Era 18 de novembro de 1922, um sábado. Não um sábado qualquer, mas aquele em que, por volta das seis da tarde, morria o maior escritor do século: Marcel Proust. Aos 51 anos, vítima de uma broncopneumonia, falecia sem ter conhecido a velhice, em sua opinião “a maior miséria dos homens”. No dia seguinte, na primeira página, o “Le Figaro”, para o qual tantas vezes colaborou, registrava com a linguagem dos obituários da época: “O senhor Marcel Proust morreu ontem, às seis da tarde, com a idade de 51 anos. Sua saúde, instável desde tantos anos, dava há algumas semanas as mais vivas inquietudes. Elas eram, lamentavelmente, justificadas […] Este grande escritor que deu um tom tão novo ao romance francês, de par com as mais altas tradições de nossa literatura, projetou clarões  fulgurantes na história das sensibilidades contemporâneas […]”. Como se sabe, Proust morreria sem ver inteiramente publicado seu longo romance “Em busca do tempo perdido”. Morrera trabalhando nas provas de “A prisioneira”, o antepenúltimo volume.

Já consagrado pelo “Prêmio Goncourt” em 1919 e tendo despertado o interesse da melhor crítica europeia, em particular na Inglaterra e na Alemanha, Proust deixava atrás de si um legado inexcedível. Mas também deixava vários enigmas. Um deles, de certa forma, é a sua morte.

Terá sido a morte de Proust, numa perspectiva psicanalítica, a morte de seu próprio desejo? Penso que sim. Ele deixou-se morrer, praticando uma espécie de ortotanásia. Os dias e as horas finais, de amplo conhecimento comum, apontam que ele evitou medicar-se e seguir ordens médicas. Um de seus biógrafos, Roger Duchêne, na alentada biografia “O impossível Marcel Proust” (“L’impossible Marcel Proust”), não por acaso, intitulou assim o penúltimo capítulo de seu livro: “Uma morte voluntária?”.

Sim, penso que Proust evitou a cura como se cumprisse uma demanda do seu inconsciente. Mas isso há de ser confrontado, paradoxalmente, com um certo desejo de viver. Como se sabe, ele confessa à sua governanta, Celeste Albaret, que vai dispensar os médicos. Pretende que será “mais médico que os médicos” e deseja infantilmente a cura para suplantá-los. Minha hipótese é de que, nessa hora dramática, os conflitos inerentes ao Complexo de Édipo ressurgem e respondem por alguns de seus gestos finais.

Instalado numa terrível e derradeira contradição, Proust, a um só tempo, entrega-se à morte e mantém um curioso flerte com a vida. É isso o que se faz presente na última cena de sua vida, o que dá um novo protagonismo às suas questões edipianas, só acalmadas ao escrever a “Busca”. Não sem razão, o psicanalista e escritor francês Michel Schneider pontua e prova, em “Mamãe” (“Maman”), que “Em busca do tempo perdido” é igualmente uma espécie de longa carta à própria mãe. Como apontarei a seguir, são ainda os seus impasses edipianos que surpreendem Proust na vulnerabilidade da despedida.

Sob um ponto de vista meramente factual, na hora da morte, o escritor, filho e irmão de dois notáveis médicos franceses, luta contra os médicos, recusa-os (e quem não se lembra o quanto os ironizou em sua obra?). Ora, um desses médicos não é outro senão o afamado irmão Robert Proust. Num nível psíquico mais profundo, Robert encarna fantasmaticamente o pai de ambos, então já falecido, o grande epidemiologista Adrien Proust, assombrando o enfermo com uma derradeira intervenção. Proust, então, proíbe-o rispidamente de se aproximar de seu leito de enfermo, o que será desobedecido… Mas os médicos, em especial Robert, são figurações do único médico crucial para o seu inconsciente, o pai, isto é, o homem que se interpôs entre o menino e sua mãe, à qual foi, até a morte desta, “umbilicalmente” ligado. Enfim, reeditando o drama familiar do Complexo de Édipo, sua luta final é contra o pai, ou seja, a mesma luta travada na infância quando afastar-se da mãe ou não ter seu beijo de boa-noite era infinitamente perdê-la. Agora, Marcel vai dormir cedo novamente…

Calado, inicialmente, pela broncopneumonia e, em seguida, pela própria morte, o escritor volta a ser um “infante” (aquele “que não fala”, conforme a etimologia), destinado, já sem a interdição paterna, a voltar à mãe. A morte aqui, como diria o psicanalista Otto Rank, é um regresso a essa mãe.

Se “Em busca do tempo perdido” é uma longa e concluída carta à mãe, como o sugere Schneider, ao pôr a palavra “fim” na imensa obra, como disse a Celeste, Proust não tem mais o que dizer… Obra e vida se confundem e são, por assim dizer, páginas viradas. A morte parece ser o natural corolário à tarefa de ter “traduzido” a vida em literatura. Enfim, Proust, “esvaziado” e martirizado, não tinha outra saída a não ser a morte. Todavia, mais uma vez, foi preciso aplacar o conflito edipiano que ressurge.

Como se vê, a cena final é uma fonte de signos analíticos, remetendo ainda ao beijo materno da origem (Cf. “No caminho de Swann”) e ao que Freud chamou de “romance familiar”. A morte o devolve à infância (embora o inconsciente seja atemporal) e deixa-o nas mãos de uma última pulsão, que desdenha da mais elementar racionalidade. Proust perdeu sua infantil e agônica aposta de ser “mais médico que os médicos”, de curar-se sozinho… Mas morrer, como escreveu um dia, não lhe seria novidade. Simbolicamente, sua última palavra, como realça Michel Schneider, foi “Robert”, dirigida ao irmão cirurgião. Um nome que, em sua segunda sílaba, guarda a palavra francesa “air” e “[…] mostra o que durante toda a sua vida de asmático lhe faltou: o ar”.