
Na década dos setenta, costumava passar em frente à Escola de Samba Estação Primeira da Mangueira, no trajeto diário de ida e volta do bairro de Riachuelo, onde residia, até a Ilha de Fundão (UFRJ), onde trabalhava. Já no primeiro ano morando na Cidade Maravilhosa assistia ensaios na quadra da “Verde e Rosa” para conhecer in locu uma das mais tradicionais escolas de samba carioca. Lembro da alegria dos mangueirense quando a “voz imortal” de Jamelão “puxava” o samba-enredo do ano. Após as necessárias repetições para que todos memorizassem os longos versos e entoassem entusiasticamente o refrão, seguiam-se sambas de outros carnavais.
Eram intercalados momentos exclusivamente rítmicos, quando algum grupo de instrumentos (tamborins, repiques, chocalhos, cuicas, caixas, surdos etc.) eram realçados até voltarem a ecoar todos juntos. Essa imponente orquestra de percussão era regida por um altivo Mestre que se valia do apito e de uma vigorosa gesticulação para indicar as nuances sonoras, “paradinhas” e sutis mudanças no andamento sem “atravessar” o samba-enredo. Nessas ocasiões, a performance exuberante da rainha da Bateria contrastava com a distinta evolução da Porta Bandeira e a elegante coreografia da Ala das Baianas. Essa dinâmica intermitente energizava a todos, enquanto a “história cantada” era repetida até a sua plena assimilação de acordo com o enredo. Cabe assinalar que o escopo de um ensaio está além de uma mera capacitação técnica, pois também se trata de uma experiência emocional para o que deve acontecer na avenida no único dia do desfile triunfante.
Passados os anos, muitas coisas mudaram na forma como são planejados e realizados os seus espetaculares desfiles. Contudo, praticamente todas as agremiações do Grupo Especial continuam sendo diretamente controladas por patronos ligados à cúpula da contravenção do secular jogo do bicho. Sem o suporte administrativo e financeiro desses “bicheiros mecenas” dificilmente persistiria o chamado Maior Espetáculo da Terra, bem como a extraordinária engenharia social que lhe dá suporte. O atual presidente da Liga Independente das Escolas de Samba (LIESA), Gabriel David é filho de Anísio Abrão David (Beija Flor de Nilópolis), e o diretor executivo é João Felipe Drumond, filho de Luizinho Drumond (Imperatriz Leopoldinense), ambos herdeiros de dois expoentes do jogo do bicho carioca.
Em torno dessa complexa engrenagem carnavalesca orbita uma miríade de centros de lucros relacionados a inúmeros setores do comercio, indústria e serviços. Neste ano, a dimensão simbólica da arena política-eleitoral estará bem mais reluzente no Sambódromo da Marquês de Sapucaí. Lá se vai quase um século, desde que um governante no poder, Getúlio Vargas, o pai dos pobres, foi festejado no Carnaval carioca de 1932 e nos anos setenta o regime militar foi cortejado em quatro enredos. Este ano o desfile do Grupo Especial no Sambódromo será aberto em meio a uma acirrada disputa política e judicial que envolve a estreante Grêmio Recreativo Escola de Samba Acadêmicos de Niterói, que decidiu homenagear o atual Presidente da República com o enredo Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil.
Segundo a LIESA, o Grupo Especial dispõe de um total de aproximadamente 162 milhões de reais, rateados igualmente pelas 12 agremiações (13,5 milhões cada) para o Carnaval deste ano. Desse valor, cerca de 84 milhões vêm de patrocinadores privados, da venda de ingressos, das receitas que as próprias escolas geram para elas mesmas. O restante é originário do poder público, dividido entre Estado (40 milhões), Município (26 milhões) e o Governo Federal (12 milhões). Esse apoio do governo federal, por meio da Embratur, motivou uma petição protocolada pelo partido Novo no Tribunal de Contas da União (TCU), para suspender o repasse de 1 milhão de reais correspondente à Acadêmicos de Niterói. Um auditor técnico do tribunal apontou “indícios de afronta aos princípios da impessoalidade e da moralidade com possível direcionamento de recursos públicos para a prática de promoção pessoal de autoridade pública, agravado pelo fato de que o homenageado deve concorrer à Presidência da República”. Contudo, o pedido foi definitivamente negado pelo ministro do TCU Aroldo Cedraz, entendendo que “os recursos decorrem de um termo de cooperação voltado a ampliar a visibilidade internacional do Brasil como destino turístico”.
De outra parte, duas ações populares formuladas por parlamentares da oposição contra o desfile da Acadêmicos não foram atendidas pela Justiça Federal. Em uma delas o juiz esclareceu que questionamentos relativos à propaganda eleitoral antecipada deveriam ser levados ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Um processo semelhante, movido por um vereador, foi negado pela Justiça do Estado do Rio de Janeiro. O parlamentar pedia que a 5ª Vara Cível da Comarca de Niterói determinasse a devolução dos R$ 4 milhões de subvenção pagos pela Prefeitura da cidade àquela Escola de Samba. A judicialização desse assunto ainda teve sequência, com uma ação no TSE em que o partido Novo acusa o Presidente da República de promover propaganda eleitoral antecipada. Nessa representação, o Novo pede que seja “proibida a realização do desfile e vete qualquer uso de imagens, sons ou trechos da música em materiais de campanha”. A representação ressalta que “o presidente de honra da escola, Anderson Pipico, é vereador em Niterói pelo PT, o que afasta qualquer alegação de neutralidade artística na escolha do enredo”.
De mais a mais, um ponto crucial dessa polêmica interminável está na letra do samba-enredo da Acadêmicos de Niterói. O foco da discórdia está em algumas “frases de efeito”, em “determinado número” citado duas vezes e o uso de “palavras-chave” análogas às utilizadas em propagandas difundidas pelo Partido dos Trabalhadores ou em publicidades governamentais chanceladas pelo Ministério das Comunicações. Vejamos alguns trechos desse controverso samba:
Vai passar nessa Avenida mais um samba popular
Olê, olê, olê, olá, Lula! Lula!
Eu vi brilhar a estrela de um país
……………………………………………………..
Pro destino retirante te levei, Luiz Inácio
Por ironia, 13 noites, 13 dias
……………………………………………………..
Da esquerda de Deus Pai, da luta sindical
À liderança mundial
……………………………………………………..
Sem temer tarifas e sanções
Assim que se firma a soberania
Sem mitos falsos, sem anistia
……………………………………………………..
Nosso sobrenome é Brasil da Silva
Vale uma nação, vale um grande enredo
À margem da disputa judicial em curso, a primeira-dama Rosângela da Silva, acompanhada pela ministra da Igualdade Racial, participou do último ensaio da Acadêmicos de Niterói no Sambódromo. Ela vai desfilar em um carro alegórico, porém o presidente Luiz Inacio da Silva, deverá assistir ao espetáculo no camarote do prefeito do Rio, uma vez que sua eventual presença no camarote da LIESA geraria comentários desairosos. De todo modo, o desfile das Escolas do Grupo Especial será um grandioso espetáculo, onde veremos a arte e a política encontrando-se na avenida. Vale a pena assistir e aguardar, na terça-feira, a apuração das notas do desfile. Quando do anúncio das notas da categoriasamba-enredo, se for lido Acadêmicos de Niterói, Nota 10!, os “acadêmicos” comemorarão apoteoticamente em dobro.
Acho que vou mudar de lado. No Brasil de hoje, ser de esquerda não nos impede de nada. E não somos responsáveis por nada. Que beleza.. É Carnaval. No Brasil de hoje, durante todo o ano é carnaval… Pelo menos para os poderosos do PT.
Nobre professor, vc conseguiu ir do lírico feliz, na época que as escolas de samba, eram simplesmente amor e paixão a sua bandeira, entrando nos bastidores do sub mundo e chegando a imoralidade da política destruindo o esplendor das Escolas de Samba.
Parabéns
A população perde
Mais um desmando de um governo que não segue regras, cria regras em causa própria, joga fora o dinheiro do contribuinte para coisas supérfluas mas que os beneficie.
Muito triste ver que estamos caminhando para um caos cada vez maior, se é que isso ainda é possível!
Parabéns pelo artigo, muito apropriado e bem escrito como sempre!
Belíssimo texto! Sóbrio, sem redundâncias! A riqueza de informação e detalhes do Carnaval carioca me surpreendeu como especialidade de um autor paraibano radicado em Recife, Pernambuco. O leitor que acompanhou os termos pesados da crítica nas redes sociais sobre o fato vai admirar aqui a discrição – sim, o autor foi comedido! – das referências à baixa política, ao caráter exaltatório e extemporâneo do tema, samba-enredo e da estética do desfile da Acadêmicos de Niterói. Mas deve, nesse ponto, fartar-se com a fina ironia do último período…
Será está de parabéns!
O artigo é bom pela seriedade com que dá os detalhes factuais. As opiniões que saem do espetáculo e das letras de música podem ser discutidas por quem quiser, contra ou a favor. Óbvio que os bolsonaistas estão tratando de explorar na campanha eleitoral, claro que não gostaram do palhaço Bozo desfilando enjaulado, nem das latinhas, e claro que nessa hora esquecem que manipulação eleitoreira também é o que fazem muitos dos templos evangélicos (e não pagam impostos, o que é subvenção também). O artigo diz que o dinheiro federal foi distribuído em porções iguais por todas as escolas. Então o enredo não veio por causa de recebimento de verba pública, pelo menos no que se refere a verba federal.
Bem lembrado, Helga. O fato é que os sambistas deram o seu recado, sem infringir a legislação eleitoral, que é bem explícita na definição do que seria propaganda eleitoral irregular. Isso apesar da edição enviesada do noticiário da Globo, que omitiu a presença e a participação até de pessoas do seu elenco de atores.