Paul Lafargue

Paul Lafargue

(ainda sobre a jornada de trabalho)

“Direito à preguiça” é o título de um livro do socialista franco-cubano Paul Lafargue, publicado em 1880, no qual o autor defendia a ampliação do tempo livre da classe operária, esmagada por jornadas longas e extenuantes. Na época, a jornada de trabalho na França era de 12 horas diárias, podendo se estender até 17 horas, e o movimento operário mobilizava-se pelo direito ao trabalho, único meio de obtenção de renda. Lafargue questionava essa bandeira e refutava o discurso dominante que concebia o trabalho como algo dignificante e benéfico: “o amor pelo trabalho, a paixão moribunda pelo trabalho, levada até à exaustão das forças vitais do indivíduo e de sua prole”.

Para ele, o movimento socialista deveria mobilizar-se pelo direito ao tempo livre, não pelo direito ao trabalho — ou seja, lutar por menos horas dedicadas ao labor para permitir tempo à vida social e cultural, ao descanso, ao prazer humano e à criatividade. Lafargue faz o elogio da preguiça como provocação intelectual, pois não pensa o tempo livre como mero ócio, embora este possa conter o dolce far niente.

Refletindo sobre os avanços tecnológicos da época — ainda incipientes —, Lafargue entendia que o tempo de trabalho diário poderia limitar-se a três horas, cabendo às máquinas libertar o operário do esforço produtivo. Dois anos após a publicação de O Direito à Preguiça, de forma politicamente pragmática, passou a defender a redução da jornada para oito horas, proposta assumida pela Internacional Socialista no Congresso de Genebra (1886), conquista que só se consolidaria após a Primeira Guerra Mundial (1919). Evidentemente, Lafargue considerava que o padrão de consumo da época poderia ser atendido com poucas horas de trabalho diário, convertendo os ganhos de produtividade em redução do tempo necessário de trabalho.

Quase cem anos depois, foi lançado na França outro livro impactante, intitulado Travailler deux heures par jour (Adret, 1977), defendendo, como expresso no título, a redução drástica da jornada para apenas duas horas diárias. A obra procura demonstrar essa viabilidade por meio de mudanças estruturais, entre as quais se destacam o aumento da produtividade — impulsionado pelos avanços tecnológicos — e a redução do nível de consumo e do desperdício da sociedade, contendo o “consumo conspícuo” decorrente das desigualdades sociais e o desperdício alimentado por campanhas publicitárias que persuadem as pessoas a comprar o que não precisam.

A definição da jornada de trabalho, em cada momento histórico, é uma decisão política — resultado da disputa em torno da distribuição social dos ganhos de produtividade: mais produção e acumulação ou mais tempo livre. Essa decisão envolve duas variáveis centrais: produtividade e padrão de consumo. Ao longo dos últimos duzentos anos, e de forma mais intensa após a Segunda Guerra Mundial, houve significativo crescimento da produtividade do trabalho, que permitiria a redução das horas trabalhadas. Contudo, tal crescimento foi acompanhado pela expansão, diversificação e sofisticação do consumo, exigindo maior produção e dificultando a ampliação do tempo livre.

O “direito à preguiça” voltou a ganhar destaque no início deste século com o sociólogo italiano Domenico De Masi e sua ideia de “ócio criativo”, título de seu livro publicado em 2000. De Masi rejeita a separação mecânica entre trabalho e descanso. Para ele, na sociedade contemporânea, o valor reside nas ideias e na criatividade, que florescem no tempo livre — recurso precioso para o desenvolvimento intelectual e espiritual. Assim, trabalhar menos, em termos de horas rígidas, pode significar produzir mais e melhor, pois o ócio criativo eleva a produtividade por meio da inovação.

Como Lafargue, De Masi entende que o desenvolvimento tecnológico pode ser utilizado para “superar a escravidão do trabalho”. Isso, entretanto, depende da capacidade de usar o tempo livre em atividades que unam aprendizagem, prazer e criação de valor. Em grande medida, segundo o sociólogo italiano, na sociedade pós-industrial a fronteira entre trabalho e liberdade tende a se dissolver, à medida que as pessoas trabalham enquanto se divertem e aprendem enquanto descansam.

Para o debate atual no Brasil sobre a redução da jornada de trabalho, duas lições podem ser extraídas dessas reflexões: a necessidade de um esforço conjunto — governo e empresariado — para elevar significativamente a produtividade, o que depende da qualidade da educação, da formação profissional e da inovação; e a diminuição da concentração de renda, reduzindo o consumo conspícuo e compulsivo que pressiona a produção excessiva. O Brasil atual vive um paradoxo: o consumo de luxo e o desperdício crescem sem que a produtividade do trabalho avance na mesma proporção.