra. Moisés considerava mais adequado adotar uma estratégia semelhante à utilizada por António José Seguro, pautada na moderação e na condução da eleição portuguesa como um embate entre moderados das mais variadas matizes — esquerda, centro e centro-direita — e extremistas.

Informou-me que esse também era o pensamento do movimento Direitos Já. Ficamos de nos encontrar logo após o Carnaval. Esse era Moisés: um animal político com sólida formação intelectual e moral.

Todos nós nos sentimos órfãos com sua perda.